Descrição de chapéu New York Times

Investidores destinam milhões a startups em megarrodadas de capitalização

Ampla disponibilidade de dinheiro muda a forma pela qual empresas de tecnologia costumavam ser construídas

Erin Griffith
Nova York

No final de abril, quando Mike Massaro estava se preparando para procurar entre US$ 40 milhões (R$ 156,4 milhões) e US$ 75 milhões (R$ 293,2 milhões) em capital para a Flywire, sua startup de pagamentos, ele contatou um pequeno grupo de investidores que já conhecia. Mas a notícia correu, e outros investidores lotaram sua caixa de email com ofertas de US$ 200 milhões (R$ 782 milhões) em investimentos, metade das quais ele recusou.

A Gusto, uma empresa de software para pagamento de salários e de tributos associados às folhas de pagamento, arrecadou US$ 140 milhões (R$ 547 milhões) em julho, mas poderia ter obtido cinco vezes mais capital, de acordo com Joshua Reeves, seu fundador e presidente-executivo.

A Convene, uma startup de serviços imobiliários, recentemente obteve US$ 152 milhões (R$ 594 milhões) em capital, e recusou mais de US$ 100 milhões (R$ 391 milhões) adicionais em propostas de investimento. Logo depois, uma segunda leva de potenciais investidores procurou a empresa, perguntando se ela estava em busca de capital adicional, de acordo com Ryan Simonetti, presidente-executivo da companhia.

Arrecadar mais de US$ 100 milhões (R$ 391 milhões) de investidores em uma rodada –o que o Vale do Silício define como uma "megarrodada"– costumava ser raro entre as startups. Mas agora isso vem acontecendo de modo rotineiro, o que produz um frenesi em torno de empresas de tecnologia com escala e ímpeto suficientes para absorver um cheque de valor elevado.

A disparada nos investimentos de alto valor vem sendo liderada por investidores relativamente novos, entre os quais o conglomerado japonês SoftBank, empresas chinesas e fundos nacionais de investimento de diversos países. Eles veem uma oportunidade de tirar vantagem das incursões da tecnologia a praticamente todos os setores, e desejam investir antes que as jovens companhias abram seu capital.

Ao ingressar no mercado de tecnologia, esses investidores praticamente silenciaram a discussão no Vale do Silício quanto a uma possível bolha de investimento –que era grande preocupação dois anos atrás -, porque o dinheiro disponível agora parece ilimitado.

Para as startups, a ampla disponibilidade de dinheiro está mudando a forma pela qual uma empresa de tecnologia costumava ser construída. Elas precisam se movimentar mais rápido, expandir suas ambições e arrecadar mais capital de investimento do que no passado - mesmo que não estejam prontas. Mas correm o risco de se tornarem excessivamente dependentes de capital de investimento, e de não conseguirem encontrar o caminho para o lucro.

"Se o seu concorrente vai arrecadar US$ 150 milhões (R$ 586 milhões) e você quer ser conservador e arrecadar só US$ 20 milhões (R$ 78,2 milhões), sua empresa terminará atropelada", disse Bill Gurley, sócio diretor da Benchmark Capital.

Os investidores bateram um recorde no ano passado, participando de 273 megarrodadas, de acordo com a Crunchbase, que compila dados de mercado. Este ano está a caminho de eclipsar facilmente os números de 2017, com 268 megarrodadas concluídas até o final de julho. No mês passado, startups fecharam mais de 50 acordos de capitalização, em valor combinado de US$ 15 bilhões (R$ 58,6 milhões), um novo recorde mensal.

Nos 10 últimos dias, a Letgo, uma companhia online de anúncios classificados, arrecadou US$ 500 milhões (R$ 1,95 bilhão). A Actifio, empresa de armazenagem de dados, arrecadou US$ 100 milhões (R$ 391 milhões). A MyDreamPlus, uma startup de escritórios compartilhados, garantiu US$ 120 milhões. E o Klook, um site de reservas de atividades durante viagens, obteve US$ 200 milhões (R$ 782 milhões).

Essas megarrodadas se tornaram tão comuns que a CB Insights, que acompanha o investimento em startups, chegou a discutir a possibilidade de elevar o valor de investimento que caracteriza uma megarrodada a US$ 200 milhões (R$ 782 milhões) ou mais, de acordo com Anand Sanwal, o presidente-executivo da empresa.

