Descrição de chapéu teatro

Peças muito longas geram tédio, mas criam vínculos inusitados com a plateia

Montagens de 5h e 24h foram apresentadas na MITsp; formato favorece um novo estado de atenção

LÚCIA MONTEIRO

RESUMO Autora analisa uso do tempo dilatado no teatro, partindo de exemplos de espetáculos apresentados em SP: "Árvores Abatidas" (5 horas) e "A Gente se Vê por Aqui" (24 horas). Ela diz que o formato longo, na contramão da diversão instantânea, favorece um novo estado de atenção e maior vínculo com a obra. 

 

"O monólogo de vocês não precisa ser longo", dizia na semana passada o encenador polonês Krystian Lupa durante um workshop incluído nas atividades pedagógicas da quinta edição da Mostra Internacional de Teatro, em São Paulo.

 
"É vantajoso, no entanto, que passem muito tempo a escrevê-lo. Quanto mais tempo levo na escrita, mais o texto se torna meu. No início, ele soa falso. É como quando você faz um passeio curto e volta para casa com aquilo que já conhecia. Novidades surgem ao nos aventurarmos por percursos mais extensos. Nesse caso, mesmo um monólogo sobre sua mãe pode trazer coisas que não haviam passado por sua cabeça nos últimos dez ou 15 anos."

Lupa comentava os escritos dos participantes do curso, mas sua oposição entre passeios curtos e longos ilustra bem o que ocorre com elenco e plateia em espetáculos teatrais de longa duração —que integram a arte performática desde a Antiguidade, mas se tornaram familiares para o público do século 21. Nos últimos anos, são diversas as peças que vêm investindo nas potencialidades do tempo dilatado, terreno fértil para experimentações e quebras de recordes.

"Árvores Abatidas", o espetáculo de quase cinco horas de duração que o diretor polonês apresentou em São Paulo, estreou em 2015 no Festival de Avignon, na França, e desde então vem sendo saudado como obra-prima por onde passa. A peça baseia-se no romance homônimo de Thomas Bernhard, de 1984, marcado por repetições, parágrafos intermináveis e uma terrível sensação de fastio. Levado aos palcos, o texto original explora a (lenta) passagem do tempo; tédio e cansaço apoderam-se de personagens e espectadores.

Se é verdade que "Árvores Abatidas" oferece um lugar privilegiado para entender a lentidão e a longa duração em cena, a peça não é a mais extensa de Lupa: "Factory 2" (2008), sobre o lendário ateliê de Andy Warhol em Nova York, levava oito horas.

Tampouco é a obra de maior fôlego desta edição do festival paulista: "A Gente se Vê por Aqui", do artista plástico e escritor Nuno Ramos, foi apresentada no último domingo (11), com início às 21h e encerramento somente às 21h17 do dia seguinte. A peça-performance se pautou pela programação da TV Globo, transmitida ao vivo e encenada pelos atores Luciana Paes e Danilo Grangheia, desde a abertura do "Fantástico" até o final do "Jornal Nacional".

Esses exemplos podem ser associados a uma "estética da duração" típica do teatro pós-dramático que, a partir da segunda metade do século 20, revoluciona as artes performáticas ao propor contaminações entre realidade e ficção e revelar aspectos do fazer teatral antes escondidos. São muitas as montagens no teatro contemporâneo que exploram essa temporalidade dilatada --também ligada a um "teatro da lentidão", como o criado por Bob Wilson.

LONGA NOITE

Em 2014, o francês Thomas Jolly deu o que falar em Avignon com uma encenação de "Henrique 6º" que começava às 10h e terminava às 4h do dia seguinte. As 18 horas de espetáculo compreendiam duas guerras e 150 personagens, distribuídos em oito episódios. Em 2015, o belga Jan Fabre estreou a peça "Monte Olimpo", em que 28 atores ficam em cena por 24 horas, incluindo momentos de sono --para o elenco e para o público: uma área no local de apresentação é destinada a essa finalidade.

O parisiense Théâtre du Soleil também costuma produzir peças inesquecíveis em formato longo. Em "Os Efêmeros" (2006) -- apresentada no Brasil em 2007--, a trupe dirigida por Ariane Mnouchkine se desdobrava em cena por mais de seis horas, atuando, fazendo contrarregragem e servindo refeições à plateia. Mais recentemente, "Une Chambre en Inde" (um quarto na Índia), de 2016 e ainda inédita no Brasil, levava quatro horas e tinha uma área com colchões para descanso do público.

pintura em vermelho
Pintura de capa da Ilustríssima - Deborah Paiva

O teatro brasileiro tem nos paulistanos Teatro da Vertigem e Teatro Oficina grupos que recorrem com frequência a espetáculos de longa duração.

