Descrição de chapéu Entrevista da 2ª

Caixa vai avaliar se cliente pode pagar água e luz para dar crédito no Minha Casa

Novo presidente diz que análise não considerava gastos de moradores com imóvel

Mariana Carneiro Julio Wiziack
Brasília

Já sob a influência de seu novo presidente, Pedro Guimarães, 48, a Caixa Econômica Federal registrou em seu balanço perdas de R$ 2,8 bilhões com inadimplência do programa Minha Casa Minha Vida no último trimestre do ano passado.

Segundo ele, o banco tem hoje 70 mil imóveis devolvidos e outros 80 mil com obras suspensas. Operador dos recursos do programa social do governo, Guimarães diz que a avaliação de risco de inadimplência dos tomadores desse crédito não estava considerando os gastos dos moradores com taxas de condomínio e outras contas relacionadas ao imóvel, como água e luz.

“As pessoas que tomaram esse empréstimo tinham condição de pagar? Isso não estava colocado corretamente no risco de crédito”, diz ele, cuja intenção é levar bons pagadores para faixas do Minha Casa Minha Vida mais atrativas de operação para a Caixa.

Em quatro meses, o executivo lançou um cartão de crédito consignado, que deverá atender inicialmente funcionários públicos e aposentados. A meta é chegar a 20 milhões de usuários.

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Pedro Guimarães, 48, é formado em economia pela PUC-RJ, mestre em economia pela FGV e doutor pela Universidade de Rochester (EUA), atuou mais de 20 anos no mercado financeiro. Foi sócio do banco de investimentos Brasil Plural - Andre Coelho/Folhapress

De perfil arrojado, forjado na iniciativa privada, e muito alinhado com o ideário do ministro Paulo Guedes (Economia), Guimarães prepara uma agressiva venda de ativos da Caixa. Ao mesmo tempo, defende o papel do banco como financiador de investimentos públicos e políticas de governo.

No entanto, está mudando a relação com prefeitos e governadores. Em vez de recebê-los em Brasília, Guimarães tem ido até os clientes, com propostas de negócios que tragam resultado para a Caixa. “Somos um banco social e temos de ganhar dinheiro com isso.”

Como é a Caixa que o sr. encontrou?

O que aprendi até aqui é que lotéricas e correspondentes bancários são parte essencial do negócio, mas não geram receita porque as 12 vice-presidências não se falavam. Eram unidades isoladas.

Isso mudou?

Em dois meses lançamos o cartão de crédito consignado. Juntamos vice-presidências, e o produto saiu. O plano é chegar a 20 milhões de cartões em quatro anos. Mas, se a gente não chegar a 10 milhões, será um fracasso. 

Somos um banco social e temos de ganhar dinheiro com isso. Era inaceitável que não tivéssemos foco na linha de crédito pessoal mais barata que não fosse o microcrédito. A pessoa mais carente, que mais precisa, passa a tomar empréstimo a 2,85% ao mês por cinco anos. 

Nas regiões Norte e Nordeste, onde as distâncias são enormes, levando as pessoas a demorar três meses para sacar o Bolsa Família, o cartão vai permitir que não seja necessário ir à agência, pois funcionará como débito e crédito na padaria, na lotérica.

Como pretendem destravar o Minha Casa Minha Vida? 

Provisionamos R$ 2,8 bilhões [em perdas] no último trimestre do ano passado. Temos 70 mil imóveis devolvidos e outros 80 mil estão com obras paradas. O programa é uma política de Estado, a Caixa é um banco de Estado. Só que eu sou o banco do Excel [programa de computador que permite fazer cálculos]. Eu não faço coisa que seja ruim matematicamente para a Caixa.

Mas a Caixa tem perda com a operação do MCMV?

O funding [origem dos recursos] do MCMV é o FGTS. E o custo para a Caixa é de TR mais 6% ao ano. Eu empresto por 30 anos a 12% ao ano. Tem um risco aí. Ele pode até ser menor se o Brasil fizer todas as reformas. Mas sou gestor de um banco com R$ 2,5 trilhões em ativos. Não vou apostar nessa.

Vai faltar dinheiro para o programa?

Na faixa 1, os recursos e o risco são do Tesouro via Orçamento. A Caixa é basicamente o gestor. Quem decide se vai ter dinheiro é o Ministério da Economia, e a operação é definida pelo Ministério do Desenvolvimento Regional. 

A faixa 1,5 é quase como a 1, mas o risco é todo da Caixa. O subsídio do governo é menor para um imóvel praticamente igual ao da faixa 1 [o restante é financiado pela Caixa]. As pessoas que tomaram esse empréstimo tinham condição de pagar? Isso não estava colocado corretamente no risco de crédito.

