Em conto de Machado de Assis, vatapá traz à cena invisibilidade de negros

Autor discute contraste entre prestígio do prato afro-brasileiro e apagamento de escravizados na narrativa

Edson Lopes Cardoso

Doutor em educação pela USP e coordenador do Irohin – Centro de Documentação e Memória Afro-brasileira

[RESUMO] Professor e militante do movimento negro reflete sobre o valor simbólico do vatapá no conto “Luís Soares”, publicado em livro de 1870. O prato evoca a ausência dos negros escravizados na obra e expressa os paradoxos de uma sociedade rigidamente hierárquica, diz.

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Acho que uma cena de um antigo conto de Machado de Assis deveria receber nossa atenção. “Contos Fluminenses” é um volume datado de 1870 e reúne os primeiros contos do autor. Quase duas décadas antes da Abolição, os contos fazem aqui e ali rápidas alusões a moleques e raros vultos domésticos, que nos permitem mal entrever a presença negra no contexto da escravidão.

Fui surpreendido por uma cena do capítulo 4 de “Luís Soares”. Os contos estão cheios de peças da desgastada carpintaria romântica, testamentos, cartas, heranças etc., de que o mesmo autor, Machado de Assis, irá debochar mais adiante em conto célebre —veja a propósito “A Chinela Turca”.

Em “Luís Soares”, um personagem, Anselmo, se anuncia por uma carta ao Major Vilela, tio de Adelaide, herdeira de grande fortuna etc. Nada disso importa aqui, caros leitores. O que nos surpreendeu na carta de Anselmo Barroso de Vasconcelos, fazendeiro rico, amigo do major, é que na correspondência em que anuncia sua chegada ao Rio, vindo da Bahia, Anselmo diz ao major: “Prepara um jantar. Creio que não me hás de receber como qualquer indivíduo. Não esqueças o vatapá”.

Machado de Assis fotografado por Marc Ferrez
Retrato de Machado de Assis por Marc Ferrez - Divulgação

O prato ostenta um prestígio inequívoco e Major Vilela, de imediato, repassa ordens para D. Antônia, prima e agregada: “Antônia, manda fazer um bom vatapá”. O elevado estatuto de que goza o vatapá é também compartilhado pelo major.

Notem bem, minha expectativa era nenhuma, lia o conto por desfastio, acuado pela pandemia, e de repente surge esse vatapá. O desejo de Anselmo não parece expressar um comportamento excêntrico. O major não cria a menor dificuldade para atender prontamente a solicitação.

Os negros são quase invisíveis, mas o vatapá de algum modo parece, ao menos simbolicamente, romper o “equilíbrio” e sugerir talvez que algo está fora de controle. Na culinária da segunda metade do século 19, um jantar de recepção a um amigo e rico fazendeiro trazia no cardápio, como peça de destaque, o vatapá.

Seguramente, o mundo que obedecerá na cozinha às ordens da prima Antônia não será alcançado pelos leitores, que saberão inferir, no entanto, quem são os seres tornados invisíveis na narrativa e responsáveis pela realização do prato especial demandado pelo visitante.

"Não esqueça o vatapá" significa que o prato já foi degustado anteriormente na casa do major? É altamente provável que seja “fato de experiência”, mas o conto não autoriza especular muita coisa além disso. Não há também informação sobre se o major é baiano, nem Anselmo tampouco. Apenas informa-se que Anselmo está vindo da Bahia, fazendo questão de comer o vatapá da casa do major.

Os políticos baianos foram figuras de proa na capital do Império, todos sabem. Serviçais capazes de fazer um bom vatapá não seriam também tão raros na Corte. Deixo aos leitores a cruza dessas informações.

O que me interessa é o contraste entre a aura de prestígio de que já goza um prato da chamada “culinária afro-brasileira” e a acentuada invisibilidade na narrativa de africanos e seus descendentes escravizados. Com o demandado vatapá, aquilo que se pretendia esconder de algum modo reponta na cena principal.

A celebração do vatapá explicita, assim, algum sentido político ou é um detalhe quase irrelevante? A narrativa aparentemente já eliminou qualquer traço de conflito, e prevalece, soberano, o mundo dos senhores, sem perturbações.

O vatapá é exigido com ênfase por quem tem propriedade e renda e escravos. Nessas circunstâncias, é expressão da dominação, e por que me surpreende a valorização derivada de sua presença, exigida pelo hóspede no cardápio?

Sabemos que nada era tão tranquilo assim na década que antecedeu à Abolição. Porém, ao menos na mesa do major, brancos escravocratas compartilhavam valores (culinários) com africanos e seus descendentes escravizados.

O vatapá é a chave para desvendar altas complexidades de uma sociedade em ebulição? Eu sou um visitante importante e o reconhecimento dessa distinção se dá à medida que sou recebido com um vatapá, iguaria associada àqueles seres subalternizados e destituídos de qualquer consideração.

É esse paradoxo o grande argumento trazido pela presença do vatapá —a rígida hierarquização não era isenta de ambiguidades.

Anselmo, fazendeiro e proprietário de escravos, é o porta-voz que reivindica o vatapá. O resto da cadeia se mexe para cumprir os desejos de Anselmo. No extremo, corpos invisíveis realizam o prato desejado.

O vatapá assume valor simbólico, pois evoca os ausentes e é a materialização de um desejo senhorial. Vatapá para designar o povo negro-africano, mas exigido pelo senhor. Que grande emaranhado...

Como devemos entender, afinal, o vatapá de Anselmo? Caros leitores, minha única ambição neste momento é desvendar os sentidos ocultos no vatapá de Anselmo, ajudem-me, se puderem. Uma grande mancha amarela, o prato mais atrativo do jantar, se mistura talvez com questões de fundo.

Em razão de seus vínculos de origem, representa alguma ruptura? É uma presença, sem dúvida. Que mais, Machado?

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