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RÉPLICA: Alexandre Schwartsman perde o decoro ao ofender Marcio Pochmann

Não podemos esquecer que a qualidade mais importante que um bom economista deve apresentar é aceitar a contradição

Há um problema que se repete no Brasil em vésperas de eleições: Trata-se da visão futebolística de que nosso time é o melhor e tudo que vem do adversário não presta. Este fato, aliado à intensa rivalidade existente entre PSDB e PT, é uma das causas da tragédia brasileira.

Ambos partidos já fizeram coisas muito boas pelo país —o Plano Real de FHC e a melhoria da renda dos mais pobres de Lula são exemplos inequívocos de que há coisas boas dos dois lados e que precisam ser mutuamente reconhecidas.

Além disso, não podemos esquecer que a qualidade mais importante que um bom economista deve apresentar é aceitar a contradição, pois a mesma está presente em quase todos aspectos que envolvem a teoria econômica.

Em economia raramente há uma única forma de se enxergar ou interpretar fatos. É isso que surpreende em Alexandre Schwartsman. Em seu artigo de quarta-feira (26) nesta Folha ele se põe a ofender Marcio Pochmann, professor da Unicamp, chamando-o de desonesto ao invés de se contrapor com bons argumentos ao que Marcio coloca.

Poucos contestam que um dos maiores problemas do Brasil é a péssima distribuição de renda. O que Marcio quis dizer, e certamente Alexandre entendeu, é que aumentando um pouco a alíquota paga pelas famílias muito ricas, já se conseguiria arrecadar o suficiente para cobrir praticamente todo o déficit primário de cerca de R$ 170 bilhões.

Segundo dados da Receita Federal, as 70 mil famílias (0,14 % do total) mais ricas do país pagam um imposto efetivo de apenas 6% da renda, enquanto a classe média paga 12%. Se os muito ricos passassem a pagar um imposto efetivo igual ao pago pela classe média, acabaríamos com o déficit primário. Simples assim.

Segundo Alexandre, a segunda mentira de Pochmann é com relação à evolução do endividamento. Como ex- diretor do Banco Central, Alexandre deveria consultar as informações e estatísticas desta instituição. Por ali fica muito claro o que Pochmann quis dizer: Sim, o endividamento cresceu —tanto bruto quanto o líquido— durante o segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, mas a taxa de crescimento foi muito menor do que nestes dois últimos anos de Temer.

Alexandre se ressente por Marcio não ter dito qual o período em que o desemprego subiu? Ora, como um economista que tem obrigação de conhecer os dados da economia brasileira, ele deveria saber de cor que 8,4% foi no último ano de Dilma, e 11,7% foi no primeiro ano de Temer. 

A última das quatro mentiras apontadas por Alexandre não somente se trata de pura  verdade como é o que se faz necessário para o país voltar a crescer. Pochmann estima que haja um potencial arrecadatório de 1,5% do PIB (equivalente a R$ 120 bilhões) possível de ser conseguido com pequenas mudanças, como a da alíquota do IR e mudanças no imposto sobre heranças, hoje muito baixa —além de tratar-se de um imposto estadual.

Claro que discordar é natural e necessário, mas sem perder o decoro. E Alexandre perdeu o decoro ao ofender de forma grave um economista como Marcio Pochmann, que já foi presidente do Ipea, talvez o posto mais importante do país em termos de fórum para a discussão das grandes questões brasileiras.

Paulo Feldmann é professor de economia brasileira da FEA-USP

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