Nos trabalhos do Teatro da Vertigem, o tempo longo costuma estar associado a percursos pela cidade, numa mescla entre teatro e vida, ficção e realidade, que acaba por revelar ao público aspectos desconhecidos do espaço urbano, transformado, inclusive cenograficamente, em meio à interação com o elenco e a plateia em movimento.

No caso do grupo dirigido por Zé Celso, o repertório já teve "As Bacantes" (1996), que durou seis horas dentro do teatro, "Macumba Antropófaga" (2008), com duração semelhante, mas que incluiu um cortejo pela vizinhança, e "Os Sertões" (2002-2007), que chegou a ter 27 horas distribuídas por cinco episódios.

Por que esses espetáculos duram tanto? Quais são as consequências do tempo dilatado na plateia e na cena?

Os diretores costumam dizer que a longa duração não é um objetivo em si, que não se trata de ir além de duas ou três horas de cena apenas para fazer algo diferente. Os espetáculos, dizem, duram o quanto precisam, de acordo com a utopia e o desejo que movem cada um.

É verdade que as peças mais longas podem ser cansativas, às vezes até tediosas, mas acredita-se que elas proporcionam, sobretudo para o espectador contemporâneo, um acesso a novas modalidades de atenção.

TRADIÇÃO

Que fique claro: a cena contemporânea não inventou a longa duração. Na história do teatro, espetáculos que ocupam fatias de tempo mais grossas do que duas horas são frequentes. Na Antiguidade, na época do teatro elisabetano ou da ópera wagneriana, as performances se espraiavam por um dia inteiro --ou avançavam noite adentro--, nada apartadas de outras ocupações, como comer, falar, flertar, fazer negócios.

No teatro antigo, um público barulhento reagia às cenas que representavam em tempo real as ações dos heróis --não havendo resumos ou descrições com finalidade dramática, a narrativa era feita, primordialmente, pela atuação ilustrativa dos atores.

É difícil precisar a duração objetiva dos espetáculos do passado, que não eram medidos em minutos, mas em função, por exemplo, da quantidade de atos ou versos (na tragédia clássica eram, respectivamente, cinco e cerca de 300). Cada ato não podia durar mais do que as velas que iluminavam a cena; nos intervalos, enquanto as velas eram trocadas, os atores descansavam e outras atrações entretinham o público.

Shakespeare é autor das maiores peças já escritas em língua inglesa. Sua trilogia dedicada ao longo reinado de Henrique 6º e à Guerra das Rosas, escrita na década de 1590, tem 12.350 linhas. Depois da morte do dramaturgo, a primeira tentativa de encenação fiel ao espírito do teatro elisabetano de que se tem notícia aconteceu em 1906, sob a direção de Frank Benson. Com cenário estático e ação contínua, a obra foi dividida em três apresentações, realizadas em noites sucessivas. Críticos indicam que, ainda assim, houve cortes.

A história da ópera, recheada de diversas travessias temporais, tem na tetralogia de Richard Wagner, "O Anel dos Nibelungos" (1874), com suas 18 horas de duração, um marco sempre lembrado.

Mas as implicações do tempo estendido mudam de um período a outro. Na década de 1970, encenadores como Bob Wilson e Peter Brook se notabilizaram por espetáculos longos ou extremamente longos, caracterizados por uma atenção especial ao gesto, ao detalhe, ao vazio, ao silêncio e às pausas, no contexto daquilo que o professor e teórico alemão Hans-Thies Lehmann chama de "ruptura com a percepção automatizada".

Ganham visibilidade, assim, o tempo de inatividade do ator entre suas entradas em cena e os eventos ocorridos antes ou depois da apresentação, ou seja, "o tempo real do processo teatral em sua totalidade", nas palavras de Lehmann.

Primeira peça de Bob Wilson a ser encenada em São Paulo, "A Vida e Época de Dave Clark" (1973) --o nome do líder soviético Josef Stálin foi substituído no título por imposição da censura-- trazia enormes "tableaux-vivants" (quadros vivos) que se moviam com lentidão ao longo de 12 horas. A seu respeito, o crítico Michael Smith escreveu: "Há sempre tanta coisa acontecendo que mesmo no ritmo deliberadamente lento da longa noite, os olhos nunca conseguem acompanhar por inteiro. Algo está sempre mudando, e algo sempre permanece igual".

