BC entra com US$ 1,5 bi para conter efeito de crise argentina sobre dólar no Brasil

Moeda americana bateu R$ 4,21, mas desacelerou e fechou a R$ 4,14

São Paulo , Nova York e Buenos Aires

A disparada do dólar para R$ 4,21 ao longo desta quinta-feira (30) forçou o Banco Central brasileiro a intervir para conter o impacto da crise na Argentina sobre o real, já fragilizado pela eleição.

O BC ofertou lote adicional de 30 mil contratos de swap cambial tradicional (equivalente à venda futura de dólares) no valor de US$ 1,5 bilhão (R$ 6,2 bilhões). A autoridade não fazia ação do tipo desde junho, em meio a reflexos da paralisação dos caminhoneiros.

Com a entrada do BC no mercado, o dólar desacelerou e fechou em alta de 0,63%, a R$ 4,145 --ainda assim, a segunda maior cotação anterior aos R$ 4,166 registrados em janeiro de 2016, recorde desde o Plano Real.

Em nota, o BC disse que a medida visa a prover liquidez e garantir o bom funcionamento do mercado cambial.

"A intensidade e a frequência das intervenções dependerão da dinâmica e das disfuncionalidades observadas", afirmou.

O dia já começou desfavorável para países emergentes com dados fortes na economia dos Estados Unidos aumentando a expectativa de uma elevação mais acelerada nas taxas de juros.

Foi, no entanto, o derretimento da moeda argentina que azedou de vez o humor dos investidores.

O dólar disparou 23% na Argentina, fechando na máxima histórica de 39,65 pesos, apesar de o banco central do país ter anunciado nesta quinta elevação dos juros de 45% para 60% (a maior taxa do mundo), em uma tentativa de conter o câmbio.

O mercado não reagiu bem à declaração do presidente Mauricio Macri informando, na véspera, que o governo pedira um adiantamento de US$ 3 bilhões (R$ 12,4 bilhões) do empréstimo de US$ 50 bilhões (R$ 207,6 bilhões) ao FMI (Fundo Monetário Internacional) para conter a nova "tormenta".

Segundo ele, a instabilidade vem do cenário internacional adverso para emergentes.

Alberto Ramos, economista-chefe para América Latina do Goldman Sachs, afirmou, em relatório, que "na raiz do atual estresse do mercado estão sobretudo as grandes exigências de financiamento fiscal e o desconforto do mercado com a habilidade do país de custeá-las sob condições normais de mercado".

Para manter a linha de crédito com o FMI, o país se comprometeu com a redução da inflação (hoje em 25%) e do déficit fiscal em 1,3% em 2019.

O chefe de gabinete de Macri, Marcos Peña, afirmou que "claramente este não é o cenário que desejávamos", mas acrescentou que "não há uma solução mágica".

"Estamos caminhando para atingir o equilíbrio fiscal, que é o eixo central para reduzir nossas vulnerabilidades. Há problemas, mas há que se ver o filme inteiro e não apenas a foto deste momento", disse.

A oposição criticou duramente a alta dos juros.

O deputado peronista José Ignacio de Mendiguren afirmou que "hoje apareceu com mais clareza para Macri a Argentina real, e ele não sabe o que fazer com ela".

Cartazes e muros com os dizeres "volte Cristina" começaram a surgir por Buenos Aires, e centrais sindicais planejam uma greve geral nos dias 24 e 25 de setembro.

Apesar das turbulências, o banco JPMorgan avaliou que o impacto da crise cambial da Argentina na América Latina é baixo --a Turquia seria o emergente mais vulnerável.

"Olhando para os fundamentos econômicos, o Brasil é bem diferente de Argentina e Turquia, países em que a dívida líquida em dólar é enorme, por exemplo", diz José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator.

O cenário político incerto no Brasil deixa o país, no entanto, mais exposto a mudanças de humor externas, destaca Roberto Padovani, economista-chefe do Banco Votorantim.

"O Brasil está vulnerável porque temos uma situação fiscal bastante ruim e a superação disso depende do próximo presidente."

O Ibovespa, índice das ações mais negociadas por aqui, recuou 2,53%, para 76.404,09 pontos nesta quinta.

Anaïs Fernandes , Danielle Brant e Sylvia Colombo
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