Conheça a trajetória de Carlos Ghosn, que presidiu a Nissan, preso nesta segunda

Nascido no Brasil, executivo ganhou fama ao salvar montadora da falência no início dos anos 2000 e criou império de 470 mil funcionários

Paris

Carlos Ghosn, nascido no Brasil, destacou-se por muito tempo entre os executivos do setor automotivo do mundo como um workaholic capaz de fazer uma empresa à beira da falência voltar a andar sozinha rapidamente.

Como presidente da aliança Renault-Nissan-Mitsubishi Motors, Ghosn, de 64 anos, criou um império industrial, com 470 mil funcionários, que no ano passado venderam 10,6 milhões de veículos de 122 fábricas no mundo todo.

Mas o grupo agora deve sofrer grandes abalos após a polícia japonesa prender Ghosn, suspeito de não ter declarado às autoridades fiscais do país o montante integral de sua renda como presidente da Nissan. 

O conselho diretor da Nissan informou nesta segunda-feira que vai destituí-lo após uma investigação de meses iniciada por um informante que descobriu "atos significativos de má conduta".

Carlos Ghosn, então presidente da Nissan, em entrevista a jornalistas em Detroit - GEOFF ROBINS - 11.jan.2016/AFP

Apelidado de "Cost Killer" na França, Ghosn começou sua carreira com o fabricante de pneus Michelin e, após uma etapa inicial no Brasil, rapidamente ascendeu e ganhou reputação por suas operações na América do Norte.

Foi contratado pela Renault em 1996 para trabalhar com o então diretor-geral Louis Schweitzer, onde ajudou a devolver rentabilidade à empresa.

Apenas três anos mais tarde, foi enviado para dirigir o recém-adquirido grupo Nissan, com o desafio de fazer a mesma coisa em um prazo de dois anos. Conseguiu em apenas um.

Seu trabalho lhe tornou um herói no Japão, onde existem até mesmo mangás dedicados ao executivo, conhecido por acordar antes do sol nascer e dormir apenas seis horas por noite.

"Um chefe tem que ter 100% de liberdade para agir e 100% de responsabilidade pelo que faz. Nunca tolerei nenhuma exceção a esse princípio, nunca aceitarei nenhuma interferência", disse, certa vez. 

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Cidadão do mundo

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Atravessar fronteiras nunca foi um problema para Ghosn. Fala português, espanhol, italiano, francês e inglês fluentemente e tem bom conhecimento de japonês. 

Nasceu no Brasil em 9 de março de 1954, filho de libaneses. Aos seis anos, foi morar com sua mãe no Beirute, onde estudou em uma escola jesuíta.

Mais tarde, Ghosn se mudou para Paris, onde se formou em duas das universidades mais elitistas da França, inclusive a Escola de Engenharia Politécnica. Ghosn tem passaporte francês.

Após devolver à Renault e à Nissan uma sólida base financeira, fez pressão para desenvolver carros elétricos, os primeiros da indústria.  

Apesar do ritmo frenético de trabalho, ele sempre preservou sua vida pessoal com a mulher e seus quatro filhos.

"Não levo trabalho para casa. Brinco com meus quatro filhos e fico com minha família nos fins de semana", disse certa vez à revista Fortune. "Quando vou trabalhar na segunda-feira (...) chego com boas ideias por estar recarregado", explicou.

As grandes receitas geradas por seu sucesso empresarial por vezes causaram problemas, sobretudo, com o governo francês, que possui 15% da Renault.

Sua remuneração combinada alcançou US$ 14,8 milhões (R$ 55,8 milhões) no ano passado, segundo a consultoria de governança corporativa Proxinvest. 

Em 2016, o Estado francês se uniu aos 54% dos votantes na reunião anual dos fabricantes de automóveis e se negou a autorizar um pacote salarial de 7,25 milhões (R$ 31milhões) de euros para seu posto na Renault.

O conselho administrativo da Renault anulou a votação, mas Ghosn aceitou posteriormente um corte salarial após Emmanuel Macron, então ministro de Finanças da França, ameaçar intervir com uma nova lei de compensação.

Desde então, as relações melhoraram, com a aprovação pelo governo de um novo mandato para Ghosn como CEO da Renault em troca de um corte salarial de 30%, e a nomeação de Thierry Bollore, seu esperado sucessor, como seu adjunto.

Construtor de um império automotivo

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Aliança entre montadoras

Ghosn liderou a aliança Renault-Nissan-Mitsubishi até o topo da indústria automotiva mundial. No Japão, Carlos Ghosn é venerado por reerguer a Nissan, cujo controle passou para as mãos da Renault em 1999.

À frente da Renault e da Nissan, em 2016, o empresário ampliou essa aliança à Mitsubishi Motors, levando o grupo à liderança na venda de automóveis. No ano passado, 10,6 milhões de unidades foram vendidas.

Remuneração polêmica -

Sua remuneração, uma das mais elevadas entre os executivos franceses, causou em 2015 embates com o Estado francês, acionário de 15% da Renault.

Sua remuneração combinada alcançou US$ 14,8 milhões (R$ 55,8 milhões) no ano passado

Em junho de 2017, a agência de notícias Reuters afirmava que a aliança refletia um sistema de bônus escondidos para seus dirigentes, por meio de uma sociedade instalada na Holanda. Ghosn negou.

Em fevereiro de 2018, Ghosn aceitou reduzir em 30% sua remuneração, uma condição imposta pelo Estado francês para apoiá-lo em mais um novo mandato de quatro anos.

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Carro elétrico -

Na gestão de Ghosn, Renault e Nissan foram os primeiros a investir em massa no carro elétrico, setor do qual é líder mundial.

A partir de 2010, a estratégia da Alliance se voltou, decididamente, para esse novo modo de motorização. A concorrência seguiu esse caminho recentemente, depois de ver o mercado decolar. Em junho, o grupo anunciou que pretende investir um bilhão de euros nos veículos elétricos em cinco anos.

"Cortador de gastos" -

Poliglota, capaz de se adaptar a diferentes culturas, esse franco-libanês-brasileiro rapidamente ganhou o apelido de "cost killer" ("cortador de gastos") por sua capacidade de transformar empresas à beira da falência em lucrativos negócios.

Conhecido por se levantar muito cedo e dormir muito tarde, em 2006, Carlos Ghosn foi descrito pela revista "Forbes" como "o homem que trabalha mais duro no setor brutalmente competitivo dos automóveis".

Um arceiro dos políticos -

À frente de um império que reúne dez marcas e conta com 470.000 funcionários, o CEO foi criticado por sua alta remuneração, mas isso não o impediu de ser cortejado por políticos que associaram seu nome a seus projetos.

Em 2013, Arnaud Montebourg, então ministro da Renovação Industrial, entregou a Ghosn um dos 34 planos para o relançamento industrial da França: desenvolver o carro dirigido por piloto automático.

Mais recentemente, o CEO da Renault anunciou um investimento de 450 milhões de euros na fábrica Renault de Maubeuge, por ocasião de uma visita do presidente francês, Emmanuel Macron. A unidade conta com 2.000 funcionários. O presidente agradeceu à Renault por seu compromisso com o território nacional, após um anúncio prometendo criar 200 vagas por tempo indeterminado.

AFP
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