Descrição de chapéu Tragédia em Brumadinho

Acionistas minoritários e ONGs pedem destituição da diretoria executiva da Vale

Grupo também quer assembleia para que seja demonstrada como ocorrem as reparações

Rubens Valente
Brumadinho (MG)

Um grupo de dez acionistas minoritários, que inclui organizações não governamentais e moradores da região de Brumadinho (MG), pediu nesta terça-feira (5) ao conselho de administração da mineradora Vale, no Rio, a destituição da diretoria executiva da empresa.

Ao conselho fiscal, o grupo também pediu a convocação de uma assembleia extraordinária para que seja demonstrada como está sendo feita a “reparação integral das violações de direitos e dos danos ambientais causados” pelo rompimento da barragem na Mina do Feijão.

“Parece claro que esses administradores da empresa são incompetentes, não conseguiram evitar o desastre mesmo sabendo dos problemas. O afastamento da diretoria é necessário para que sejam revelados aos acionistas onde a empresa falhou e o que fará para que isso não se repita”, disse o advogado Danilo Chammas, da ONG Articulação dos Atingidos pela Vale, em entrevista coletiva concedida no Córrego do Feijão, bairro rural de Brumadinho e um dos mais atingidos pela lama provocada pelo rompimento da barragem na sexta-feira (25).

“É evidente que a manutenção dos diretores executivos em seus cargos, a cada dia que passa, compromete uma investigação isenta e profunda sobre os fatos, na medida em que essas pessoas tenderão a evitar ao máximo que a responsabilização sobre a tragédia recaia sobre eles mesmos”, diz o pedido protocolado na Vale, que também cita a perda de R$ 71 bilhões no valor da companhia no pregão da Bovespa de 28 de janeiro.

O pedido dos acionistas descreve que, quando o atual diretor-presidente da companhia, Fabio Schvartsman, tomou posse no cargo em 22 de maio de 2017, assumiu “com o objetivo de realizar uma gestão marcada pela performance, estratégia, governança e sustentabilidade”. O pedido transcreve trecho do discurso de Schvartsman, no qual afirmou: “Devemos adotar juntos um lema: 'Mariana nunca mais'. Que tenha sido a última vez que essa empresa esteja envolvida direta e indireta[mente] num desastre ecológico e social da dimensão que foi Mariana”.

Os minoritários disseram que o desastre de Brumadinho “foi uma decepção”. “Entendemos que a diretoria executiva que está à frente da companhia demonstrou não ter tomado as medidas necessárias para evitar uma nova tragédia decorrente do rompimento de uma barragem de rejeitos, contrariando a promessa feita quando da posse do diretor-presidente”, diz o pedido dos acionistas.

Outra subscritora dos pedidos, Carolina de Moura Campos, integra o Movimento de Águas e Serras de Brumadinho, criado em 2009 depois que a comunidade de Jangada começou a receber água barrenta em suas casas. “A Vale viola direitos humanos, desrespeita a comunidade e atua com falta de transparência. Nas assembleias anuais dos acionistas, nossas colocações não foram levadas a sério. Existe um notório conflito entre Vale e moradores”, disse Carolina na entrevista coletiva.

Em nota, a Articulação criticou também “o papel atribuído à Vale como o ator responsável por gerir e divulgar dados de interesse público, imprescindíveis para a investigação deste crime ocorrido em Brumadinho”. Apontou que as exigências estabelecidas pela Vale para a doação de R$ 100 mil aos atingidos “baseadas em um conceito de família que não necessariamente se observa na realidade, podem estar impondo a estas pessoas tarefas extras para a obtenção de documentos, gerar embaraços intermináveis e, em alguns casos, inviabilizar o efetivo recebimento do recurso”.

A Articulação disse ainda que “a atuação da imprensa desde o rompimento da barragem de rejeitos da Vale em Brumadinho tem sido um fator essencial para a efetiva cobrança e apuração das responsabilidades por esse crime. É essencial que a cobertura da imprensa permaneça no decorrer do tempo, sensibilizando pessoas nas diferentes partes do país e do mundo a demandarem justiça por Brumadinho”.

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