Descrição de chapéu Entrevista da segunda

Indefinição política é principal razão para tensão no mercado, diz presidente da Bolsa

Gilson Finkelsztain quer comprometimento de candidatos com desenvolvimento do mercado de capitais no país

Ana Paula Ragazzi
São Paulo
Gilson Finkelsztain, que preside a B3, diz acreditar que o que falta para o mercado de capitais brasileiro deslanchar é uma transição eleitoral com responsabilidade fiscal - Danilo Verpa/Folhapress

Há um ano, Gilson Finkelsztain, 45, preside a B3, que nasceu após a união da Bolsa paulista, a BM&FBovespa, que concentra negociações de ações e derivativos, com a Cetip, líder em operações com títulos de renda fixa.

Ele era presidente da Cetip, e a sua chegada à B3 representou uma renovação para o mercado de capitais brasileiro.

Ela coincidiu com a saída de Edemir Pinto, que liderou a BM&FBovespa por dez anos e era o último representante de peso de uma Bolsa antiga, que funcionava como um clube que subsidiava os negócios de seus donos, os proprietários de corretoras de valores. 

Mas já faz dez anos que as Bolsa brasileira se transformou em uma empresa que busca o lucro para seus acionistas e não tem um controlador definido.

A renovação trazida por Finkelsztain passa pelo reconhecimento de que falta à B3 se aproximar do mercado. 

 

As últimas semanas têm sido o período mais turbulento do mercado desde que o senhor assumiu a B3. A que atribui os dias difíceis?

Discutimos isso internamente, e a nossa conclusão foi que o cenário internacional está, sim, impactando todos os emergentes, mas, aqui, o mercado está nervoso muito mais por causa da indefinição do processo político. Eu diria que entre 60% e 70% do nervosismo está ligado às eleições. 

Ainda não sabemos quem são os candidatos e não há nenhum comprometimento dos nomes possíveis com uma agenda mínima para o mercado de capitais. Buscar esse comprometimento será nossa bandeira. 
 
O sr. vê algum nome que possa se comprometer com isso?

Estamos iniciando as conversas com os pré-candidatos agora. Em setembro, faremos um congresso com a Anbima (associação dos participantes do mercado) e esperamos ter nele um painel com os escolhidos para ministros da Fazenda pelos candidatos. Entregaremos a eles uma agenda mínima para o desenvolvimento do mercado.

Nunca tivemos um momento tão propício para isso aqui, com juros nas mínimas históricas, inflação baixa e retomada do crescimento. Eu diria que os astros se alinharam, não fosse o cenário eleitoral desafiador, que eleva a preocupação com o lado fiscal.

Por que o sr. coloca menor peso no cenário externo?

Estamos falando de um movimento de normalização dos juros internacionais, que estão próximos a zero já há dez anos. Isso não é o fim do mundo, é o reflexo de que o mundo está crescendo, o que é positivo para o Brasil. 

Óbvio que, se esse movimento de alta das taxas não for muito bem administrado pelos bancos centrais dos países desenvolvidos, os emergentes podem sofrer com a saída de recursos.
A dosimetria é uma preocupação, mas esse poderia ser um doce problema. 

Apesar da depreciação dos ativos brasileiros, a Bolsa tem batido recordes de negociação.

De fato, os volumes dos últimos 30 dias foram fantásticos, recordes tanto em ações quanto em derivativos, como os contratos de dólar futuro.

A única preocupação que tenho é que, quando a volatilidade cresce muito como estamos vendo, em seguida a negociação tende a diminuir, porque os investidores enxergam risco maior e reduzem suas apostas. Depois de recordes, a preocupação é com alguns meses de volume menor.

 

​​Novamente existem conversas entre investidores para a criação de uma nova Bolsa no Brasil. Como a B3 vê isso?

A competição no nosso setor já é global. Quando foi criada a B3, nos comprometemos com os reguladores a abrir nossa infraestrutura, como a central depositária, para um eventual concorrente. Estamos preparados para isso.

Mas uma nova Bolsa é relevante para o mercado quando há crescimento, um volume maior de negócios.
Eu prefiro ter 80% de participação em um mercado de R$ 25 bilhões a ter 100% de um mercado de R$ 10 bilhões.