Por quê?

Essas pessoas muitas vezes vinham de comunidades, não estavam acostumadas a pagar condomínio, água, luz, energia, esgoto, sem falar no transporte. Quando foram para esses imóveis, passaram a pagar. Isso explica 70 mil imóveis devolvidos [elas não tinham dinheiro suficiente paras as duas despesas]. O Minha Casa deveria incluir esses gastos extras no cálculo do risco.

Então a inadimplência da Caixa com o MCMV era muito maior do que se divulgava? 

Quando a Caixa retomava um imóvel [por falta de pagamento], não entrava como perda no balanço porque virava um bem de uso do banco [entrava na fila para leilão]. Essa era minha grande crítica. Isso deveria ter sido precificado. Apliquei a média de deságio dos últimos leilões e daí chegamos a R$ 2,8 bilhões.

O programa vai encolher? 

Não posso emprestar sabendo que não vou receber. A ideia é levar o bom pagador da faixa 1,5 a mudar para a 2. Os imóveis têm valores parecidos [para a Caixa, a parcela do financiamento sobe]. Além disso, só vamos retomar imóveis [por inadimplência] depois de seis meses. Antes, com 59 dias, o banco já tomava, e esse custo é alto.

Tem relação com o congelamento dos gastos do governo?

Quando há contingenciamento, a gente não consegue emprestar. Essa regra vale para as faixas 1,5, 2 e 3. Em novembro, [o governo] já não estava pagando ao MCMV. 

O governo avalia tirar da Caixa a exclusividade sobre o FGTS, entregando a gestão a bancos privados. Isso afeta a Caixa?

Uma coisa é fazer empréstimo pelo SBPE [para a classe média]. Outra é para o pessoal sofrido. Um banco privado não aguenta a primeira porrada, não é trivial. Nas regiões mais carentes, só tem Caixa. Se esses bancos forem para os 16 estados do Norte e Nordeste, vão pedir para a Caixa fazer a avaliação [de acompanhamento da obra].

Mas a Caixa tem receita por isso.

A remuneração [por ser gestor do FGTS] foi de R$ 5 bilhões em 2018, mas perdi quase R$ 3 bilhões [com inadimplência]. Fora que tenho que manter 4.000 engenheiros trabalhando. Aí fico com Norte, Nordeste e Centro-Oeste, e a concorrência, com o filé mignon? 

Quero ver quem vai ficar com o osso, porque ele vai acabar na Caixa. Essa é minha briga. Como ganho dinheiro se toda a margem fica com o outro? O que posso dizer é que há uma atenção do governo. A Caixa é agente operador e gestor [do FGTS]. A receita que recebe como gestor utiliza para reduzir perdas.

O governo espera que a Caixa devolva recursos que foram injetados no banco no passado. Quanto vai devolver neste ano? 

Depende de quanto eu consiga vender [em ativos]. Tem duas negociações, na área de cartões e seguridade, que geram resultado extraordinário. Se elas saírem, em até dois anos dá para devolver R$ 40 bilhões. Há outras maneiras que a gente pode discutir com o governo. Vamos tentar maximizar a qualidade do nosso balanço de várias maneiras, entrando no mercado de adquirentes [máquinas de cartão], por exemplo. Estimo que a gente deixe de ganhar R$ 1 bilhão por ano porque não temos operação nessa área.

O sr. foi criticado por parlamentares no início do ano por manter distância da classe política. 

No começo ninguém se conhecia. Até sentar para conversar, demora. De terça a quinta, converso com políticos a tarde inteira. Retomamos a compra de folha de pagamentos de estados e municípios, que é uma excelente receita e estava havia três anos parada. São operações que fazem sentido. Não é como antes [com viés político]. A Caixa é um banco de Estado, o maior cliente é o governo. A gente tem uma grande rentabilidade com esse relacionamento.

Pretende emprestar aos estados em dificuldade?

Com garantia do Tesouro, tranquilo. Torço para que outros bancos entrem, e vejo o interesse de outros bancos, estrangeiros. Não é uma coisa que a gente vá disputar. É diferente em outras linhas.

Quais? 

O projeto de iluminação pública é um exemplo, funciona como espécie de consignado. A conta do município passa pela Caixa, o banco retém e cria uma garantia. Já temos 58 projetos de iluminação e 5 de saneamento. 

O maior problema das prefeituras menores é que não sabem o que fazer. Então, chegamos lá, montamos o projeto e depois financiamos. Consigo fazer empréstimos que o banco privado não consegue. E não estamos disputando as grandes prefeituras. O grandão é legal, mas esqueça os 500 maiores municípios. Os outros 5.000 são 20% do PIB, e a gente já está lá.

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