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Vampiros sexualmente ambíguos de Anne Rice acolheram multidões

Sem a autora, morta neste sábado, muitas sagas fantásticas provavelmente não teriam invadido as livrarias

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Cada vez que um adolescente em algum lugar do planeta começa a ler um livro de fantasia ou de terror, ele pode não saber, mas está pagando um tributo a Anne Rice. Sem a obra da escritora americana, essas infindáveis sagas fantásticas destinadas ao público jovem adulto provavelmente não teriam invadido as livrarias em tempos recentes.

Rice, que morreu no último sábado (11) em decorrência de um AVC, aos 80 anos, deixou um legado de obras diversas, agrupadas em vários ciclos temáticos. Mas, acima disso, foi a pioneira em dois pontos fundamentais da literatura de entretenimento.

Em 1976, quando lançou "Entrevista com o Vampiro", seu romance de estreia, um bom público comprou rapidamente a ideia de descobrir criaturas imortais, com séculos de idade, passeando pelas ruas da atualidade.

Além dessa inserção moderna dos vampiros, que inspirou outros romancistas a trabalharem dessa forma com essas criaturas e outros monstros antigos, o sucesso popular fez Rice escrever mais livros com os personagens. A autora antecipou a febre contemporânea de leitores em busca de romances sequenciais.

Embora tenha formatado o gênero fantástico que seduz adolescentes hoje em dia, como "Jogos Vorazes" ou a saga "Crepúsculo", esta última impensável sem a influência de Rice, ela não teve como alvo o público jovem.

Seus tipos, notadamente Lestat, mais importante de todos, são extremamente sedutores para os leitores maduros.

Criando vampiros belos, melancólicos e sexualmente ambíguos, construiu um ambiente gótico pronto para acolher gente de qualquer idade e gênero disposta a acreditar em paixões e perdições.

Apesar do sucesso grande e quase imediato de "Entrevista com o Vampiro", seguido por "O Vampiro Lestat", "A Rainha dos Condenados" e mais 11 títulos do mesmo universo, a crítica não deu bola para seus primeiros livros. Os poucos resenhistas que destinaram alguma atenção a ela o fizeram para falar mal.

É importante ressaltar que os anos 1970 se configuram como uma época na literatura popular em que sucesso de vendas e respeito pela crítica especializada praticamente nunca caminharam lado a lado.

Rice passou a dividir espaço na lista dos mais vendidos com nomes como Harold Robbins e Sidney Sheldon, autores com fórmulas prontas e gastas que ganharam fama com novelas inverossímeis e supostamente glamourosas, ambientadas em cenários de luxo e luxúria.

Com a força comercial das muitas sequências protagonizadas por Lestat e seus amigos, que Rice chamou de "Crônicas Vampirescas", ela teve chance de evoluir como escritora e se abriu a novos ciclos, com resultados irregulares.

Nada do que fez é pior do que três novelas eróticas no início dos anos 1980, que assinou com o pseudônimo A.N. Roquelaure. No início da década seguinte, escreveu quatro livros de histórias de bruxas, repetindo a repercussão de seus vampiros. Destaque para "A Hora das Bruxas", em dois volumes, e "Lasher".

Neste século, a escritora voltou ao cristianismo de sua infância, depois da maturidade agnóstica. Escreveu livros que tratam de temas como a juventude de Jesus, em "Cristo Senhor: A Saga do Egito", nada comparáveis às boas tramas de vampiro. A aceitação dessa nova fase foi ruim. São os livros dela que menos geraram reimpressões para um público maior.

Já as "Crônicas Vampirescas", às quais ela retornava de tempos em tempos com lançamento de algum livro de Lestat, permanecem como o melhor que Anne Rice produziu em sua literatura. Ela ampliou seus seguidores, principalmente depois de alcançar um público maior com a adaptação para o cinema de "Entrevista com o Vampiro", em 1994.

O filme de Neil Jordan é muito bom, retrato perfeito da atmosfera homoerótica e da decadência charmosa das criaturas queridas da autora. Embora ela tenha inicialmente detestado a escolha de Tom Cruise como Lestat, num elenco que também tinha astros em ascensão como Brad Pitt, Christian Slater, Antonio Banderas e uma ainda muito jovem Kirsten Dunst, depois Rice admitiu ter gostado da interpretação do protagonista.

Com seus vampiros bonitões, deprimidos e com pose de estrelas de rock, Anne Rice permanece como um nome importante na literatura pop e uma artista a ser descoberta pelos garotos que celebram a saga "Crepúsculo" sem ter tido ainda a chance de conhecer a força de seus antecessores.

Erramos: o texto foi alterado

O vampiro entrevistado no livro "Entrevista com o Vampiro" é Louis, e não Lestat, como afirmava versão anterior deste texto.

 

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