Precisamos de clareza em relação ao passado, diz Levy sobre 'caixa preta' do BNDES

Presidente do banco ofereceu instituição para ajudar a modelar privatizações nos estados

Nicola Pamplona
Rio de Janeiro

O presidente do BNDES, Joaquim Levy, disse nesta terça-feira (8) que o banco vai avaliar operações feitas pelas últimas gestões como parte do processo que o presidente Jair Bolsonaro chama de "abertura da caixa preta" do banco. 

Em tom mais ameno do que o do presidente, porém, ele evitou citar prazos ou dar detalhes sobre o processo, dizendo que deve ser feito "de forma institucional".

"A gente não vai ficar só olhando para o passado, mas a gente tem que ter clareza em relação ao passado", afirmou em entrevista após cerimônia de transferência de cargo na sede do banco. Ele completou dizendo que uma caixa preta "só é preta enquanto não se decripta [decodifica] o que tem ali dentro."

O termo caixa preta faz referência ao equipamento em aviões que armazena informações para serem usadas em investigações de eventuais acidentes. Desde a campanha eleitoral, Bolsonaro tem prometido investigar operações feitas pelo banco durante os governos petistas.

"Com poucos dias de governo, não só a caixa preta do BNDES, mas de outros órgãos estão sendo levantados [sic] e serão divulgados [sic]", reforçou o presidente nesta segunda (7), em suas redes sociais. 

Ao nomear Levy para o BNDES, ele frisou que essa seria uma de suas missões. "Isso tem que ser feito de uma maneira institucional, principalmente, que sirva de base para a gente continuar desenvolvendo novas regras de governança", disse Levy nesta terça.

Ele reforçou que a transparência é um compromisso da gestão. "Parte importante vai ser organizar melhor os dados, que já estão disponíveis, mas de uma maneira que fica difícil para as pessoas entenderem". afirmou. Nas duas últimas gestões, o BNDES ampliou a quantidade de informações disponíveis em sua página na internet.

Em seu discurso de despedida, o ex-presidente do banco Dyogo Oliveira defendeu os funcionários da instituição e disse que os "erros" cometidos em gestões anteriores foram resultado de "orientação política". O governo Bolsonaro critica especialmente empréstimos dados a países como cuba e Venezuela e a política de eleger campeões nacionais.

DEVOLUÇÃO

Levy disse que ainda não foi definido o valor de devolução de recursos ao Tesouro Nacional em 2019. O cronograma de devolução prevê o repasse de R$ 26 bilhões, mas a área econômica gostaria de mais recursos para ajudar a reduzir o déficit fiscal.

O presidente do BNDES afirmou que o valor dependerá das perspectivas de crescimento da economia e do processo de reorganização do balanço do banco para se adequar a um cenário com menos recursos do Tesouro.

Essa reorganização envolve a redução da carteira de ações em mãos de sua subsidiária BNDESEPar. Da venda dos papeis, virá parte dos recursos para compor a nova estrutura de capital do banco.

Levy disse que o primeiro passo é estudar preços das ações e possíveis impactos da venda no mercado, já que o banco tem grandes fatias de empresas e qualquer anúncio de venda pode jogar para baixo o valor das ações.

"Acredito que o momento é bom. A gente tem visto as bolsa evoluindo bem e, na medida em que o governo for entregando as reformas, o apetite do investidor vai aumentar. Isso nos facilita a reorganizar o balanço", comentou. 

O presidente do BNDES, Joaquim Levy, em cerimônia de posse no Rio
O presidente do BNDES, Joaquim Levy, em cerimônia de posse no Rio - REUTERS

PRIVATIZAÇÕES

Levy defendeu privatizações nos estados como maneira de levantar recursos para enfrentar a crise fiscal e modernizar a prestação de serviços públicos aos cidadãos e ofereceu o BNDES para ajudar a modelar os processos de venda.

Presente à cerimônia de transmissão de cargo, o governador do Rio, Wilson Witzel (PSC) disse ser contra a venda da Cedae (Companhia Estadual de Água e Esgoto), uma das contrapartidas do estado ao regime de recuperação fiscal. O processo vinha sendo modelado pelo BNDES.

Witzel argumentou que considera a companhia estratégica para o estado do Rio e que vai tentar renegociar a cláusula do programa de socorro federal que determina a privatização. Disse que um acordo poderia ajudar outros estados, que não querem ou não têm ativos para vender, a pedir recuperação.

O BNDES já atua em parcerias com estados para vender empresas de saneamento e coordenou o processo de venda das distribuidoras de eletricidade que estavam sendo operadas pela Eletrobras. 

Levy disse que o bando deve participar também do processo de privatização da própria Eletrobras e que aguarda definições do governo federal sobre o tema.

Em seu discurso de posse, ele falou que os focos do banco serão médias empresas, inovação e tecnologia e infraestrutura, com apoio à modelagem de projetos para concessão pelos governos federal e estaduais.

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