Secretário Carlos da Costa se firma como o criador de polêmicas

Viagens rotineiras a São Paulo, aproximações arrojadas no Congresso e pedidos curiosos a colegas geram confusões

Julio Wiziack
Brasília

 O economista Carlos da Costa, 48, é o secretário especial de Produtividade, Emprego e Competitividade (Sepec), mas  seus cinco assistentes —também secretários— o chamam de “ministro”.

Há cinco meses no cargo, ele passa mais tempo em São Paulo do que no seu gabinete em Brasília e, nesse período, suas atitudes criaram confusões e desafetos.

Em abril, durante uma viagem de Guedes ao exterior, Carlos tentou fazer com que Marcelo Guaranys, secretário-executivo que substituiu o ministro interinamente, cancelasse o resultado de um leilão ocorrido ano passado e que definiu uma empresa gestora para o Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA).

Famoso pelas pesquisas relacionadas à biodiversidade da Amazônia, o centro fica na Zona Franca de Manaus, que está sob o guarda-chuva da Sepec.

Quem participou das discussões afirma que o secretário explicou ao ministério que a vencedora era uma associação de “petistas”. A Abio é uma associação de universidades e centros de pesquisa.

Retrato do economista Carlos da Costa enquanto conversa com a reportagem
O economista Carlos da Costa, secretário especial de Produtividade, Emprego e Competitividade do Ministério da Economia - Karime Xavier/Folhapress

Quando a assessoria jurídica do ministério percebeu o que estava ocorrendo, alertou Guaranys, que só estendeu o prazo para a homologação do leilão até a volta de Guedes. Só um ministro tem poderes para o cancelamento.

O edital era uma recomendação do Tribunal de Contas da União (TCU) como forma de evitar desvios de recursos públicos com pesquisas pelo CBA.

Sem gestor próprio, o centro continuará a cargo da Superintendência da Zona Franca de Manaus, hoje comandada pelo coronel da reserva Alfredo Menezes, ligado a Jair Bolsonaro.

O centro conta com cerca de R$ 10 milhões do Orçamento e, partir de agora, fará pesquisas com o intuito de que “virem produtos a serem vendidos”.

O secretário também causou irritação entre as entidades do Sistema S, com quem o secretário-adjunto, Igor Calvet, vem negociando mudanças na forma de gestão dos recursos.

As conversas vinham caminhando bem até que, em busca de mais protagonismo no Congresso, Carlos da Costa decidiu pedir ajuda para o ex-senador Ataídes de Oliveira, autor do livro chamado “A Caixa-preta do Sistema S”.

Dirigentes das entidades viram na aproximação com o ex-senador uma nova provocação e ameaçaram sair da mesa de negociação. A reunião ocorrida em São Paulo na última quinta-feira (23) foi tensa, segundo relatos dos participantes.

Para melhorar seu trânsito no Congresso, o secretário armou reuniões com oito associações de  setores produtivos na capital paulista, na última sexta-feira (24).

A ideia era sair de lá com um manifesto assinado por elas em defesa da reforma da Previdência e que Carlos da Costa pudesse levá-lo para as lideranças no Congresso.

A mobilização em torno desse assunto não foi combinada com a Secretaria Especial de Previdência. O almoço em São Paulo teve até convocação de imprensa, mas pela assessoria das entidades e não pelo ministério.

Nesta semana, houve outro episódio envolvendo o gabinete de Guedes. Um dos colaboradores da Sepec postou em uma rede social ter sido contratado para fazer parte da assessoria parlamentar do ministério.

Na verdade, o funcionário foi cedido para a Sepec, o que levantou a suspeita de que Carlos da Costa estivesse, informalmente, usando servidores para fazer lobby de sua secretaria no Congresso. O funcionário foi desligado.

Carlos também é alvo de questionamentos por passar a maior parte do tempo em Brasília, onde dá expediente do final de segunda até quarta-feira no gabinete da Presidência, no prédio do Banco do Brasil.

Para isso, usa a estrutura da Presidência, incluindo carro, secretária, e uma assessora de Brasília que tem de voar toda semana para a capital paulista.

O resultado é que o secretário estourou sua cota de passagens de cerca de R$ 65 mil, metade gasta com bilhetes para São Paulo. Os custos do gabinete são cobrados pelo Banco do Brasil e não constam no Orçamento da Sepec. Quem paga é o Ministério da Economia.

Recentemente, o secretário faria parte da comitiva do Brasil para um evento da OCDE na Austrália. Para isso, exigiu um voo com escala de doze horas em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. A passagem custaria cerca de R$ 50 mil. Os demais funcionários iriam pelo Chile por R$ 30 mil cada. O pedido do secretário foi negado e ele cancelou a viagem.

Outro lado

O secretário Carlos da Costa afirmou à Folha que considera os casos relatados pela reportagem como “esperados” diante “da resistência de determinados setores e de pessoas até dentro do governo às mudanças que o governo e sua secretaria estão implementando”.

Carlos confirmou ter gasto R$ 65 mil com passagens para São Paulo, mas negou ter estourado sua cota. Justificou passar mais tempo na capital paulista pelo fato de abrir “canal oficial de diálogo com o setor produtivo”, em função de “São Paulo ser o centro financeiro e empresarial do país”.

“As agendas em São Paulo são parte de uma estratégia maior, baseada na política do governo, fortemente divulgada durante a campanha, de ‘menos Brasília e Mais Brasil’.”, disse.

O secretário disse que a viagem para Dubai seria paga com recursos da ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial) graças a uma acordo de parceria com o órgão. Nas viagens acima de 12 horas, a ABDI concede assento na classe executiva. O secretário confirmou o cancelamento da viagem.

“O bilhete não chegou a ser emitido. Seria uma viagem de três dias, com apenas um compromisso, e comprometeria outras agendas no Brasil”, disse.

No que se refere ao Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA), o secretário informou que optou pelo cancelamento do edital porque, de acordo com a nova política de governo, prefere incluí-lo na própria Zona Franca de Manaus. A ideia, segundo ele, é que o centro, a partir de agora, ajude empresas a se instalarem na região para desenvolverem pesquisas nessa área usufruindo dos incentivos fiscais.

O secretário negou ter defendido o cancelamento do edital porque os vencedores eram petistas. “Isso nunca existiu”, disse.

Carlos da Costa disse que sua defesa na reforma da Previdência junto ao empresariado é uma estratégia combinada com a Secretaria de Previdência.

“Havia, inclusive, uma representante do secretário [Rogério Marinho] no evento com 49 entidades em São Paulo”, disse.

O funcionário que atuava como assessor parlamentar da Sepec tinha sido cedido pela ABDI que, ainda segundo o secretário, decidiu desligá-lo.

Sobre a colaboração do ex-senador Ataídes de Oliveira, Carlos da Costa disse considerá-lo um “estudioso do Sistema S, principalmente no que se refere ao gasto orçamentário”.

“Ele foi recebido três vezes para discussão de temas relacionados às entidades. Trata-se, no entanto, de uma colaboração eventual.”

 
Erramos: o texto foi alterado

O secretário especial de Produtividade, Emprego e Competitividade dá expediente em Brasília, e não em São Paulo, do final da segunda até a quarta-feira.

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