Com base nos números, economia da China está pior do que parece

Crescimento do PIB chinês em 2018 foi o menor desde 1990

Pequim

A economia da China está se desacelerando, e a desaceleração provavelmente é pior do que Pequim admite.

A China anunciou nesta segunda-feira (21) que sua economia cresceu em 6,4% no terceiro trimestre do ano passado, ante o período em 2017. O crescimento anual foi de 6,6%, de acordo com dados chineses.

Os números indicam que a economia da China está operando em patamar mais baixo, mas ainda administrável. O resultado trimestral representa o crescimento mais lento do país desde a crise financeira mundial uma década atrás. O resultado anual mostra o crescimento mais fraco desde 1990, quando o milagre econômico chinês passou por um tropeço depois da repressão aos protestos pela democracia na praça Tiananmen, de Pequim, um ano antes.

Mas os números indicam apenas um modesto recuo com relação ao  ritmo anterior. Pintam o quadro de uma economia madura se ajustando gentilmente a um índice de crescimento mais baixo mas também mais administrável.

Dados mais detalhados contam uma história diferente.

Do investimento ao consumo, passando pela atividade fabril, a economia chinesa se desacelerou acentuadamente na segunda metade do ano passado. Isso é má notícia não só para Pequim, que está enfrentando o presidente Donald Trump em uma guerra comercial, mas para o planeta, que há muito vem dependendo da China como fonte de estímulo econômico.

Alguns economistas dizem que a situação vai melhorar este ano, e os números sobre o mês final de 2018 indicam que a desaceleração está chegando ao fim. Mas decisões recentes do governo chinês mostram que os líderes do país sentem que a economia precisa de ajuda.

Pelos números

Os dados mensais detalhados divulgados na segunda-feira indicam que a economia se recuperou em dezembro, com as medidas de Pequim para reanimar o crescimento. As vendas do varejo e a produção industrial subiram, no mês, ante novembro, o que parece apontar que consumidores e empresas estavam se sentindo um pouco melhor, enquanto o ano se aproximava do fim.

Mas os números mensais não bastam para compensar de todo o desempenho morno no segundo semestre de 2018. As vendas do varejo se desaceleraram acentuadamente naqueles seis meses, sob o peso de uma queda acentuada nas atividades das concessionárias de automóveis chinesas e da fraqueza generalizada nas vendas de smartphones. O investimento em ativos fixos, como fábricas e edifícios de escritórios novos, foi anêmico.

"A economia da China se desacelerou acentuadamente nos últimos meses", disse Louis Kuijs, especialista em assuntos chineses na consultoria Oxford Economics.

A questão agora é determinar se a melhora de dezembro persistirá no começo de 2019. O governo chinês está tentando estimular o crescimento sem aumentar a imensa carga de dívidas que o país acumulou nos 10 últimos anos. Embora a China ainda disponha de muitos recursos para reanimar o crescimento, diversas dessas opções também acarretam efeitos negativos.

Problemas no comércio

Os problemas econômicos da China surgiram antes que Trump começasse a impor tarifas sobre produtos fabricados no país. Mas mesmo assim, a guerra comercial não está ajudando.

As atividades se desaceleraram, recentemente, em muitas fábricas voltadas às exportações. Elas produziram demais no quarto trimestre, correndo para embarcar produtos aos Estados Unidos antes do aumento de tarifas que deveria ter surgido em 1º de janeiro, e que acabou não acontecendo. Os importadores americanos se viram com os armazéns lotados e reduziram seus pedidos. Muitas fábricas chinesas cortaram as horas extras de seu pessoal e estão em busca de outras maneiras de reduzir seus custos de pessoal.

"A indústria era uma boia e se tornou uma âncora, nos dois últimos trimestres", afirmou a consultoria econômica China Beige Book, em análise publicada no mês passado.

O governo chinês tinha a esperança de que o setor de serviços se expandisse, quando a indústria se contraísse. Mas e economia geral continua tão dependente da indústria que o setor de serviços também se enfraqueceu nos últimos meses, concluiu a China Beige Book.

Propelindo a desaceleração

Alguns economistas apontam que o maior fator para a fraqueza das vendas do varejo na China, que de acordo com algumas estimativas responde por mais de metade da desaceleração, é a queda acentuada nas vendas de automóveis.

As vendas de automóveis estão caindo desde a metade do ano passado, e em dezembro despencaram em 19% ante os resultados do mês um ano antes. Mas a China tinha em vigor um modesto incentivo fiscal aos compradores de carros, em 2016, e esse benefício se reduziu em 2017 e desapareceu em 2018. É possível que essa política tributária tenha levado consumidores a antecipar compras para 2016 e 2017, o que teria posicionado o mercado para uma queda no ano passado.

"É porque tivemos um número alto em 2017 que o mercado de 2018 sofreu tamanha pressão", disse Cui Dongshu, secretário geral da Associação de Carros de Passageiros da China, em entrevista por telefone.

As vendas em queda nas concessionárias de automóveis produziram uma onda de cortes de produção em linhas de montagem de toda a China. Isso resultou em cortes nos pedidos de autopeças, aço, vidro e outros produtos.

Mas pode ser que haja ajuda a caminho. Lian Weiliang, vice-presidente da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, disse em entrevista coletiva na semana passada que a China prepararia medidas para "estabilizar" o consumo de carros e de eletrodomésticos.

Quanto tempo a crise vai durar?

Uma grande opção que a China tem é ajudar o mercado da habitação.

A construção e equipamento de casas e outras edificações representa até um quarto da atividade econômica do país, de acordo com algumas estimativas. Em companhia da queda nas vendas de automóveis e da forte queda nas bolsas de valores do país, a fraqueza do mercado da habitação vem debilitando a confiança do consumidor.

A China poderia tomar medidas como reduzir os limites para empréstimos hipotecários e facilitar a compra de terrenos e a administração das dívidas dos incorporadores de imóveis. Mas essa abordagem tem seus perigos. O setor já está sofrendo de excesso de capacidade e de atividades especulativas, algo que as autoridades vêm há muito tempo tentando conter.

"Aliviar o mercado de imóveis é um último recurso, e não uma prioridade", disse Tao Wang, economista especializado no mercado chinês, no banco suíço UBS.
 
Tradução de PAULO MIGLIACCI

The New York Times
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