Livro russo inédito narra busca por paraíso comunista; leia

'Tchevengur', de Andrei Platonov, foi escrito de 1926 a 1929 e só ganha publicação agora no Brasil

Andrei Platônov

[SOBRE O TEXTO] O trecho nesta página é o início do romance “Tchevengur”, que ganha primeira edição no Brasil em parceria das editoras Ars et Vita e Kalinka. Escrito de 1926 a 1929, mas só publicado integralmente em 1988, narra em tons paródicos a história de dois personagens que buscam o paraíso comunista no sul da Rússia e se deparam com uma cidade alucinante. O livro será lançado nesta semana no Festival Artes Vertentes, na cidade mineira de Tiradentes.

ilustração a caneta
Ilustração - Alexandre Teles

Ao redor das antigas cidades provincianas há beiras de bosque decrépitas.

Os que chegam para viver ali, vêm diretamente da natureza. Apareceu um homem com um semblante diligente e cansado de dar pena. Capaz de consertar e aparelhar todo tipo de coisa, ele próprio viveu uma vida desaparelhada. Não havia artefato, fosse ele qual fosse, de frigideira a despertador, que não passasse ao menos uma vez pelas mãos dele. Além disso, ele punha sola, fundia chumbo lupino e carimbava medalhas falsas para vender nos antigos mercados dos vilarejos. Para ele próprio, no entanto, nunca fez nada, nem família, nem morada. No verão, ele simplesmente vivia na natureza, guardando as ferramentas numa sacola que também usava como travesseiro, mais para a segurança das ferramentas do que por conforto. Ele se resguardava do sol matutino cobrindo os olhos ainda à noite com folhas de bardana. Já o inverno, ele passava com o que sobrava dos ganhos do verão, e pagava o alojamento ao guardião da igreja tocando o sino durante a noite. Afora seus diversos artefatos, nada —nem os homens nem a natureza— o interessava em particular. Por isso tratava as pessoas e os campos com uma ternura indiferente, sem nunca atentar contra os interesses deles. Às vezes, nas noites de inverno, ele fazia coisas inúteis: torres de arame, navios de pedaços de folha de flandres, colava dirigíveis de papel, e assim por diante —unicamente para o seu prazer. Costumava até atrasar uma ou outra encomenda. Por exemplo, quando lhe davam aros novos para prender as aduelas de uma dorna, ele se ocupava em construir um relógio de madeira, convicto de que o relógio iria funcionar sem corda, graças à rotação do planeta.

O guardião da igreja não gostava dessas tarefas gratuitas.

— Você vai pedir esmola na velhice, Zakhár Pávlovitch! A dorna está parada há dias e você, sabe-se lá para quê, fica revolvendo a terra com um pedaço de madeira!

Zakhár Pávlovitch calou: a palavra humana era para ele como o murmúrio florestal para o morador da floresta —algo que não se escuta. O guardião fumava e olhava tranquilamente para a frente. Depois de tanta liturgia, ele já não acreditava em deus, mas tinha certeza que de Zakhár Pávlovitch não sairia nada: as pessoas vivem no mundo há muito tempo e já inventaram tudo. Mas Zakhár Pávlovitch pensava o contrário: as pessoas estão longe de ter inventado tudo, uma vez que a substância da natureza segue intocada pelas mãos humanas.

A cada cinco anos, metade do vilarejo partia para as minas e para as cidades, enquanto a outra metade ia para a floresta —era tempo de má colheita. Há muito se sabe que, nas clareiras das florestas, a grama, os legumes e o trigo crescem bem até nos anos de seca. A metade do vilarejo que permanecia no lugar se lançava nessas clareiras para preservar a sua verdura do desfalque momentâneo causado pelas multidões de viajantes cobiçosos. Mas dessa vez a seca se repetiu no ano seguinte. O vilarejo trancou as suas khatas e saiu em dois destacamentos pela estrada principal. Um destacamento foi pedir esmola em Kiev, o outro foi para Lugansk em busca de trabalho; alguns voltaram para a floresta e para os barrancos cobertos, começaram a comer grama crua, barro e casca de árvore e se asselvajaram. Os que saíram eram quase todos adultos —as crianças ou morreram antes, ou se dispersaram numa vida de mendicância. As que ainda mamavam foram pouco a pouco sacrificadas pelas próprias mães, que as impediam de sugar seu leite até se saciarem.

Havia uma velha, Ignátieva, que curava os pequenos da fome: dava-lhes uma infusão de cogumelos diluída com grama doce e as crianças emudeciam tranquilamente, com uma espuma seca nos lábios. A mãe beijava a criança na fronte enrugada e envelhecida e sussurrava:

— Acabou o sofrimento, querido. Graças a deus!

Ignátieva ficava ali:

— Morreu tranquilo: está melhor que os vivos, agora escuta os ventos prateados no paraíso...

A mãe contemplou enlevada o seu bebê, acreditando que ele tinha aliviado seu triste destino.

— Pegue a minha saia velha, Ignátieva. Não tenho nada mais para dar. Obrigada.

Ignátieva estendeu a saia contra a luz e disse:

— Vá, chore um pouco, Mítrevna: é o seu dever. Mas a sua saia foi usada e reusada, inclua ao menos um lencinho ou me dê um ferrinho de passar...

Zakhár Pávlovitch ficou sozinho no vilarejo. Gostou do lugar despovoado.


Andrei Platônov foi um escritor russo (1899-1951).

Tradução de Maria Vragova, tradutora e produtora cultural, e Graziela Schneider, doutoranda em tradução e literatura russa.

Ilustração de Alexandre Teles, artista plástico.

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