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Crise leva brasileiro a buscar aulas de como poupar

Jovens usam rap para ensinar finanças na periferia de São Paulo

Jhonata Montans e Ana Carolina Ferreira segurando cofre com dinheiro
Jhonata Montans e Ana Carolina Ferreira fizeram um curso para aprender a guardar dinheiro - Rubens Cavallari/Folhapress
Clara Cerioni
São Paulo

O vendedor Jhonata Montans, 21, tem um emprego fixo, mas, desde que entrou no mercado de trabalho, nunca teve dinheiro para nada além de pagar contas.

“Sempre gastei com besteira e ficava refém de bancar as compras. Eu recebia e uma semana depois já estava contando os dias para o próximo pagamento”, relata.

As incertezas econômicas do país, além do receio do desemprego, fizeram Montans buscar ajuda financeira para iniciar uma poupança.

“Minha namorada fez um curso de como gastar menos do que ganha e me incentivou a fazer o mesmo”, diz.

Hoje, os dois têm uma poupança em conjunto e guardam dinheiro tanto para emergências quanto para se casar. “Queremos viajar na lua de mel, mas seria impossível se eu não tivesse procurado ajuda”, afirma.

Guardar dinheiro nunca foi um hábito comum entre os brasileiros. Dados mais recentes do SPC Brasil (Serviço de Proteção ao Crédito) e da CNDL (confederação dos lojistas) apontam que, em maio, apenas 16% da população conseguiu garantir uma reserva financeira.

 

A caderneta de poupança ainda é a modalidade mais popular no país, usada por 60% dos investidores.

“Esse momento de instabilidade faz com que seja muito mais difícil poupar. E quem tem algum recurso extra opta pela caderneta”, afirma Flávio Borges, superintendente do SPC Brasil.

Para Sandro Mattos, que atua no DSOP, organização dedicada à educação financeira, o imediatismo é um dos fatores que prejudicam na hora de fazer a reserva.

“Além da instabilidade e do desemprego, as pessoas se preocupam com o que desejam agora e tomam atitudes equivocadas”, diz.

Por outro lado, também aumentou a procura por informações sobre finanças, impulsionada pelas discussões nas escolas.

Rap para ensinar finanças na periferia

A falta de acesso da população negra e das periferias em relação a finanças pessoais despertou na economista Gabriela Mendes Chaves a vontade de fazer algo para ajudar.

No entanto, suas próprias vivências como mulher, negra e nascida na periferia indicavam que ela teria de ser estratégica para conquistar seu público-alvo.

“Quem está à margem da sociedade não acredita que pode conseguir organizar as contas, sair do endividamento e fazer reserva”, diz.

Foi então que a paixão de Gabriela pelo rap se destacou entre suas ideias para cativar o público. 

“O Racionais tem tanta importância no dia a dia da periferia, foi o primeiro show da minha vida. As letras falam de escassez, desemprego e consumo que estão presentes até os dias de hoje”, diz.

Para dar corpo à ideia, Gabriela convidou a contabilista Gabriella Gomes para unir forças. Em abril, as duas criaram a empresa de empoderamento financeiro NoFront.

A metodologia dos cursos usa dois discos da banda do Capão Redondo (zona sul): “Nada como um dia após o outro”, de 2002, e “Cores e Valores”, de 2014.

A assistente social Maria Aparecida Moura, 55, fez um dos primeiros cursos do NoFront. Ela ficou tão encantada com a metodologia das aulas que fechou o salão de festas do prédio onde mora, na Brasilândia (zona norte), para toda a sua família participar.

“A linguagem é acessível. Eu saí de lá com confiança e conhecimento para falar com o gerente do banco.”

Para fazer os cursos, é preciso mandar um email para contato@nofront.com.br. Os preços partem de R$ 130, e também há bolsas de estudo.
 

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