Descrição de chapéu machismo

Antes de Robinho, jogadores do Grêmio condenados por abuso de menor viraram heróis

Antropóloga compara caso atual ao de 4 jogadores presos em 1987 na Suíça, entre eles o hoje técnico Cuca

Paulo Passos

Editor de Newsletter

[RESUMO] Antropóloga analisa em entrevista o que mudou em três décadas na postura da sociedade e da imprensa em relação a denúncias de abuso sexual. Em 1987, quatro jogadores do Grêmio presos na Suíça em caso envolvendo vítima de 13 anos foram recebidos como heróis na volta ao Brasil e defendidos por jornalistas que menosprezaram a acusação. Neste ano, pressões de comentaristas, torcedores e patrocinadores levaram à suspensão do contrato entre Robinho, condenado em primeira instância na Itália por estupro coletivo, e Santos.

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Em agosto de 1987, ler os textos de opinião nos jornais de Porto Alegre sobre o principal assunto da cobertura esportiva intrigava e chocava as antropólogas Carmen Rial e Miriam Pillar Grossi.

Os jogadores do Grêmio Henrique Etges, Fernando Castoldi, Eduardo Hamester e Alexi Stival, o Cuca, foram denunciados e presos por um mês na Suíça, acusados de abuso sexual de uma jovem de 13 anos.

Nos relatos na imprensa após a prisão dos quatro em Berna, colunistas dos dois maiores jornais do Rio Grande do Sul, Zero Hora e Correio do Povo, escreviam que os atletas haviam sido enjaulados por uma “travessura” ou um “deslize”.

Jogadores deitados em um gramado
Henrique Etges (primeiro à esq.), Fernando Castoldi, Eduardo Hamester e Alexi Stival, o Cuca, jogadores do Grêmio denunciados por violência sexual na Suíça - Reprodução/Twitter

Diante dessas manifestações, as antropólogas resolveram ir a campo —no caso, ao Aeroporto Salgado Filho, na capital gaúcha, no dia em que os atletas desembarcaram no Brasil, após terem sido liberados para voltar ao país.

“Queríamos saber como seriam recebidos aqueles jogadores. O que mais me surpreendeu foi a presença das mulheres, o que elas falavam”, conta Carmen Rial, jornalista e antropóloga, doutora pela Universidade Paris V.

A mãe de Fernando, um dos acusados, tinha uma explicação para o caso. “Meu filho não é homossexual. Ele não é culpado de nada, a garota é que foi lá tirar a roupa na frente deles”, disse.

Rial e Grossi resolveram registrar o que viram e escreveram uma reportagem para o Mulherio, jornal feminista publicado nos anos 1980. “Saiu a matéria naquela publicação restrita, de público nichado. Não houve maior repercussão”, diz Grossi.

Mais de três décadas depois, em 2020, o texto viralizou em postagens no Facebook e em grupos de WhatsApp. Foi republicado em blogs e no site da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), onde as duas pesquisadoras dão aula.

O tema voltou à tona com a contratação de Robinho pelo Santos. O jogador foi condenado em primeira instância na Itália por violência sexual coletiva. Após a pressão de torcedores, patrocinadores e da divulgação pelo Globoesporte.com de trechos do processo, o contrato foi desfeito.

“O mais significativo nessa história, relendo o texto, é a mudança na imprensa. Não vou dizer no país, mas a imprensa mudou completamente”, diz Rial. Em entrevista à Folha, ela faz uma comparação entre os dois casos.

Trechos de colunas de opinião na imprensa gaúcha:

"Os jogadores do Grêmio não assimilaram a mudança do fuso horário. Levaram um choque de costumes… Agora é só torcer – no que acredito – que a justiça suíça faça justiça. Isto é, que ela encare o fato como realmente foi uma travessura irresponsável e de total imprevidência dos seus autores quanto a sua ilicitude e consequências”.
Paulo Santana, Zero Hora, 08/08/1987

Não faltou sequer um teste de escolha múltipla: “Pense e responda: a) Uma garota que está sendo estuprada não grita? b) se grita ninguém ouve, mesmo estando num hotel? c)havendo violência, a vítima não reage a ponto de ferir-se?”
Wianey Carlet, Correio do Povo, 08/1987.