Em 1985, um Peter Brook já famoso por suas encenações de "Marat/Sade" e "Sonho de uma Noite de Verão" estreou seu "Mahabharata". O épico baseado no poema indiano considerado o mais longo da literatura --cerca de cem mil versos em 18 volumes, escritos provavelmente entre os séculos 4º a.C. e 2º d.C.-- era composto de três atos, perfazendo um total de nove horas.

O britânico foi atraído pela narrativa não linear da obra, por seu "efeito telescópico" --por ele apontado como base do teatro shakespeariano-- e pela ideia de totalidade nela embutida. "Acredita-se que tudo o que existe está em 'Mahabharata' --o que não está ali não existe em nenhum outro lugar", disse Brook certa vez.

Sobre a estética da duração ensejada por produções como as de Brook, Wilson e Lupa, o professor Lehmann escreve: "Surpreendido, abalado, sensorialmente seduzido ou mesmo hipnotizado, o espectador experimenta a lenta passagem do tempo. (...) Sente-se nitidamente a diferença do ritmo perceptivo em relação ao andamento habitual da vida e do teatro".

CRISE DE ATENÇÃO

É claro que a percepção de um tempo que passa lentamente não depende diretamente da duração objetiva da peça. A questão do tempo distendido é, aliás, incômoda para diversos diretores. Interrogado a respeito do que determina a duração dos espetáculos, Zé Celso respondeu citando os 90 minutos de "Acordes" (2012): "O Oficina não se acostuma a nada. Se você for ver a história do Oficina, vai ver diversidade de tempos. Nos últimos anos, estouramos o tempo ressuscitado pelo neoliberalismo: time is money [tempo é dinheiro]".

O próprio Krystian Lupa, quando aceitou o convite para a entrevista à Folha, pediu que as perguntas não se restringissem à duração da peça. Não por ser algo que o aborreça, mas porque o assunto, dependendo de como é abordado, rouba espaço de questões estilísticas e temáticas.

Além disso, ele ressalta que seu interesse não é quebrar recordes, mas proporcionar experiências transformadoras: "Adoro momentos de tédio. É quando nada acontece que começamos a enxergar as pessoas. Chatos são as peças e os filmes mainstream, construídos sobre clichês e que precisam de ação e velocidade o tempo todo".

O primeiro ato de "Árvores Abatidas" é todo dedicado a uma insuportável espera: 11 convivas estão reunidos para um "jantar artístico" e aguardam a chegada da estrela da noite, um ator que só virá depois de sua apresentação teatral de "O Pato Selvagem" (1884), de Ibsen. "Atores estão acostumados a jantar depois das onze", diz o astro ao finalmente sentar-se à mesa, numa fala que interpela diretamente o estômago dos espectadores, na plateia das 18h às 23h.

Estudos indicam a existência de uma "crise de atenção" depois de 90 ou 120 minutos de peça --é quando surgem necessidades fisiológicas como sono, fome e vontade de ir ao banheiro. Para não desagradar ou perder a plateia, a dramaturgia tradicional costuma combater a distração do público aumentando a intensidade da cena ou levando o espetáculo ao fim.

No teatro de longa duração, faz-se frequentemente o contrário. Lupa busca os estados de atenção que surgem depois do tédio e da exaustão --mas para isso é preciso aceitar e acolher a ansiedade pela pausa. No palco, os atores passam por algo semelhante, mas o polonês acredita que, depois do tédio e da exaustão, suas performances ganham em densidade.

Na plateia do Sesc Pinheiros, onde sua peça foi encenada, houve de fato um insistente ranger de cadeiras pouco antes do final do primeiro ato, acompanhado por barulhos de papéis de bala se abrindo e de luzes de telefones celulares, mostrando impaciência e desconcentração da plateia. O diretor conta que, por onde passa, a peça costuma perder cerca de 15% do seu público ao final da primeira metade.

Quem retorna depois da pausa, segundo ele, atinge um outro nível de entrega ao espetáculo: o que chama de "etapa de purificação", depois da qual plateia e elenco atingem um estado de atenção mais raro --o que não deixa de ser uma visão tranquilizadora para espectadores que se culpam por eventuais cochilos, distrações, bocejos e aborrecimentos.

