Bolsas mundiais amenizam queda após ameaça de Trump

No Brasil, Ibovespa cai 1% e dólar volta a R$ 3,96

Marina Dias Júlia Moura
Washington e São Paulo

A ameaça de Donald Trump de aumentar tarifas sobre produtos chineses causou forte queda nos mercados globais, que, durante o dia, amenizaram a reação negativa ao absorver a análise de que o anúncio era apenas uma estratégia dos EUA para acelerar o acordo com Pequim. 

No domingo (5), Trump surpreendeu investidores ao revelar que pretende aumentar de 10% para 25% as tarifas sobre US$ 200 bilhões  R$ 788 bilhões) em produtos chineses a partir de sexta-feira (10).

A declaração, feita em uma rede social, aconteceu às vésperas da chegada da delegação chinesa aos EUA para tentar colocar fim à guerra comercial entre os dois países.

Segundo Trump, os US$ 325 bilhões de outros bens que não são taxados passarão a ter a mesma alíquota de 25%.

O impacto da retórica americana na abertura do mercado foi bastante negativo nesta segunda (6). As Bolsas da China e da Europa despencaram. O índice CSI300, que reúne as maiores companhias listadas em Xangai e Shenzhen, caiu quase 6% — maior perda desde 2016

Já o S&P 500, que reúne gigantes americanas, recuou 1,6% durante o pregão, mas suavizou a queda e fechou em 0,45%. No Brasil, a Bolsa caiu 1%, e o dólar foi a R$ 3,96.

A ameaça veio após uma visita de conselheiros de Trump a Pequim. Eles veem como recuo a recusa dos chineses em assumir no texto do acordo o compromisso de mudar suas leis. Robert Lighthizer, representante comercial dos EUA, disse a jornalistas que houve “erosão dos comprometimentos” por parte da China.

Ao longo do dia, analistas passaram a consolidar a avaliação de que Trump tem pressa para fechar o acordo e decidiu criar um fato político.

A tese de que o presidente dos EUA não quer jogar no lixo o acordo comercial foi reforçada com a confirmação do governo de Xi Jinping de que uma delegação chinesa se prepara para chegar a Washington nesta quarta (8).

Quem acompanha a guerra comercial diz que as tratativas estavam mornas desde março —após o fim da trégua de 90 dias em relação às tarifas— e que, diante da falta de iniciativa chinesa, que não tem interesse em fechar um acordo tão rápido, Trump precisou criar um senso de urgência na negociação com Pequim.

O raciocínio do americano é simples: o câmbio chinês só pode variar 2% por dia e, por isso, um aumento de mais 15 pontos percentuais na alíquota poderia ser uma barreira difícil para Pequim transpor em tão pouco tempo.

 Segundo especialistas, um acordo deve sair em breve, mas dificilmente até esta sexta-feira. Como o deadline imposto pelos EUA é muito curto —até o fim desta semana—, o que deve acontecer é um aumento temporário das tarifas.

“É provável que tenhamos um aumento no curto prazo. Isso não é o fim do jogo, é uma estratégia de negociação, mas, ao adotar essa posição [de ameaça], o risco aumenta”, diz Christopher Garman, da consultoria Eurasia.

Os riscos, no entanto, não envolveriam os pontos cruciais do acordo.

“Os principais pontos estariam mantidos: respeito à propriedade intelectual, baixar as tarifas, lista negativa de investimentos na China —para empresas americanas atuarem em solo chinês. Por outro lado, os EUA também vêm fechando o cerco contra investimentos chineses no país. Pode ser algo que os chineses queiram negociar em contrapartida”, afirma André Soares, do Atlantic Council.

Para Roberto Prado, economista do Itaú Unibanco, caso se concretize, o aumento de tarifas pode representar uma queda de 0,4% no crescimento da economia global, com desaceleração do crescimento.

“Estas tarifas diminuíram em 0,5% o PIB (Produto Interno Bruto) chinês, que hoje projetamos em 6,3% para 2019. Nos EUA, a medida afetaria 0,25% do PIB, que projetamos em 2,6%”

O economista, no entanto, não acredita que a promessa do presidente se concretize.

“Este aumento de tarifas poderia trazer uma recessão antes da eleição, o que afeta a popularidade do presidente, diminuindo sua chance de reeleição. É menos provável que ele queira arriscar isso”, afirma.

O Itaú Unibanco trabalha, inclusive, com a premissa oposta. “Temos a expectativa de que o governo americano vai retirar os 10% de tarifas sobre os US$ 200 bilhões em produtos, o que seria benéfico para os dois países. China também deve reduzir tarifas e importaria mais bens americanos”, diz Prado.

Em relação ao impacto sobre os produtos do Brasil, é consenso entre os analistas que o setor agrícola, com soja, milho e trigo, é o que deve ser observado com mais atenção. Enquanto as tarifas estiverem altas, o apetite da China para comprar dos EUA é cada vez menor, o que beneficia o exportador brasileiro.

Por outro lado, os chineses devem usar esses bens como moeda de troca para conseguir mais vantagens com os americanos e, com o acordo, o Brasil poderia perder mercado para Washington.

“A guerra comercial com a China uma disputa que afeta a economia global como um todo. Isso chega no Brasil por duas maneiras: o mundo vai crescer menos e comprar menos commodities e o mercado financeiro vai ter menos fluxo para emergentes, com maior aversão ao risco”, afirma Thales Caramella, economista do Itaú Unibanco.

Segundo Caramella, caso a promessa de Trump se concretize, o Brasil teria uma queda no crescimento semelhante à da economia global, em torno de 0,4% no PIB de 2019.

“Estas tarifas podem beneficiar um ou outro produto, como a soja. Mas, no cenário geral, é ruim para o país, por fluxo de capitais, queda de exportação de minérios e desaceleração econômica tem efeitos muito maiores que possíveis setores beneficiados”, diz o economista.

Além da volatilidade externa, o novo Relatório Focus trouxe mais uma revisão para baixo do PIB. O levantamento semanal apontou que a estimativa de crescimento do PIB em 2019 passou a 1,49%, de 1,70% no levantamento anterior, na décima semana seguida de piora da projeção.

Em abril, o Itaú Unibanco previa crescimento de 1,3%. Nesta sexta (10), a instituição deve anunciar uma revisão para baixo, de acordo com a tendência do mercado.

“A nossa expectativa é de reaceleração da economia doméstica com reforma da Previdência e queda na taxa de juros no segundo semestre. Esperamos que 50 a 65% da proposta original do governo, de R$ 1,2 trilhão, seja aprovada, gerando uma economia de R$ 670 e 990 bilhões”, afirma Prado.

O banco ainda espera três cortes na Selic neste ano, terminando 2019 em 5,75%. Hoje a taxa é de 6,5%.

Para Tales, o alto patamar do Ibovespa -- acima dos 93 mil pontos -- é sustentado pela confiança na aprovação da reforma da Previdência. “A Bolsa ainda precifica a reforma. Este valor conta uma reforma passando neste ano, apesar das más notícias sobre a economia brasileira. O mercado em geral antecipa uma aprovação”

Se reforma não for aprovada conforme o previsto, o economista afirma que o câmbio pode ter alteração de até 10%, o que levaria o dólar acima dos R$ 4,30.  

Nesta terça (7) está previsto o início das discussões sobre a reforma da Previdência na comissão especial da Câmara dos Deputados, que deve ditar as oscilações do mercado no mês de maio.

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