Violência? Claro que não. Ficou mais do que claro, pelo menos para mim, que não houve violência no ap.204 do hotel Metrópole. Pode-se questionar, isto sim, o bom gosto dos envolvidos… Mas cores e sabores não se discute, resta dar as boas vindas aos nossos doces devassos”.
Wianey Carlet, Correio do Povo, 29/08/1987

O fato ocorrido no hotel de Berna é normal em quase todas as excursões, fora ou dentro do país… Se os jogadores tivessem furtado, praticado desordem séria ou outra atitude demasiadamente desabonatória, eu aconselharia sua eliminação do clube. Mas um deslize de ordem sexual em que, visivelmente, colaborou para a consumação da conduta, no mínimo, quase conivente da chamada vítima, não deve servir de amparo a uma decisão drástica"
Paulo Santana, Zero Hora, 29/9/1987
* Paulo Santana e Wianey Carlet morreram em 2017

O campo de pesquisa da antropóloga migrou do aeroporto, onde os gremistas eram saudados como heróis, para um espaço virtual, a área destinada para comentários nas reportagens publicadas sobre Robinho na internet.

“Ali havia muito machismo, se repetia o que era dito lá atrás [nos anos 1980], com argumentos que culpam a vítima, dando o benefício da dúvida”, afirma.

O caso dos jogadores gremistas foi julgado na Suíça em 1989, dois anos depois da denúncia. Eles foram condenados por sexo com menor de idade, mas como estavam no Brasil não cumpriram a pena.

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A senhora escreveu um texto há 33 anos em que relatou a repercussão de uma denúncia de estupro que tinha como suspeitos jogadores do Grêmio. Qual foi a reação ao caso na época? Nosso texto foi publicado num jornal que não tinha uma circulação muito ampla. Algumas colegas feministas comentaram, mas não muitas. As feministas também não eram muito ligadas em futebol. Não houve uma repercussão [do texto] na época. Era outro momento, sem internet.

A senhora reproduz no texto comentários de colunistas de jornais. Eles, nos relatos destacados pela senhora, defendem os atletas, minimizam a acusação e fazem piadas e ironias sobre o caso. Esses exemplos citados eram minoria ou formavam o discurso dominante na época? Destacamos alguns, mas era algo dominante. Não me lembro de nenhuma voz contrária ao discurso machista. Lembro-me de alguns silêncios, de comentaristas que não concordavam, mas tampouco se opunham abertamente.

Os que falavam eram comentaristas muito conhecidos e respeitados. Após ler essas opiniões foi que pensamos em ir para o aeroporto no dia da chegada dos jogadores.

Observamos no aeroporto que essa visão machista era consenso. O senso comum era o de que o estupro havia sido uma travessura, algo menor. Isso nos comentários mais amenos. Os mais fortes diziam que os jogadores afirmaram a honra do homem gaúcho. Então, o que a imprensa fez ali foi refletir e criar imaginários.

Equipe do Grêmio em 1987 - Divulgação

Como foi a experiência de ir ao aeroporto? Foi um pouco antropológico. Queríamos saber como seriam recebidos aqueles jogadores. O que mais me surpreendeu foi a presença das mulheres, o que elas falavam. Tem um antropólogo francês, o Pierre Bourdieu, que define algo chamado de violência simbólica. Quando as vítimas são cúmplices da própria violência que sofrem. Ali estava bem claro um caso de violência simbólica.

Elas, mulheres, estavam apoiando aquilo que os homens diziam, sem se darem conta de que o estupro é uma violência muito disseminada. Dados de hoje apontam que há um estupro a cada oito minutos no Brasil. Isso é subnotificado. O estupro é uma violência perigosa para as vítimas. Ela envergonha a família, coloca a vítima numa condição de culpada.

