Botão like do Twitter é um erro, diz cofundador

Para Dorsey, hoje o que mais importa são contribuições e conversas saudáveis na rede

Fernanda Ezabella
Vancouver

Se pudesse relançar o Twitter hoje, seu cofundador Jack Dorsey disse neste terça (16) que não incluiria o botão de like nem daria ênfase aos retuítes e ao número de seguidores que cada usuário exibe em sua página pessoal.

Para ele, esses são incentivos errados para quem usa a plataforma, mas eram os fundamentos básicos quando o site foi criado, 13 anos atrás.

“Essas coisas não ajudam no que acreditamos ser hoje o mais importante, que são contribuições e conversas saudáveis na rede. Não eram coisas que pensávamos no início”, disse Dorsey, numa entrevista com dois curadores do TED, um evento de tecnologia, entretenimento e design realizado em Vancouver.

“Precisamos pensar em como exibir números de seguidores, retuítes, likes e perguntar: são esses os números que a gente quer incentivar que as pessoas aumentem? Não acho que seja mais o caso.”

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O cofundador do Twitter, Jack Dorsey, em entrevista com curadores do TED - Bret Hartman/TED

Dorsey concordou que hoje é “muito fácil de abusar e assediar usuários” no site e que tem atuado para combater comportamentos tóxicos, desinformação, manipulação, automação e ações em massa. 

“Infelizmente, a maioria do nosso serviço, no passado, funcionava inteiramente com base na denúncia que as pessoas faziam”, disse, acrescentando que, desde 2018, o foco é tirar a responsabilidade da vítima na denúncia. “Decidimos investir mais em ‘machine learning’ e ‘deep learning’ para tentar ser mais pró-ativos.”

Segundo Dorsey, hoje cerca de 38% dos tuítes abusivos são identificados por algoritmos e depois revisados por humanos. O Twitter ainda tem atuado com laboratório Cortico, do Massachusetts Institute of Technology, para criar indicadores tecnológicos para medir “conversas saudáveis”.

Entre os indicadores, estão medidas de quanto a conversa é debatida ou desviada, qual a porcentagem de compartilhamento desses fatos, verdadeiros ou não, e se as conversas ocorrem em bolhas de filtro ou com variedades de opinião.

“Primeiro queremos saber se conseguimos medir esses debates online. Estamos indo bem no medidor de toxicidade. O próximo passo é construir soluções e criar um balanço.”

Chris Anderson, organizador do TED, elogiou Dorsey por ouvir críticas e estar no evento, ao contrário de outros gigantes tecnológicos, mas comparou o site ao Titanic. “É como um Twitanic! Estamos gritando que o navio está chegando no iceberg, e você está ouvindo, mas está calmo demais, não está mudando a direção. A democracia está em jogo, nossa cultura está em jogo”, disse Anderson.

Dorsey, de barba longa mal aparada e gorrinho preto, respondeu: “Tenho orgulho da direção que estamos seguindo. Poderíamos seguir de forma rápida, mas precisamos, antes, parar várias coisas estúpidas que fizemos no passado.”

Dorsey também reafirmou que o objetivo do Twitter não deve ser “maximizar o tempo do usuário no site, e sim maximizar o que o usuário tira de valor do site”. “Mais relevância significa menos tempo no aplicativo.

Porque queremos ter certeza de que você vem ao Twitter e acha algo imediatamente que pode aprender. E ainda assim podemos colocar uma propaganda nisso.”

Uma das primeiras apresentadoras do TED, na segunda (15), foi a jornalista inglesa Carole Cadwalladr, finalista do prêmio Pulitzer, anunciado no mesmo dia. Em 2018, ela publicou histórias sobre a Cambridge Analytica, firma que usou de forma ilegal dados de mais de 80 milhões usuários do Facebook para consultorias políticas, em anúncios para influenciar eleições.

E Cadwalladr citou o nome de seu cofundador Mark Zuckerberg e o de outros gigantes do Vale do Silício, comoDorsey , Larry Page e Sergey Brin, do Google. “Vocês estão do lado errado da história ao se recusar em nos dar as respostas de que precisamos”, disse.

Cadwalladr usou como exemplo o referendo para a saída do Reino Unido da União Europeia, em 2016.

“Vários crimes aconteceram nessa eleição e aconteceram dentro do Facebook.” A rede social se negou diversas vezes a responder ao Parlamento britânico perguntas sobre as campanhas políticas feitas na plataforma, assim como gastos eleitorais e uso ilegal de informação dos usuários.

“Não é questão de direita ou esquerda. De ficar ou sair [sobre o Brexit], de Trump ou não. É questão de se é possível de fato ter de novo eleição justa e livre”, disse ela, citando suspeitas sobre a campanha Vote Leave. “Da forma que está, acho que não. É assim que vocês querem ficar para a história?”, ela perguntou aos “deuses do Vale do Silício”. 

“Como os escravos do autoritarismo que está crescendo no mundo todo? Vocês surgiram para conectar pessoas. E, ao se recusar a nos dar conhecimento sobre essas tecnologias, estão estão nos distanciando um dos outros.”

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