A temporalidade distendida contribui, ainda, para uma maior conscientização por parte dos espectadores. Nota-se a qualidade dos assentos e a arquitetura da sala. Não é possível ignorar totalmente o vizinho de poltrona. Ir ao teatro, nesses casos, deixa de ser programa corriqueiro que antecede o jantar e se torna uma viagem intensa, ao mesmo tempo rica e desconfortável, perturbadora.

MARATONA MULTIMÍDIA

Uma peça longa não precisa, contudo, ser lenta. A estética da duração é frequentemente combinada com outras linguagens artísticas e audiovisuais, como música, dança, vídeo e literatura, levando o teatro para zonas-limite, na fronteira com outras experiências do espectador --como a do visitante de uma exposição de arte contemporânea, que passa por vídeos sem precisar vê-los em sua inteireza.

E era justamente isso que faziam os espectadores de "A Gente se Vê por Aqui", visto de maneira fragmentada, em passagens fracionadas, como num "zapping". A obra radicaliza a experiência de longa duração, sem abraçar, ao menos em um primeiro momento, a estética da lentidão.

Ouvindo, em tempo real, a programação da Globo de maneira praticamente ininterrupta por 24 horas, os dois atores de "A Gente se Vê por Aqui" iniciaram a maratona do último domingo no ritmo frenético da televisão, muito pouco afeita aos momentos de silêncio e contemplação. Com menos de duas horas de espetáculo, ambos já haviam comido, bebido, fumado e ido ao banheiro mais de uma vez.

O espetáculo pode ser visto como comentário crítico sobre dispositivos de vigilância em tempo real empregados pela televisão em programas como "Big Brother Brasil". Ainda assim, ele reproduz sua lógica perversa: uma câmera conectada à internet transmitia a performance online o tempo todo. E o microfone seguia funcionando mesmo quando os atores iam ao banheiro.

No penúltimo bloco do "Fantástico" já era difícil esconder os primeiros sinais de fadiga. Emudecidos pelo turbilhão de banalidades que invadia seus ouvidos, os atores se abraçaram, riram e acolheram um breve instante de afonia.

Mas logo voltaram a mimetizar o linguajar limitado repetido em comerciais, noticiários, filmes dublados e programas de variedades que se alternam na programação. Num curioso efeito mimético, as pessoas do público também entravam e saíam da sala de maneira frenética e, do lado de fora, falavam alto.

De manhã, ultrapassadas as primeiras camadas da exaustão, o jogo cênico tornou-se mais livre, descolando-se do texto que os fones de ouvido ditavam ininterruptamente. Num dado momento, o ator toma a vassoura e, absorto, faz uma cuidadosa faxina na cozinha improvisada sobre o palco. A atriz se dedica a criar uma enorme escultura em fita adesiva, inspirada nas indicações de Ana Maria Braga e seu convidado, um "chef chocolatier" belga.

Pouco a pouco, a comicidade que os dois exacerbavam no início cede lugar a instantes de melancolia e delírio, desvelando o pavor que a televisão e seus apresentadores nutrem pelos tempos mortos. Em "Árvores Abatidas", uma personagem é lembrada por seu emprego peculiar (ela ensinava atores a caminhar). Na arte de Bob Wilson, atores podem levar até duas horas para atravessar, muito lentamente, a boca de cena. Depois de se entediar, o público acaba por se deleitar com a precisão do gesto, da iluminação, da mise-en-scène.

Para o ansioso espectador de hoje, acostumado às telas individuais e à comunicação por mensagens não presenciais, a estética da duração constitui-se, finalmente, como uma possibilidade de fruição compartilhada de um produto cultural por um tempo extenso. É tranquilizador saber que a maratona está ocorrendo e que podemos voltar a vê-la quando quisermos, assim como apazigua a solidão e o vazio poder assistir às infinitas temporadas de séries televisivas e reality shows.

Parafraseando Krystian Lupa: depois de passar horas encerrada na caixa preta com os mesmos atores e a mesma plateia, a sensação é de que o espetáculo se torna "mais meu". A longa duração favorece o vínculo com o elenco e com o público, um sentimento de empatia, a formação de uma comunidade efêmera. Teremos saudades das horas passadas juntos, em que compartilhamos espaço, tempo, texto.

Na última segunda, quando "A Gente se Vê por Aqui" acabou, depois de 24 horas e 17 minutos, o público não tinha pressa em deixar a sala.


Lúcia Monteiro, 40, é doutora em cinema pela Sorbonne Nouvelle Paris 3 e pela USP. 

Deborah Paiva, 67, é artista plástica.

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