A senhora conhecia os jornalistas citados no seu texto? Eu tinha trabalhado naquele ambiente. Eu conheci aquelas pessoas, trabalhei com elas. Eram colegas, alguns simpáticos, afáveis. Mas eles estavam imersos naquela cultura machista. Era tudo natural.

Como vocês viram o caso do Robinho tantos anos depois e com repercussão tão distinta? Primeiro, há semelhanças na acusação, que é de um estupro coletivo. Em estupros coletivos, o que a gente percebe é que esses jogadores estão mantendo uma relação sexual entre eles. O corpo da mulher é um simples objeto que permite uma troca sexual.

É preciso entender esse mundo dos atletas que passam por uma relação de homossociabilidade. Eles têm horror que se faça uma relação entre isso e homossexualidade. Diz mais respeito à convivência. Eles convivem muito entre homens e têm essa história dos “parças”, de fazerem muitas coisas juntos. As mulheres aparecem e há muitas orgias.

O que acho que está por trás do estupro coletivo é mostrar para o outro que você é homem. E, segundo, ter uma proximidade que se torna sexual. Eles não transam entre si. Eles usam o corpo da mulher para, de alguma maneira, transarem entre si. É isso que explica um pouco esses estupros coletivos e essa desconsideração com as mulheres.

O que une os dois casos é que eles envolvem jogadores. Em ambos, os acusados não negam o ato sexual. O que negam é que ele tenha ocorrido sem o consentimento. É preciso ter cuidado para não generalizar o jogador de futebol. Eu entrevistei mais de cem atletas para pesquisas, dei a volta ao mundo e falei com vários brasileiros na Europa, e digo que isso não é um comportamento comum. A maioria deles não estupraria uma mulher. A maioria vai mais a igrejas pentecostais do que a boates.

Como comparar a cobertura da imprensa nos dois casos? Olha, posso dizer que fiquei muito satisfeita com a mudança no perfil do jornalismo esportivo atual. Em geral, gostei do que li e ouvi. Estive atenta e vi manifestações fortes. O que mostra que esse feminismo que estava numa bolha, num jornalzinho paulista de nicho na década de 1980, hoje está presente na imprensa. Não vou falar na sociedade como um todo, porque ao ler os comentários das matérias você se depara com uma realidade extremamente machista.

Trechos de comentários na TV sobre o caso Robinho:

"Não é apedrejamento do Robinho, é apedrejamento da moral da sociedade brasileira. Não pode se inverter os valores. O Robinho está condenado na Itália por violência sexual. Ele recorreu, mas neste momento é condenado. O Santos contrata um jogador que é condenado por estupro. Acho que a sociedade não tem que aceitar sacanagem como qualquer coisa normal. Eu não aceito."
Casagrande, TV Globo, 16/10/2020

"Sou pai de uma menina e não imagino o que eu faria se alguém encostasse um dedo na minha filha. Mas acho que todo mundo merece o benefício da dúvida. A gente não tem todas as informações, então vamos esperar. Quem tem que julgar é a Justiça"
Caio Ribeiro, TV Globo, 16/10/2020

O público não mudou tanto assim? Eu passei dois dias respondendo comentários nas matérias na internet sobre o caso. Era o meu papel, eu avaliava. Os comentários machistas repetiam muito o que era dito lá atrás [nos anos 1980], com argumentos que culpam a vítima, dando o benefício da dúvida.

Algo mais chamou atenção da senhora nos comentários na mídia? Entre os comentários atuais, você ouve também o que o Caio Ribeiro diz. Quando tenta fazer uma defesa da mulher, ele cita que é pai de uma menina, e que se fosse sua filha não sabe o que faria. É uma defesa, mas uma defesa que revela internalização de um machismo. Mesmo que seja revestido em palavras doces.

Mudou a forma de ser machista? Nos anos 1980 esse machismo era explícito. Depois, teve uma fase em que isso ficou mais escondido. Nos últimos anos, com as redes sociais, as pessoas que seguiam machistas, porém sem espaço de voz, ganham um espaço, têm um lugar para se posicionarem e deixar isso exposto.

