Poesia de Augusto de Campos chega aos 70 anos em forma

Em 1948, escritor publicou seu primeiro poema e conheceu Décio Pignatari

Rodrigo Simon

[RESUMO] Sete décadas atrás, Augusto de Campos publicou seu primeiro poema, conheceu Décio Pignatari e o apresentou ao irmão Haroldo, germinando o movimento da poesia concreta.

 

Na tela do computador, o poema “Caça” hoje ganha movimento e se mostra lentamente ao leitor/internauta. Mais de meio século depois de tê-lo criado, é no Instagram que o poeta Augusto de Campos encontra as possibilidades com as quais havia sonhado então.

“Mas luminosos ou film-letras, quem os tivera!”, escreveu em 1955, no prefácio de “Poetamenos”, a série de poemas coloridos datilografados, que teve sua primeira impressão em tipografia manual no nº 2 da revista-livro Noigandres.

“O mais jovem poeta brasileiro, quiçá do mundo. Forever young”, diz o comentário de um de seus mais de 7.000 seguidores. Pois, do alto de seus 87 anos, o “eternamente jovem” poeta está completando 70 anos de carreira literária. 

Isso quer dizer que, 20 anos antes da invenção da internet e quatro décadas antes de sua chegada ao Brasil, Augusto já pensava em formatos que levariam a poesia para além de sua forma e suporte tradicionais.

Poeta, tradutor e ensaísta, ao lado do irmão Haroldo (1929-2003) e do amigo Décio Pignatari (1927-2012) criou, na década de 1950, a chamada poesia concreta brasileira. Inspirados pelo poema “Un Coup de Dés Jamais N’Abolira le Hasard” (um lance de dados jamais abolirá o acaso), de Mallarmé, pelos escritos de Ezra Pound, e.e. cummings e James Joyce, e pela música de Stockhausen e Pierre Boulez, eles queriam renovar a poesia brasileira.

Insatisfeitos com a produção da chamada geração de 45 —exceção feita a João Cabral de Melo Neto—, que, na opinião dos jovens poetas, voltava a padrões pré-modernistas, Augusto, Haroldo e Décio propunham retomar as experiências de vanguarda interrompidas pelas duas Guerras Mundiais. O novo programa levaria a uma poesia “verbivocovisual”.

Ou, como declararam no “Plano-Piloto para Poesia Concreta”: ela dava por encerrado o ciclo histórico do verso e descartava o desenvolvimento linear do poema, que passaria a ter como agente estrutural o espaço gráfico.

A estreia de Augusto foi precoce. Contava ainda 17 anos quando o poeta Mário da Silva Brito levou ao Jornal de Notícias, de São Paulo, o breve e substantivo poema “A Fuga”, de apenas três estrofes. “O poema é de Augusto Luis de Campos, novo valor da poesia paulista”, informava a legenda da coluna “Antologia Poética” no dia 27 de junho de 1948.

Coincidentemente, 11 dias antes, outro jovem poeta também havia feito sua estreia literária. No dia 16 de junho, “O Lobishomem”, de um tal “José Pignatari”, apareceu no jornal O Estado de S. Paulo. Tratava-se, evidentemente, de Décio Pignatari, que aos 20 anos exibia pela primeira vez seu poema “O Lobisomem”.
O encontro dos dois escritores aconteceria no final do emblemático ano de 1948, em uma conferência sobre o pintor Di Cavalcanti comandada pelo poeta Murilo Mendes no Instituto dos Arquitetos de São Paulo.

“Eu ainda não conhecia o Décio pessoalmente, mas havia ficado muito impressionado com o poema que ele, levado pelo Sérgio Milliet, havia publicado em O Estado de S. Paulo”, conta Augusto, que se apressou em apresentar o novo amigo a seu irmão Haroldo.

O primeiro trabalho conjunto do trio não tardaria. No início de 1949, a Revista de Novíssimos publicou poemas de Augusto, Haroldo e Décio, além de versos de dois outros jovens que nos anos seguintes ganhariam destaque em áreas distantes da literatura: Boris Fausto, que viria a se transformar em um dos maiores historiadores do Brasil, e um jovem estudante de nome Fernando Henrique Cardoso, que, aos 18 anos, ainda nem sonhava que um dia seria eleito presidente do Brasil.

“Estávamos iniciando o nosso caminho, e acho que ali os poemas ainda têm muito pouco a ver com o que veio a se chamar de poesia concreta depois de uma longa conspiração dos três, Décio e os Campos.”

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O poeta Augusto de Campos, na época da abertura de sua mostra "Rever", em 2016 - Marlene Bergamo - 03.mai.2016/Folhapress

Não há consenso sobre a data exata em que o movimento teria surgido no Brasil. “Quando se trata do desenvolvimento do projeto de poesia concreta, podem-se escolher várias periodizações, dependendo do ponto de vista adotado”, diz o professor Paulo Franchetti em seu livro “Alguns Aspectos da Teoria da Poesia Concreta” (ed. Unicamp).

Assim, se é possível pensar na “Primeira Exposição de Arte Concreta”, realizada em fins de 1956 no MAM-SP, como o instante em que o movimento floresceu, é também possível pensar no ano de 1948 como o momento em que as ideias concretistas na poesia começaram a germinar.

Além da “conspiração” dos irmãos Campos e Pignatari, a Revista de Novíssimos trouxe também textos de Waldemar Cordeiro e Lothar Charoux, que, em 1952, na exposição do grupo Ruptura, dariam início à arte concreta no Brasil.

Mais de meio século depois daqueles anos de efervescência, Augusto de Campos não esconde certa mágoa por não ter no Brasil o reconhecimento que o grupo dos poetas concretos ganhou no exterior —Julio Cortázar, Octavio Paz e Jacques Derrida foram apenas alguns a lhes renderem homenagens.

No entanto, se o ano que marca as sete décadas de sua poesia termina sem grandes homenagens por aqui, no exterior Augusto começou com o gosto de um dos maiores reconhecimentos que um poeta pode ter: em setembro de 2017, esteve em Budapeste e Pécs, na Hungria, para receber o Grande Prêmio Janus Pannonius, considerado por muitos como o Nobel da poesia, pela primeira vez concedido a um brasileiro.

De alguma forma, o prêmio é o reconhecimento a um dos “três poetas do bairro das Perdizes que conseguiram aterrorizar a poesia brasileira”, como escreveu o próprio Augusto em seu prefácio à “Teoria da Poesia Concreta”. 


Rodrigo Simon é mestre em letras pela USP e doutorando em teoria e história literária pelo Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp.

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