Descrição de chapéu

Filmes mostram dança negra contemporânea bem além dos clichês

Documentários são partes diferentes de uma conversa até agora mal ouvida pelo grande público, mas inescapável no Brasil

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

São Paulo

O que estamos falando quando falamos de corpos negros na dança? Dois documentários agora nas telas mostram formas diferentes de responder a questão.

Acaba de estrear na TV Cultura um documentário sobre a vida e trajetória de Ismael Ivo. Primeiro negro a dirigir o Teatro Nacional de Weimar, na Alemanha, e o Balé da Cidade, no Theatro Municipal de São Paulo, o artista morreu em abril, vítima de Covid.

Ivo foi um dos maiores nomes da dança nacional, mas, até sua morte, teve menos reconhecimento público no Brasil do que no exterior, avaliam os entrevistados de “Ismael Vivo”, documentário dirigido pelo jornalista Alberto Pereira Jr., roteirista e apresentador do programa “Trace Brasil”.

Em 50 minutos, o filme reconstitui a trajetória do bailarino, coreógrafo, diretor e curador. Antes de dirigir o Balé da Cidade, ele foi responsável pela programação de dança da Bienal de Veneza e criou o ImpulzTanz, um dos maiores festivais da área, em Viena.

Quem conduz o trajeto pela carreira de Ivo é Merícia Cassiana, uma jovem e ainda desconhecida dançarina negra. A história é contada com muitas imagens de arquivo com o artista dançando ou falando sobre seu trabalho, entremeadas por depoimentos de colegas, familiares, artistas, representantes da cultura oficial —diretores de TV, cinema ou instituições culturais e grandes companhias, artistas internacionais— ou ligados a setores dos movimentos negros e periféricos brasileiros.

Os depoimentos confirmam, ou reafirmam, a importância do artista e também uma excepcionalidade: independentemente e além do talento individual, ele ocupou espaços da cultura hegemônica, nos quais o acesso de corpos negros têm sido historicamente negado.

Se agora estamos vendo um aumento de bailarinos negros contratados por grandes companhias, o número ainda é ínfimo num país no qual 56,10% da população se declara negra, segundo o IBGE. E quase nunca no papel principal, como diz Ingrid Silva, primeira bailarina do Dance Theatre of Harlem, uma das entrevistadas do documentário. Como Ingrid, Ivo foi um dos poucos no topo da hierarquia de uma dança predominantemente branca.

Ele dizia isso em palavras —repetia ser o primeiro negro a dirigir os teatros de Weimar e São Paulo e um infiltrado na cultura da elite— e com a força simbólica de seu corpo em movimento.

A trajetória de Ivo fala do corpo negro na dança, mas não necessariamente da dança negra. Esse é o foco do outro documentário em cartaz no Circuito Spcine e Espaço Itaú, “Danças Negras”, dirigido pelos ativistas e pesquisadores de cultura negra João Nascimento e Firmino Pitanga.

A questão aqui é afirmar e ocupar os espaços não só com os corpos, mas com linguagem, expressão e cultura de uma outra matriz. Com outras palavras e movimentos.

Depoimentos e entrevistas com artistas, pesquisadores e ativistas ressaltam as lutas políticas coletivas e a afirmação de uma dança com identidade própria, não sujeita à linguagem eurocêntrica do clássico/moderno/contemporâneo dominante.

Negros e brancos, líderes políticos ou religiosos, dançarinos e pesquisadores destacam o racismo estrutural que exclui essa dança da cultura oficial, seja nos teatros, seja no mundo acadêmico. E colocam na roda esse lado da conversa —na marra, como diz a pesquisadora Helena Katz no documentário.

“O racismo é uma ideologia que consiste em inferiorizar os outros, negar a humanidade dos descendentes de africanos, a sua capacidade de produzir obras de arte”, diz o antropólogo Kabengele Munanga, entrevistado em “Danças Negras”.

As imagens do filme, espetáculos ou aulas, dizem muito sobre essa capacidade. E as conversas dão pistas, para quem ainda conhece pouco, do que é essa dança negra contemporânea, bem além dos clichês do folclore.

Há resgate de manifestações ditas populares e bases tradicionais —algo que, a seu modo, a dança clássica ou contemporânea eurocêntrica também faz. O documentário mostra como elementos tradicionais de origem africana comportam técnicas sofisticadas que dialogam com visões modernas e pós-modernas de dança e como são recriados na manifestação artística.

Capoeira ou danças de orixás são bases poderosas e estão aqui desde sempre, mas ainda são pouco assimiladas como arte.

Quando falamos de dança negra estamos falando disso, e de corpos, cabelos, quadris. De uma multiplicidade de técnicas, mas também, de política e luta. É a ocupação individual de espaços de poder, tanto quanto a afirmação coletiva de um outro lugar para se fazer dança.

Os dois documentários são partes diferentes de uma mesma conversa até agora mal ouvida pelo grande público, mas inescapável no Brasil e no mundo no século 21. E não é à toa que essa conversa está rolando aqui e agora no circuito oficial.

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.