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Eterna promessa, literatura fantástica brasileira nunca decola

Livros de horror permanecem à margem, desprezados pela crítica e incapazes de deixar marca na cultura nacional

SANTIAGO NAZARIAN

Nunca houve um momento tão bom quanto o atual para a literatura fantástica no Brasil. Festivais temáticos proliferam, autores emplacam sucessos de vendas, novas produções no cinema e na TV levam o terror e a fantasia para novos públicos. A despeito disso, o momento também nunca foi pior.

Acompanho a cena há quase 20 anos. Sempre há essa sensação de “agora vai” quando a Globo anuncia uma série de terror (como “Supermax”, de 2016), quando um filme como um ator badalado estreia (como “Isolados”, de Thomas Portella, com Bruno Gagliasso, de 2014), quando surge um novo autor sucesso de vendas (como André Vianco, na virada do século). 

Entretanto, apesar de apelo comercial e sucesso relativo de público, a literatura fantástica brasileira permanece sempre à margem, não apenas desprezada pela crítica, mas incapaz de deixar uma marca na cultura nacional. 

Debate no Sesc Santo Amaro sobre literatura de horror no Brasil, com (a partir da esquerda) Santiago Nazarian, André Vianco, Marcos DeBrito e Raphael Fernandes
Debate no Sesc Santo Amaro sobre literatura de horror no Brasil, com (a partir da esquerda) Santiago Nazarian, André Vianco, Marcos DeBrito e Raphael Fernandes - Divulgação

Recentemente estive em uma mesa com autores conhecidos do gênero —Marcos DeBrito, Raphael Fernandes e o próprio André Vianco— para debater algumas dessas questões, especificamente relativas à literatura de horror. 

“Por que a literatura de horror permanece à margem?”, questionei. As justificativas correram em círculos: “não se dá espaço à literatura de gênero”, “é vista como algo menor”, “é relegada a um público infantil”. Tudo isso é verdade, mas essas são as consequências, não a causa. Por que essa literatura é vista como menor? 

O Brasil não tem uma tradição no fantástico —e isso também não chega a ser uma explicação, é outra consequência. Enquanto na América Latina existem correntes importantes de realismo fantástico, no Brasil o “realismo concreto” sempre imperou. Arrisco uma razão: a extensão territorial e a miscigenação do nosso povo fez com que a produção cultural/artística nacional se sentisse sempre na responsabilidade de explicar nossa identidade, retratar nossa realidade.

Apesar de termos um folclore riquíssimo, a fantasia na produção artística foi vista como um exagero, destinada a entreter (e, por isso, seria voltada a um público menos sofisticado ou infantojuvenil). 

Agora, enquanto temos uma diversidade enorme de formas de publicação (com os e-books) e mais espaço para produção audiovisual (com plataformas de streaming, YouTube, canais a cabo), também temos uma crise política e identitária que ressalta essa necessidade de retratar a realidade. Levar a literatura para o fantástico soa fútil num momento como este, mesmo que esteja a serviço de uma alegoria.

É triste que seja assim. Em países como a Argentina, autoras de minha geração, como Samanta Schweblin e Mariana Enriquez, conseguem emplacar sucessos editoriais, com respaldo crítico e fortes elementos sobrenaturais (vide “Distância de Resgate” de Schweblin, e “As Coisas que Perdemos no Fogo” de Enriquez). Aqui até há bons autores que tentam, mas sempre se fica numa zona cinzenta. 

Há dois anos, a produtora RT Features (que tem no currículo filmes importantes do universo fantástico, como “A Bruxa” de Robert Eggers, de 2015) resolveu encomendar e investir numa coleção de livros de terror “literário” (ou o que foi chamado posteriormente de “pós-terror”), cujos direitos de adaptação audiovisual pertenceriam a ela. 

Apenas três títulos saíram, publicados pela Companhia das Letras de forma isolada, sem a unidade de uma coleção —“As Perguntas”, de Antônio Xerxenesky, “Enterre seus Mortos”, de Ana Paula Maia, e o meu “Neve Negra”. Arrisco-me a dizer que os livros tiveram recepção morna —vistos com desconfiança pelo meio literário, tampouco foram abraçados pelos fãs do gênero. 

Talvez o mais bem-sucedido desses três tenha sido o livro de Ana Paula, não apenas pelo ótimo texto, mas exatamente por não conter elementos fantásticos e se afastar das convenções do que se chama terror (além, talvez, de carregar uma bandeira involuntária, por ter sido escrito por uma mulher negra). 

Assim, o ciclo permanece, e a literatura fantástica que encontra espaço é voltada a um público mais jovem, uma literatura de entretenimento. E que mal há nisso?, perguntariam os autores que vendem bem e contestam a divisão entre “alta” e “baixa” literatura, levantando a bandeira da ficção comercial como uma forma de popularizar a leitura.

O problema é que a literatura de entretenimento é feita para ser de consumo fácil e rápido —comunica-se com o instante, mas não tem lastro para permanecer. Assim, nunca se cria um histórico do gênero fantástico no Brasil, porque os livros são perecíveis. Não deixam uma marca em nossa cultura. 

É curioso notar que nosso cineasta mais bem-sucedido no terror (o único?), José Mojica Marins, o Zé do Caixão, tenha feito sucesso justamente com um personagem “de carne e osso” que nega a todo tempo o fantástico, que não acredita no “além”. 

Talvez esteja aí uma fórmula mais viável, que não precisa necessariamente se ancorar no fantástico —a literatura de gênero pode ganhar relevância se encontrar formas de retratar nossa realidade de forma objetiva. Isso já acontece, por exemplo, na literatura policial, que de uma forma ou de outra sempre teve maior espaço.


Santiago Nazarian, escritor e tradutor, é autor de "Neve Negra" (Companhia das Letras) e "Biofobia" (Record).

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