Após críticas de Trump, Pfizer posterga aumento no preço de remédios

Empresa havia anunciado elevação nos preços de cem produtos, incluindo Viagra

Logo da Pfizer em Nova York
Logo da Pfizer em Nova York - Andrew Kelly/Reuters
David Crow
Nova York | Financial Times

A Pfizer postergou o aumento dos preços de cem de seus produtos, depois de uma discussão abrangente com o presidente Donald Trump, que disse que a empresa deveria "se envergonhar" por decretá-lo.

A rara reversão surgiu um dia depois que Trump criticou duramente os aumentos de preços —reportados inicialmente pelo Financial Times na semana passada—, afirmando que a Pfizer e algumas outras companhias farmacêuticas estavam "tirando vantagem dos pobres".

A maior fabricante independente de remédios dos Estados Unidos declarou na terça-feira que reverteria temporariamente os aumentos que entraram em vigor em 1º de julho, e se aplicavam a alguns de seus remédios mais conhecidos, entre os quais o Viagra, para disfunções eréteis, e o Xalkori, para o câncer de pulmão.

"A Pfizer vai recuar de seus aumentos de preços, para que os pacientes americanos não precisem pagar mais caro", escreveu Trump no Twitter. "Aplaudimos a Pfizer por essa decisão e esperamos que outras empresas façam o mesmo. Uma grande notícia para o povo americano!"

Em comunicado, a Pfizer informou que seu presidente-executivo, Ian Read, havia concordado em postergar os aumentos para dar mais tempo a Trump para implementar as reformas do sistema de saúde americano que ele anunciou em maio.

A empresa disse que os preços retornariam aos valores anteriores a 1º de julho e ficariam lá até o final do ano ou até que "o plano do presidente para reforçar o sistema de saúde" entrasse em vigor, o que vier primeiro.

"A Pfizer compartilha da preocupação do presidente com os pacientes e de sua dedicação a lhes oferecer os remédios de que precisam a preços acessíveis", disse Read.

Ele acrescentou que "a maneira mais fundamental pela qual o setor farmacêutico cria valor é através da descoberta de remédios inovadores que ajudam as pessoas a viver vidas mais longas, mais saudáveis e mais produtivas".

A Pfizer não informou se a decisão afetaria sua lucratividade no segundo semestre, ainda que alguns analistas tenham declarado anteriormente que ela precisava aumentar preços de maneira regular para manter o crescimento de seus rendimentos.

Na semana passada, o Financial Times reportou que a Pfizer havia aumentado os preços de alguns de seus produtos, na maioria dos casos em cerca de 9%. Foi a segunda vez que a empresa decretou aumentos para uma série de remédios, este ano, o que significa que os preços de alguns de seus remédios estavam quase 20% mais altos do que no começo de 2018.

Os fabricantes de medicamentos costumavam aumentar os preços de seus produtos duas vezes por ano - a primeira em janeiro e a segunda logo depois da metade do ano - mas muitos optaram por não realizar o segundo aumento, dado o escrutínio mais intenso quanto às práticas de formação de preços do setor.

No entanto, a Pfizer manteve a prática de dois aumentos por ano, o que a deixou mais exposta às consequências políticas dessa estratégia. O grupo de biotecnologia Celgene e a Novo Nordisk, que fabrica remédios contra o diabetes, também aumentaram preços mais de uma vez em 2018, e o mesmo se aplica a uma série de empresas menos conhecidas.

No começo da semana, Trump recorreu ao Twitter para uma crítica raivosa à decisão da Pfizer: "Pfizer & outros deveriam se envergonhar por aumentar preços de remédios sem razão. Estão simplesmente tirando vantagem dos pobres & outras pessoas incapazes de se defenderem, e ao mesmo tempo oferecendo pechinchas para outros países na Europa & outras partes. Reagiremos!"
 
Tradução de PAULO MIGLIACCI

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