Startup de patinete elétrica não tem futuro, diz fabricante

Patinetes compartilhadas foram uma das grandes modas da tecnologia em 2018

Tim Bradshaw
Londres

As startups de compartilhamento de patinetes elétricas, entre as quais a Bird e a Lime, não são negócios “sustentáveis”, disse um importante executivo em um dos maiores fabricantes mundiais de veículos de duas rodas.

“Creio que seja questionável dizer que o modelo de negócios dessas empresas independentes seja sustentável”, disse Tony Ho, vice-presidente de desenvolvimento mundial de negócios na Segway-Ninebot.

A Bird e a Lime, e outros concorrentes, como a Uber e a Lyft, dependem da Segway-Ninebot, da China, para muitas das patinetes elétricas que essas companhias colocaram em operação em dezenas de cidades em todo o mundo

Patinetes compartilhadas foram uma das grandes modas da tecnologia em 2018, com o setor de capital para empreendimentos despejando mais de US$ 1 bilhão em startups nos últimos meses.

A Segway-Ninebot, que conta com capital da Xiaomi, Sequoia Capital e Intel, também se beneficiou desse crescimento. A empresa foi formada em 2015, quando a Ninebot adquiriu a Segway, pioneira do “transporte pessoal” nos EUA.

Ho disse que as vendas de patinetes saltaram de 200 mil unidades em 2017 para mais de 1 milhão de unidades em 2018, com metade das vendas dirigidas a consumidores. Ho previu mais “crescimento significativo” neste ano.

“É espantoso como essas empresas, especialmente a Bird, conseguiram educar o mercado, em prazo tão curto”, ele disse.

Homem sobre patinete elétrico
Homem usa patinete elétrico - Adriano Vizoni/Folhapress

Mas, embora Bird e Lime tenham atingido avaliações de mais de US$ 1 bilhão e obtido capital da ordem de centenas de milhões de dólares, os investidores estão cada vez mais preocupados com suas perspectivas, em meio ao aperto da regulamentação e à concorrência cada vez mais intensa.

As duas startups conversaram com a Uber quanto à possibilidade de serem adquiridas, disseram pessoas informadas sobre as discussões, embora não esteja claro se elas continuam interessadas em uma venda.

Ho disse acreditar que tomadas de controle como as propostas seriam vitais caso o compartilhamento de patinetes pretenda se tornar um negócio viável, dizendo que era “apenas questão de tempo” para que as startups do segmento comecem a enfrentar problemas de fluxo de caixa semelhantes aos que surgiram para a Ofo, uma empresa chinesa de bicicletas compartilhadas.

O fundador da Ofo alertou no começo do mês para o risco de a empresa pedir concordata.

A montadora de automóveis Ford recentemente adquiriu a Spin, rival de menor porte da Bird e Lime, o que Ho definiu como “uma boa ideia”.

“Se você combinar isso a uma rede maior, faz mais sentido financeiro”, disse. “Para os pioneiros, como a Bird e a Lime, o aspecto financeiro, a margem bruta de lucro, não é atraente.”

Além de terem de cobrir o custo da compra dos veículos, as operadoras de scooters precisam recrutar pessoal terceirizado para recolher e recarregar os veículos a cada dia. Mas os investidores em scooters argumentam que a receita da Bird e da Lime mostra crescimento mensal sem paralelo.

Tanto a Bird quanto a Lime buscaram diversificar seus fornecedores, para dependerem menos da Segway-Ninebot, recorrendo a rivais como a Okai, da China, para que projetassem scooters mais resistentes a vandalismo e ao clima inclemente.

Ho mesmo assim continua otimista quanto a esses veículos, que ele disse estarem passando por “um momento iPhone”.

“Uma coisa que posso afirmar com toda confiança é que o formato básico da scooter elétrica chegou para ficar”, disse. “Ela é algo que os consumidores escolheram usar.”

Como empresa chinesa, a Segway-Ninebot foi afetada pelas tarifas que o presidente Donald Trump impôs aos produtos chineses importados para os Estados Unidos e está estudando transferir sua produção ou sua cadeia de suprimentos a outros territórios, entre os quais o México, acrescentou Ho.

Tradução de Paulo Migliacci

Financial Times
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