Muitos dos novos investidores, entre os quais o Vision Fund do SoftBank, com US$ 93 bilhões (R$ 354 bilhões) sob administração, dispõem de recursos grandes a ponto de deixar no chinelo o mercado tradicional de capital para empreendimentos dos Estados Unidos. Esses fundos gigantescos estão em busca de empresas iniciantes capazes de absorver grandes quantias de uma só vez. Fazer um monte de cheques de valor baixo consome tempo demais, e os retornos de pequenas apostas não farão diferença para fundos dessas dimensões. Por isso, os investidores estão competindo para capitalizar qualquer startup que se prove promissora e tenha capacidade para colocar em uso quantias de US$ 100 milhões (R$ 391 milhões) ou mais.

"Assim que imaginam ter identificado um vencedor, eles realmente dedicam muitos recursos a ele", disse Sanwal, da CB Insights.

As transações do SoftBank afetaram todas as áreas do mercado de capital para empreendimentos. A chegada de seu Vision Fund, cujo investimento mínimo é de US$ 100 milhões (R$ 391 milhões), levou diversas das companhias tradicionais de capital para empreendimentos, entre as quais a Sequoia Capital, a formar fundos maiores, que lhes permitam competir. Sete empresas diferentes do segmento têm fundos em processo de elevação de seu capital para investimento, de acordo com a Pitchbook, que acompanha o mercado de capital para empreendimentos.

Mas o Vision Fund não é o mais ativo entre os investidores em megarrodadas. A Tencent Holdings participou de 31 rodadas de capitalização com valor de US$ 100 milhões ou mais, ante 18 para o SoftBank, de acordo com a CB Insights. O GIC e o Temasek Holdings, fundos de investimento associados ao governo de Cingapura, assim como o Alibaba e a Sequoia Capital China, também estiveram entre os mais ativos investidores nas megarrodadas deste ano.

Como resultado, os investidores iniciais precisam garantir que as empresas em suas carteiras tenham um relacionamento amistoso com os grandes fundos, o que prepara o terreno para possíveis grandes investimentos no futuro.

"Parece que os investidores em estágios iniciais estão fazendo um desfile de moda para os megafundos", disse Patricia Nakache, sócia da Trinity Partners.

O mercado aquecido de capitalização está levando as startups de alto crescimento a mudar seus planos. A Flywire não vai buscar mais capital de investimento até o ano que vem. Ela ainda tinha US$ 15 milhões de uma rodada anterior de capitalização no banco, ao fechar sua mais recente rodada. Mas a empresa viu "investimento aquecido" no setor de pagamentos e Massaro achou que mais dinheiro ajudaria a Flywire a crescer mais rápido.

Poucos investidores de capital para empreendimentos preveem que venha a surgir uma desaceleração nas megarrodadas. Aqueles que acautelavam quanto a uma bolha na tecnologia, e colapso subsequente, desistiram de seus alertas. Em 2015, Gurley, da Benchmark, previu "unicórnios mortos", falando sobre as startups cujo valor de mercado passa de US$ 1 bilhão (R$ 3,91 bilhões). Mas de lá para cá, o número de startups com valor de mercado estimado em mais de US$ 1 bilhão subiu de 80 para 258, de acordo com a CB Insight. A capitalização excedente está vinculada a avaliações inflacionadas, o que pode criar problemas quando as empresas que recebem essas avaliações excessivamente generosas tentarem abrir seu capital.

Gurley disse que desistiu de seus alertas. "Você precisa se ajustar à realidade e jogar o jogo que temos agora", ele disse.

Annie Lamont, sócia diretora do fundo de capital para empreendimentos Oak HC/FT, antecipava que as avaliações e o investimento de capital nas startups caíssem, três anos atrás, mas isso não aconteceu. Agora ela espera que as coisas continuem como estão, em parte porque a maioria das empresas conseguiria dinheiro novo com facilidade, e poucas estão preocupadas com uma desaceleração.

"Não está surgindo o medo de uma correção", ela disse. Se alguma startup terminar "vaporizada", disse Lamont, "creio que as pessoas ignorarão o fato e correrão à próxima da fila".
 
Tradução de PAULO MIGLIACCI

The New York Times
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