Na crise, qualificado vira autônomo e tira espaço do menos escolarizado

Mudança pode fazer negócios durarem mais, mas torna desempregado quem estudou pouco

Érica Fraga Anaïs Fernandes
São Paulo

A crise funcionou como um empurrão para que Fernanda Sanino, 34, e sua sócia pedissem demissão do trabalho em uma multinacional para abrir uma oficina de marcenaria e tapeçaria em 2014.

"A recessão nos deu coragem porque o mercado já estava ruim e corríamos risco de demissão", diz Fernanda.

Em 2019, a Lumberjills, empresa de Fernanda em sociedade com Letícia Piagentini, fez quatro anos e, apesar da situação econômica difícil, vai bem.

A babá Kelly Cristina da Silva, 46, também abriu seu próprio negócio, em 2016. Encorajada pelos elogios às suas papinhas para bebês e pela oferta de sociedade com sua patroa, resolveu investir no ramo.

A empresa durou um ano. Quando a sócia saiu, a dificuldade de levantar capital e de se adequar às burocracias tiraram Kelly desse mercado.

Com apenas o ensino fundamental, ela continuou a trabalhar como babá, mas ficou desempregada recentemente.

As trajetórias de Fernanda e Kelly ilustram nuances das histórias por trás dos dados de aumento do trabalho por conta própria nos últimos anos.

Retrato de Fernanda Sanino
Fernanda Sanino, 34, decidiu abandonar o emprego formal e empreender - Zanone Fraissat/Folhapress

Antes minoria no mercado autônomo, profissionais mais qualificados, com ensino médio ou superior, como Fernanda, representam, hoje, mais da metade dos conta própria. 

Em paralelo, os trabalhadores pouco escolarizados perderam espaço em um nicho que já foi seu principal refúgio. 

"O mercado conta própria cresceu, mas não de forma equilibrada entre os diferentes perfis de trabalhadores", diz o economista Sergio Firpo. 

Um levantamento inédito feito por Firpo e pelo pesquisador Alysson Portella, ambos do Insper, a pedido da Folha revela que, no primeiro trimestre de 2012, os trabalhadores com ensino fundamental completo ou incompleto representavam 64,1% da categoria conta própria. Sete anos depois, essa fatia recuou para 46,8%.

No mesmo período, a participação dos profissionais com ensino superior no mundo autônomo quase dobrou, de 9,6% para 17,7%. A fatia dos trabalhadores com ensino médio na categoria também cresceu, de 26,3% para 35,6%. 

Somados, brasileiros com nível médio ou diploma universitário já representam mais de 5 em cada 10 conta própria.

A invasão dos profissionais qualificados fez a escolaridade do grupo disparar. No início de 2012, a categoria tinha, em média, 7,73 anos de estudo, perdendo até para os 8,19 anos daqueles sem registro.

No primeiro trimestre deste ano, a escolaridade média dos conta própria atingiu 9,48 anos, superior aos 9,23 anos dos sem carteira.

"Foi um aumento muito significativo de escolaridade para um período de sete anos", diz o economista Fernando Veloso, do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia).

O salto de quase dois anos na escolaridade dos conta própria foi o dobro do registrado pela população de 14 anos ou mais, que passou de 8,35 para 9,26 anos no mesmo período.

Os dados mostram que profissionais qualificados compensaram a diminuição do emprego formal migrando para o mercado autônomo.

No início de 2012, a fatia de trabalhadores com diploma universitário contratados com carteira assinada era 43%, mais do que o triplo dos 12,6% que atuavam por conta própria.

No primeiro trimestre de 2019, essa relação caiu para pouco mais que o dobro, com 37,3% dos profissionais com ensino superior trabalhando com carteira assinada, e 17%, como autônomos. Entre trabalhadores com ensino médio, o movimento foi parecido.

Segundo especialistas, três fatores principais podem explicar a mudança de trabalhadores mais escolarizados para a categoria conta própria.

O primeiro é o chamado empreendedorismo por necessidade, em meio à severa crise que afeta o Brasil desde 2014.

"Muitos profissionais qualificados perderam seus empregos no mercado formal e buscaram refúgio na prestação de serviços", afirma Firpo.

Foi o caso de Tiago Henrique da Silva, 37. Com diploma de ensino médio e vários cursos de especialização, ele era gerente financeiro de uma importadora e foi demitido quando estourou a recessão.

Tiago decidiu transformar seu plano B --a venda de jogos eletrônicos que ele fazia pela internet-- em ocupação principal. "Abri uma loja física e fui mudando de endereço até ir parar num shopping novo que não cumpriu nada do que havia me falado quando fechamos. Depois de pouco tempo, quebrei", conta.

Seu trabalho seguinte como corretor de imóveis autônomo o acabou levando a empreender novamente.

"As campanhas que as agências faziam dos imóveis eram muito ruins. Comecei a fazer várias delas eu mesmo e descobri que gostava disso", diz ele, que tem, hoje, com um sócio a agência Mistério Digital.

Retrato de Tiago Henrique da Silva
Tiago Henrique da Silva, 37, foi demitido durante a crise e resolveu empreender - Karime Xavier/Folhapress

A pejotização --situação em que o profissional é subordinado à empresa, mas recebe como autônomo-- é outra possível causa da maior escolarização entre os conta própria.

