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Canudinho é o mais efêmero dos descartáveis poluidores 

Mara Gama
São Paulo


Você usa uma vez só, por menos de 5 minutos. Ele vem no drink do bar e do restaurante, ou no pacote de refrigerante entregue em casa, mesmo sem ser solicitado. Na praia, é a ferramenta básica da Água de Coco. Quantos são consumidos por dia? Não há levantamento disponível sobre o tema que abarque toda a costa brasileira.

O jornalista Ruy Castro, em coluna recente publicada nesta Folha, fez um cálculo parcial:  "A orla atlântica do Rio, do Leme ao Pontal, tem 300 quiosques. Se todos repetirem esta média [de 300 cocos por dia por quiosque], serão 90.000 cocos por dia –ou 32.850.000 por ano. E 32.850.000 canudos de plástico", escreveu.

Se cada brasileiro usar um canudo de plástico por dia, em um ano terão sido consumidos 75.219.722.680 canudos.
Se cada brasileiro usar um canudo de plástico por dia, em um ano terão sido consumidos 75.219.722.680 canudos - Núcleo de Imagem

Disseminado junto com o fast food e o delivery de comida, o canudinho de plástico talvez seja o exemplo mais evidente do dano causado pelos plásticos descartáveis e vem atraindo contra si movimentos em vários cantos do mundo.

Considerando canudos de 6 milímetros de diâmetro, o volume ocupado pelo total usado pelos brasileiros em um ano equivale a um cubo de 165 metros de aresta,  50 metros mais alto que o Copan, em São Paulo.
Considerando canudos de 6 milímetros de diâmetro, o volume ocupado pelo total usado pelos brasileiros em um ano equivale a um cubo de 165 metros de aresta, 50 metros mais alto que o Copan, em São Paulo. - Núcleo de Imagem

Restaurantes e bares de Nova York começam a diminuir o seu uso. Estima-se que os americanos usem 500 milhões de canudos/dia. 

Na França, dentro do Programa de Transição Energética, até janeiro de 2020 deve ser proibida a venda de colheres, facas, garfos, pratos descartáveis e canudos. Segundo estudo feito por lá, esses itens descartáveis geram 30 mil toneladas de lixo por ano.

O que fazer? Parar de consumir ou garantir que seja reciclado. Para as crianças é possivel usar os canudos de metal, que são laváveis. A empresa espanhola Sorbos criou uma linha de canudos biodegradáveis.  

"O canudinho é de uso único e é absolutamente desnecessário. O curioso é que é um hábito que não se reproduz em casa. Ninguém precisa e nem usa em casa canudos para beber", diz Helio Mattar, do Instituto Akatu para o Consumo Consciente.

"O que as pessoas não percebem é que o uso de algo completamente inútil traz custos para o consumidor, para o meio ambiente e para a sociedade", afirma. 

Empilhando canudos num muro de 2,10 metros de altura, seria possível dar uma volta completa na Terra, numa linha de mais de 45.000 quilômetros
Empilhando os canudos consumidos por brasileiros em um ano em um muro de 2,10 metros de altura, seria possível dar uma volta completa na Terra, numa linha de mais de 45.000 quilômetros - Núcleo de Imagem

Os custos começam com a produção, que retira recursos do meio ambiente, gasta energia, trabalho. Mesmo que haja um pequeno ganho financeiro com a reciclagem, é muito menor que o que foi empenhado na produção de um produto de vida curta. Poucas horas depois de ser usado, o canudo vai para o lixo.

"Tudo que vai para o lixo gera custo de separação, empacotamento, transporte, disposição final. No Brasil, o lixo representa cerca de 5% de todos os orçamentos municipais. Gerar menos representaria economizar nisso e poderia resultar em mais verba para educação e outros benefícios sociais", diz Mattar.

Para mostrar o tamanho do problema causado pelos canudos, o Akatu fez algumas comparações, que você vê nesta página, ilustradas. 

Banimento

Desde dezembro de 2016, canudos plásticos foram abolidos dos quiosques e estabelecimentos da Ilha de Porto Belo, situada no litoral centro-norte de Santa Catarina, a 65 quilômetros ao norte de Florianópolis. 

O administrador da Ilha,  Alexandre Stodieck, conta que a inspiração da proibição foi uma palestra do Capitão Charles Moore, realizada em 2015, mostrando o quanto canudos e microplásticos podem prejudicar os animais marinhos e a fauna local. Moore foi o oceanógrafo americano que identificou a ilha de lixo no Oceano Pacífico e passou a estudar métodos para  medir a quantidade e a origem dos resíduos, com o objetivo de controlar o problema.

Antes de tomar a medida na ilha catarinense, houve receio de a decisão prejudicar o mercado local de bebidas, mas, segundo Stodieck, os consumidores foram receptivos. Funcionários dos estabelecimentos foram treinados a explicar a decisão ambiental.

Hoje, segundo ele, ainda são recolhidos canudos na Ilha. A maior parte vem dos sucos de caixinha ou achocolatados de famílias que visitam o local e acabam deixando cair na praia ou nas trilhas locais.

Pesquisa realizada em 2012 e 2013 em 12 praias brasileiras pelo Fórum Setorial de Plásticos em convênio com a USP buscou identificar tipos de resíduos encontrados e traçar sua rota de chegada às areias.

Foram analisadas seis praias no Estado de São Paulo, como Ubatumirim, Boraceia, Itaguaré, do Uma, Jureia e Ilha Comprida; três na Bahia, como Taquari, Jauá e Imbassaí e três em Alagoas - Praia do Francês, Ipioca e Praia do Toco.  

Nas praias do Estado de São Paulo, o maior volume vem das atividades de pesca e, nas do Nordeste, a maior parte vem do turismo. Garrafas, copos, embalagens e canudos foram itens encontrados.

O Fórum é organizado pelo setor e signatário de um acordo mundial para mitigar os danos da presença dos plásticos nos mares, mas não possui nenhuma iniciativa específica sobre canudos no Brasil. Há uma iniciativa semelhante, o programa Tampinha Legal, de incentivo à coleta de tampinhas de garrafas para reciclagem, com experiências nos Estados de São Paulo, Espírito Santo e Rio Grande do Sul.

Miguel Bahiense, que atua no Fórum, diz que a entidade se mobiliza pelo correto descarte de plásticos em duas frentes: a educação ambiental, com atividades em escolas, e o programa Pelet Zero, que busca cortar as sobras de plástico da logística interna das indústrias do setor.

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