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'Ubu Rei' provoca risos nervosos com eterna alegoria do presente

Toda vez que os 'ridículos tiranos' entram em cena na vida real, a peça de Alfred Jarry volta a ser traduzida e reencenada

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Felipe Charbel

Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autor de 'Janelas Irreais — Um Diário de Releituras' (Relicário)

Ubu Rei

  • Preço R$ 99,00 (128 págs.); R$ 39,90 (ebook)
  • Autor Alfred Jarry
  • Editora Ubu
  • Tradução Gregório Duvivier e Bárbara Duvivier

Encenada pela primeira vez em 1896, "Ubu Rei ou Os Poloneses", de Alfred Jarry, estabeleceu uma nova maneira de representar a política nos palcos. Ainda que o título remeta a "Édipo Rei", e que várias cenas da peça —como a Mãe Ubu encorajando o marido a usurpar o trono da Polônia— sejam releituras de "Macbeth" ou de "Hamlet", Jarry dispensa a seriedade de Sófocles e de Shakespeare.

Conflitos dinásticos, guerras sangrentas, traições, fantasmas clamando por vingança –boa parte do que costumava ser a matéria-prima das tragédias é carnavalizada por Jarry. E isso não causa nenhum espanto, se pensarmos que o autor da peça foi o inventor da "patafísica" —a debochada ciência que investiga o absurdo da vida.

obra de arte
'Ubu Enchaîné', desenho de Pablo Picasso de 1937; o artista francês usou frequentemente a figura do Pai Ubu, protagonista da peça 'Ubu Rei', de Alfred Jarry, como um símbolo de injustiça e opressão ao longo da década de 1930, sobretudo durante a ditadura franquista - Reprodução

No lugar do trágico, "Ubu Rei" põe em cena o grotesco político –tudo aquilo que acontece quando uma das mais nobres ocupações humanas se degenera nas mãos de soberanos desqualificados. Pai Ubu, o personagem principal, é um palerma. Glutão, boquirroto e de intelecto limitado, ele parece bastante satisfeito consigo mesmo na abertura da peça. Suas condecorações são ridículas ("capitão dos dragões", "ordem da Águia Vermelha"), seus banquetes são repulsivos ("costeleta de ratazão" com acompanhamento de "couve-flor à la merdra"). Ainda assim, nada o aborrece.

É a Mãe Ubu quem planta a sementinha da avidez na cabeça oca do marido. "Se eu fosse você, eu metia essa bunda num trono." Pai Ubu se convence de que não é má ideia ser rei. Com o auxílio do Capitão Bostadura —e uma boa dose de sorte— ele consegue destronar o monarca polonês e se torna um déspota. Uma vez no poder, Pai Ubu aterroriza nobres, extorque a população com novos impostos, declara guerras. Acaba deposto.

No lugar da catarse que caracteriza as tragédias, o que temos ao fim da jornada insensata do Pai Ubu é outro tipo de purificação. Ela se dá pelo riso, e não pelo terror ou pela piedade. Mas do que rimos, no fim das contas? Da patetice dos personagens? Ou será que rimos de nervoso? É notável o potencial alegórico da peça. O texto se acomoda muito bem a contextos históricos diferentes, sem parecer datado.

Apesar de já ter 125 anos de idade, o Pai Ubu ainda não envelheceu. Toda vez que os "ridículos tiranos" entram em cena na vida real, e que a vulgaridade, a mentira e a estupidez parecem se tornar os atributos mais comuns em um governante, a peça de Jarry volta a ser traduzida e reencenada, sempre com diversas alusões ao que está acontecendo hoje em dia —no hoje dessa nova montagem.

Esse é um dos principais méritos da nova tradução de "Ubu Rei", que os irmãos Bárbara Duvivier e Gregorio Duvivier prepararam para a Ubu Editora –ela é capaz de alimentar o tempo todo a perene atualidade do texto ("Pai Ubu é um crápula e parece que a família dele é uma quadrilha abominável").

Ao mesmo tempo, os tradutores encontram boas soluções para realçar os traços rabelaisianos da escrita de Jarry, repleta de alusões ao baixo corporal. Assim, o capitão que serve de braço direito ao Pai Ubu é batizado como "Bostadura" (na tradução de Ferreira Gullar ele era "Bordadura"). Já "pallotin", neologismo criado por Jarry e que costuma aparecer como "paspalino" ou "palhadino", aparece aqui como "caralheiro".

Outro destaque da edição é o aparato crítico, formado por textos de Firmin Gémier (o primeiro intérprete do Pai Ubu), Guillaume Apollinaire, Otto Maria Carpeaux e Michel Foucault —que vê em "Ubu Rei" a figuração das "engrenagens do poder grotesco, da soberania infame". Uma das leituras mais interessantes da peça, também incluída nessa nova edição, é a que o próprio Jarry faz do seu texto.

Ainda que a ação se passe num Estado que recebe o nome de Polônia, é, segundo o autor, um "cenário que pretende representar Lugar Nenhum". O que explicaria o riso de nervoso. "Lugar Nenhum é qualquer lugar, principalmente o país onde nos encontramos."

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