No filme 'Pérola', contei a vida da minha família, diz Murilo Benício

Ator dirigiu adaptação da peça de Mauro Rasi para o cinema

Murilo Benício

Quando pensei em começar a dirigir filmes, eu tinha três projetos em mente. Já fiz dois —e ainda não posso falar muito sobre o terceiro, mas tem relação com literatura brasileira.

O primeiro filme foi “O Beijo no Asfalto” (2018), que dediquei a meu pai. Nelson Rodrigues sempre mexeu muito comigo, e isso vinha da adoração que meu pai tinha por ele. Fiz esse longa também como uma forma de agradecimento ao teatro, por eu ser um ator há muito tempo longe dos palcos. E o segundo filme que rodei foi “Pérola”, ainda não lançado, que dedico a minha mãe. 

Fui muito amigo do Mauro Rasi, autor da peça original. E ele foi um cara muito importante, que ficou um tempo meio esquecido, mas foi precursor de um monte de coisas na década de 1980, a começar pela “TV Pirata”. Em sua época, ele ajudou a revolucionar a televisão.

O ator e diretor Murilo Benício, no centro do Rio - Zô Guimaraes/Folhapress

Conheci Mauro quando ele me chamou para fazer “As Tias de Mauro Rasi”, que seria a próxima peça dele. E no primeiro encontro que tivemos, ele me convidou para assistir à sua peça que estava em cartaz, “Pérola”.

No instante em que a sessão acabou, eu virei para ele e falei: “Mauro, isso é um filme.” Fiquei muito mais impressionado com a peça que eu tinha acabado de ver do que com aquela que eu ia fazer. Isso foi em 1995, acho. E esse momento ficou até hoje na minha cabeça.

O enredo é sobre a mãe do Mauro, na cidade natal dele, em Bauru (SP), e sobre a relação dela com o filho. Essa coisa de família bate muito forte em nós, latinos, embora seja um sentimento universal.

Nos EUA, quando o filho faz 18 anos, os pais não entendem como ele ainda não saiu de casa. E aqui no Brasil, meu filho tem 23 anos, mora em São Paulo e eu fico tentando convencê-lo a voltar a morar na minha casa, no Rio de Janeiro. Fiz uma casa enorme para que cada um possa ter seu espaço e, se quiser, não vá a lugar algum.

Quando vejo a história do Mauro, um cara que veio de uma cidade onde não se via cabendo, suas brigas com a mãe sobre o que ele queria fazer na vida, os planos de se mudar para o Rio contra aqueles que a mãe projetava para ele... Penso que isso provavelmente acontece em todos os lares brasileiros. 

O pai e a mãe praticamente durante toda a vida erram com o filho, querendo acertar. Acham que sabem o que é melhor, mas de fato uma geração nunca entende a próxima —e tudo acaba se entrecruzando, o amor, a briga, o carinho, a reconciliação, as coisas nunca ditas e postas para baixo do tapete. 
Isso habita em todas as famílias, há o mesmo coração para todas essas histórias. 

Como meus pais ainda estavam vivos naquela época, a peça me atingiu profundamente, e dali em diante passei a pensar em como podemos nos inspirar na obra de outras pessoas para contar a nossa própria vida. Notar a verdade de uma emoção na arte é imprescindível para criar uma bagagem, necessária para quando você mesmo vai produzir algo.

Arlete Montenegro (à esq.) e Vera Holtz em cena da peça "Pérola", de Mauro Rasi
Arlete Montenegro (à esq.) e Vera Holtz em cena da peça "Pérola", de Mauro Rasi - Serginho Massa/Divulgação

No “Pérola” que acabei de fazer, eu praticamente contei minha história através da história do Mauro. Eu fiz essa adaptação da peça para o cinema junto a outros três roteiristas, e sinto que todos colocaram inspirações de suas próprias vidas ali.

O roteiro, acredito, é feito mais pelo ponto de vista do filho, lembrando muito como aquilo bateu em mim, como era minha relação com a minha mãe. Mas é claro que eu, com 48 anos, tenho um nível de amadurecimento que nem imaginaria 20 anos atrás, então minha compreensão da história agora é outra. Soube reconhecer melhor essa mãe com minha própria experiência de pai.

Não fiz o filme com a intenção de resgatar o Mauro Rasi —fiz porque acho que a história vale a pena ser contada—, mas isso também está contido ali. É bom quando a gente descobre uma coisa brasileira que é realmente boa. Para que as pessoas possam falar: “Olha só que legal o que a gente tem no nosso país”. 


Murilo Benício, ator e diretor, está em cena na novela ‘Amor de Mãe’, na TV Globo, e deve lançar em breve o filme ‘Pérola’

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