"A demora do Brasil em adaptar a legislação trabalhista às novas realidades do mercado levou a um aumento da pejotização no país", diz a economista Fernanda Estevan, da FGV-EESP (Escola de Economia de São Paulo).

Existe uma terceira transformação em curso no país. Trata-se da tendência, principalmente entre os mais jovens, de querer empreender, como aconteceu com Fernanda: "Queríamos trabalhar num lugar que tivesse os mesmos valores que os nossos", diz.

A alta qualificação das duas sócias --juntas, elas falam quatro idiomas estrangeiros-- lhes permite buscar referências e tendências em sites e feiras internacionais.

A mudança de perfil dos brasileiros conta própria --que eram 23% da população ocupada há sete anos e, hoje, são 26%-- pode ter um efeito positivo para a economia. 

"O empreendedorismo pode ser positivo para a produtividade", diz Veloso.

Mais escolarizados, os conta própria talvez consigam elevar o tempo de sobrevivência das empresas brasileiras e criar negócios inovadores.

Mas, para Veloso, ainda é cedo para fazer esse diagnóstico. Só em 2015 o IBGE começou a diferenciar os conta própria que atuam formalmente daqueles sem registro. Desde então, a fatia da categoria na informalidade caiu pouco e permanece perto de 80% do total.

Mas a escolaridade média desse grupo também teve um salto significativo no período, de 7,9 para 8,9 anos de estudo. Isso pode contribuir para sua maior formalização no futuro, se a economia engatar uma recuperação mais vigorosa.

Em um contexto melhor, também é possível que os conta própria mais qualificados se tornem empregadores de parte dos que ficaram desempregados na crise, incluindo os menos qualificados que perderam espaço como autônomo.

O perfil de maior escolarização dos empreendedores, somado a outras vantagens advindas de sua situação socioeconômica, pode ter gerado um movimento pelo qual os mais qualificados deslocaram os pouco escolarizados do universo por conta própria.

"Essas pessoas podem ter mais capacidade de organizar uma pequena empresa, lidar com burocracias", diz o sociólogo Simon Schwartzman, presidente do Iets (Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade). "Isso acaba deslocando do mercado quem não tem essa educação", afirma. 

Firpo ressalta que uma rede de contatos mais ampla entre potenciais clientes de maior renda e o acesso a capital também representam uma vantagem significativa dos conta própria mais qualificados. 

Foi o que Kelly percebeu. "Minha patroa tinha muitos conhecidos, divulgava a empresa de papinhas entre as amigas. Mas ela tinha o trabalho dela, ficou difícil conciliar. Para eu continuar, faltou capital", diz.

Retrato de Kelly Cristina da Silva
Kelly Cristina da Silva, 46, é babá e chegou a montar um negócio de papinhas de bebê - Karime Xavier/Folhapress

Com dificuldade em atuar como autônomo e sem espaço no mercado formal e até no informal (sem carteira), trabalhadores com ensino fundamental se deslocaram para o desemprego e, no caso principalmente dos mais jovens, para a inatividade.

"Tentei muito encontrar trabalho. As poucas entrevistas que consegui foram uma enganação. Chegava lá com minha mãe e descobria que queriam vender cursos. Aí, desisti", diz Josiele da Paixão Souza, 16.

A jovem veio da Bahia com a mãe e duas irmãs há pouco mais de um ano. Chegou a trabalhar por um curto período, sem carteira, numa loja pequena, que fechou. 

Como a mãe e a irmã de 15 anos conseguiram emprego, ela acabou assumindo os cuidados da outra irmã, de 11 anos, enquanto estuda à noite. "É difícil porque querem gente com experiência", diz Josiele.

Retrato de Josiele da Paixão Souza
Josiele da Paixão Souza, 16, desistiu de procurar emprego - Karime Xavier/Folhapress

A economista Fernanda Estevan diz que, na crise, profissionais mais velhos que ficam desempregados passam a aceitar remuneração menor.

"Para o empregador, faz mais sentido contratar essa mão de obra mais experiente e produtiva do que os jovens."

Maria Andreia Parente Lameiras, do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), destaca que o desemprego de longo prazo (acima de dois anos) cresce muito entre os jovens. "Isso pode significar que eles talvez nunca tenham chegado a ter um emprego."

O levantamento de Firpo e Portella indica que os jovens com dificuldade de inserção no mercado podem ser os principais responsáveis pelo aumento do desalento. A palavra descreve a situação de pessoas que, como Josiele, gostariam de trabalhar, mas desistem de buscar uma vaga, saindo da força de trabalho e da estatística do desemprego.

Entre o início de 2012 e o de 2019, o percentual de jovens de 14 a 17 anos na inatividade saltou de 74,8% para 82,6% do total. Uma ressalva é que a tendência já era notada antes da crise, podendo refletir a decisão de parcela desses adolescentes de apenas estudar.

O problema maior para jovens é seguir enfrentando dificuldade em se colocar no mercado depois de formados. "Todo um conhecimento fresco na cabeça se perde. E, quanto mais tempo fica sem experiência, mais difícil é entrar no mercado", diz Lameiras.

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