Contos de Salinger retratam com humor a vida nos EUA; leia inédito

'Nove Histórias', coletânea do autor de 'Apanhador no Campo de Centeio', será lançado pela Todavia

J. D. Salinger

[SOBRE O TEXTO] O trecho nesta página é o início do conto “Linda a Boca, e Verdes Meus Olhos”, que integra o livro “Nove Histórias”. Nesta coletânea de narrativa curtas, que a editora Todavia lança nesta semana com tradução inédita, Salinger retrata a vida nos EUA do pós-guerra com humor e delicadeza, criando alguns dos personagens mais marcantes da literatura de seu país no século 20.

telefone
Ilustração - David Magila

Quando o telefone tocou, o homem grisalho perguntou à garota, não sem um pouco de deferência, se ela por acaso preferia que ele não atendesse. A garota ouviu o que ele dizia como que de longe, e virou o rosto para ele, um olho —do lado da luz— bem fechado, seu olho aberto muito, ainda que insinceramente, grande, e azul a ponto de parecer quase violeta. O homem grisalho pediu a ela que se apressasse, e ela se apoiou um pouco no antebraço direito com velocidade suficiente para que o movimento não parecesse tão perfunctório. Tirou o cabelo da testa com a mão esquerda e disse, “Jesus. Sei lá. Assim, o que é que você acha?”. O homem grisalho disse que na opinião dele não fazia tanta diferença se sim ou se não, e passou a mão esquerda por sob o braço de apoio da garota, acima do cotovelo, subindo aos poucos com os dedos, criando espaço para eles entre as superfícies mornas do braço e da parede do tórax dela. Pegou o telefone com a mão direita. Para pegar o aparelho sem ter que tatear, ele teve que se erguer um pouco, o que levou a parte de trás de sua cabeça a roçar numa quina do abajur. Naquele instante, a luz ficou particular, ainda que algo vividamente bonita em seu cabelo grisalho, praticamente branco. Apesar de estar desgrenhado naquele momento, tinha obviamente sido cortado recentemente —ou, na verdade, recém-retocado. A nuca e as têmporas tinham sido aparadas de uma maneira convencionalmente baixa, mas as laterais e a parte de cima tinham ficado mais que um pouco compridas, e estavam, na verdade, um pouco “distintas”. “Alô?”, ele disse ressonante no telefone. A garota permaneceu apoiada no antebraço, olhando para ele. Os olhos dela, mais simplesmente abertos do que alertas, ou especulativos, refletiam principalmente seu próprio tamanho, e sua cor.

Uma voz masculina —gélida e morta, mas mesmo assim algo rude, quase obscenamente reavivada para a ocasião — estava do outro lado da linha: “Lee? Te acordei?”.

O homem grisalho lançou um rápido olhar para a esquerda, para a garota. “Quem é?”, ele perguntou. “Arthur?”

“Isso —te acordei?”

“Não, não. Eu estou na cama, lendo. Alguma coisa errada?”

“Certeza que eu não te acordei? Jura por Deus?”

“Não, não —imagina”, o homem grisalho disse. “A bem da verdade, eu ando dormindo na média uma porcaria de umas quatro—”

“O motivo de eu ter ligado, Lee, por acaso você viu quando a Joanie estava saindo? Por acaso você viu se ela foi embora com os Ellenbogen, quem sabe?”

O homem grisalho olhou de novo para a esquerda, mas dessa vez alto, longe da garota, que agora o observava como um jovem policial irlandês de olhos azuis. “Não, não vi, Arthur”, ele disse, olhos no canto distante e escuro do quarto, onde a parede se encontrava com o teto. “Ela não foi embora com você?”

“Não. Não mesmo. Você nem viu ela sair, então?”

“Bom, não, na verdade não vi mesmo, Arthur”, o homem grisalho disse. “Se você quer saber, na verdade, eu não vi merda nenhuma a noite toda. Assim que eu pisei lá dentro, já me vi preso numa droga de uma história infindável com aquele merdinha daquele francês, ou merdinha daquele vienense —sei lá que bosta ele era. Esses estrangeirinhos de merda, sempre de olho aberto pra conseguir conselho jurídico de graça. Por quê? O que foi? A Joanie sumiu?”  


J. D. Salinger foi um escritor norte-americano (1919-2010), autor de “O Apanhador no Campo de Centeio”.

Tradução de Caetano W. Galindo, professor de literatura na UFPR que traduziu livros como “Ulysses” (Companhia das Letras), de James Joyce.

Ilustração de David Magila, artista plástico.

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