O Robinho afirmou que “infelizmente existem feministas” ao se referir aos grupos de torcedoras que fizeram pressão contra a sua contratação pelo Santos e que “tem mulheres que não são mulheres às vezes”, em referência à vítima. Mostra que um conceito tão antigo ainda está forte. A mulher tem que ser a Amélia. Se não for, talvez não seja mulher, heterossexual. Outro fato relevante das falas do Robinho é que ele cita o Bolsonaro.


Carmen Rial

Jornalista e antropóloga, doutora pela Universidade Paris V. É professora titular do Departamento de Antropologia da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e presidente do Conselho Mundial de Associações Antropológicas.


Leia versão editada do texto publicado no jornal Mulherio
Veja a edição original da reportagem aqui

Os estupradores que viraram heróis
Miriam Grossi
Carmem Rial


Uma pequena multidão de quinhentos torcedores, repórteres tomava o saguão do aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, ás 18h do dia 29 de agosto, quando taxiava na pista o avião da Varig que trazia de Zurique os quatro jogadores acusados de estupro de uma menina de 13 anos.

As bandeiras e camisetas do Grêmio e do Internacional curiosamente unidas e as crianças erguidas nos ombros de seus pais davam um clima de festa ao desembarque dos quatro jogadores: Henrique Etges, Fernando Castoldi, Eduardo Hamester e Alexi Stival, o Cuca. Atônitos e surpresos pela recepção, eles desculpavam-se e se diziam arrependidos pelo que tinham feito, visivelmente demonstrando não estarem compreendendo o que se passava. Só depois é que se deram conta que os gritos de “puta, puta” eram dirigidos à menina Sandra Pfäffli e que a opinião pública gaúcha não estava ali para condená-los ou esperando desculpas: eles eram os heróis, tinham conseguido, imagine, provar à Suíça e ao mundo que ainda existem machos, pelo menos no Rio Grande do Sul.

O tom nas entrevistas foi mudando, as perguntas habilmente dirigidas pelos repórteres ofereciam espaço para declarações sobre a solidão, as dificuldades de comunicação com o carcereiro e os outros detentos e contra a terrível comida servida nas prisões de Berna – onde faltava a totêmica carne dos gaúchos. Enfim, pequenos detalhes que ajudavam a confirmar para o público o que os comentaristas esportivos já vinham dizendo há quase um mês. Do estupro, nenhuma palavra. Como heróis, os quatro firmaram um pacto de silêncio para evitar prejudicar um ou outro dos companheiros.

Alguns dias antes, tinham desembarcado neste mesmo aeroporto Valdo e Tafarrel, os dois jogadores gaúchos titulares da seleção brasileira campeã nos jogos Pan-Americanos. Nenhum torcedor os esperava. As medalhas de ouro que traziam nas mãos não comoveram, pois eram simplesmente uma vitória no campo esportivo, já a dos quatro acusados de estupro sim, tinha valor: era uma vitória da honra gaúcha, da hombridade, é claro, também da crônica esportiva que conseguiu em um mês transformar os quatro acusados de crime em vitimas de um “juiz nazista” e o estupro de uma menina de 13 anos por três dos jogadores em uma “travessura” inconsequente.

[...]

Se o Jornal Nacional da rede Globo tratava do fato com alguma objetividade, a imprensa do Rio Grande do Sul, liderada pelo cronista/torcedor Paulo Santana, começava a sua campanha a favor dos acusados, numa total distorção dos fatos, primeiro tratou-se de alterar a idade de Sandra: como 13 anos soa muito violento, ela passou a ter “14 incompletos” e depois “14 anos”. Como ainda assim teria sido difícil de se aceitar um estupro de uma menina por 4 jogadores, os cronistas trataram de ir esclarecendo aos leitores de Zero Hora e Correio do Povo, telespectadores e ouvintes da radio e TV Gaúcha que “meninas de 14 na Suíça já transam com os namorados e tomam pílulas” e “são verdadeiras mulheres capazes de seduzirem qualquer um”.

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