Faz sentido a competição vir, mas desde que haja esse crescimento. O que vemos no cenário externo é que é normal ter poucos participantes, porque, se você tem muitas Bolsas sem contrapartida para volume, o custo para o mercado aumenta.

O advento do blockchain (tecnologia de armazenamento de dados) facilita a chegada de concorrentes?

O blockchain é bastante poderoso e veio para ficar. É uma inovação na qual já investimos em alguns projetos, ao lado de bancos. Mas não há nenhum projeto testado que indique que isso pode simplificar a entrada no nosso negócio.

Não concordo que ele possa ser um diferencial para a chegada de um concorrente, porque essa análise tende a simplificar nosso negócio.

Qual será o foco da sua gestão na B3?

O primeiro ano foi marcado pela integração após a fusão e a captura das sinergias prometidas.

Agora, a prioridade é trabalhar mais próximo dos nossos clientes. A companhia nunca teve o viés de estar perto do mercado. Talvez pela sua origem, numa associação, não existia esse princípio de entender as necessidades dos clientes e desenhar soluções para cada um deles.

E os clientes são muitos, bancos, fundos, gestoras, empresas, corretoras, intermediários, pessoas físicas. 

Estamos fazendo um terremoto na área de produtos e espero que o mercado entenda que isso é um compromisso, não é um discurso.

O mercado cobra uma Bolsa mais ágil?

Sim. E nós também queremos uma Bolsa mais ágil. Se tivermos mais produtos, todo o mundo ganha. Investidor e distribuidor têm mais alternativas, e empresas, mais possibilidades. 

Já estamos trabalhando em contratos de futuros de ações, índices de volatilidade e exercício automático de opções.

Esperamos que o mercado brasileiro se sofistique, com mais emissões de dívidas e também ofertas de ações de empresas menores.

Ofertas menores e negociações com títulos de dívidas são demandas há décadas. É viável no Brasil?

Tenho essa frustração que você menciona. Acredito que isso é possível, mas depende de fatores que não estão nas nossas mãos. É preciso que o país cresça, com responsabilidade fiscal, que o juro real não seja elevado, que bancos públicos não façam competição por esses papéis com o mercado, o que já está bem alinhado.

Estamos trabalhando novamente na discussão de um segmento para empresas menores, que não será o Bovespa Mais. E estamos tristes por empresas de tecnologia estarem lançando ações não aqui, mas na Bolsa de Nova York. Estamos trabalhando para tentar antecipar listagens dessas empresas no Brasil. 

Essa demanda por novos produtos está relacionada com as mudanças no setor de intermediação no Brasil?

Sim. Dez anos depois de as Bolsas se transformarem em empresas, finalmente o setor de intermediação, antes dominado pelas corretoras, encontrou seu caminho.

Nós não queremos atingir diretamente o investidor pessoa física, queremos trabalhar com esses intermediários, depois do protagonismo da XP Investimentos, que conseguiu acabar com a ideia de que o cliente de um banco só pode investir nos produtos oferecidos por esse banco.

Agora há várias plataformas intermediárias atuando em nichos e os grandes bancos estão ampliando a oferta. 

A B3 é muitas vezes vista apenas como um espaço para negociar ações, mas tudo está aqui: renda fixa, crédito, ativos bancários, fundos imobiliários, derivativos, letras financeiras, debêntures.

Se conseguirmos virar essa página de transição política bem-feita, a gente terá uma avenida para trabalhar. Com um mínimo de comprometimento e o compromisso dos candidatos com uma agenda fiscal responsável, o nosso mercado deslancha.

 

Raio X

Gilson Finkelsztain, 45

Presidente da B3 desde maio do ano passado. Foi diretor-presidente da Cetip entre 2013 e 2017 e trabalhou por 20 anos em bancos internacionais como Citibank, JPMorgan, Bank of America Merrill Lynch e Santander. É graduado em engenharia civil de produção pela PUC-Rio (1994) e pós-graduado pelo INSEAD-Advanced Management Program (2011)

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