Descrição de chapéu Entrevista da 2ª

Eike Batista diz que apostou na abertura de mercado no pré-sal, não na mamata com empreiteiros

Ex-homem mais rico do Brasil atribui a derrocada de seus negócios à antipatia que provocou no governo por ser um grande capitalista

Anna Virginia Balloussier
Rio de Janeiro

“Eike vai estar no Empreende Brazil hoje, vai palestrar sobre como ser um grande empresário sonegador?” O próprio Eike Batista, de volta ao Twitter desde junho, após uma pausa de um ano e meio, reproduziu no sábado (6) essa mensagem de uma mulher e a respondeu com letras em caixa alta, como é sua praxe na rede social:

“BOBINHA, PAGUEI O MAIOR IMPOSTO JAMAIS PAGO POR UMA PESSOA FÍSICA! 2 BILHÕES DE REAIS EM 2008!! E AGORA, DONZELA?”

E agora, Eike? “Não sou esse peixe que quer se misturar nas águas turvas da Lava Jato, os empreiteiros”, diz à Folha.

“Eu apostei num governo que não teria problema de abrir mão da riqueza do pré-sal para o setor privado. Que as encomendas que viriam para o meu estaleiro lá no Açu, viriam porque seria um mercado aberto.
Ganharia quem fosse o mais eficiente. Não nessa mamata que foi criada com os empreiteiros. Eu não tenho nada a ver com isso.”

Eike no Empreende Brazil Conference, em Florianópolis
Eike no Empreende Brazil Conference, em Florianópolis - Fabricio de Almeida /Divulgação

Apesar dos argumentos, o empresário, que já foi o homem mais rico do Brasil e o sétimo do mundo, ficou detido por três meses em 2017, num desdobramento da Lava Jato, e se vê às voltas com uma condenação a 30 anos de prisão, acusado de pagar propina para o ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral —recorre dela em liberdade. 

O sr. está trabalhando como consultor para novos empreendedores? Tenho um método 360 graus de empreender. Ele analisa várias disciplinas que um empreendedor tem que dominar ou ele vai falhar. Por exemplo, eu falhei no passado recente, na área de engenharia de pessoas. Meu sistema não foi capaz de identificar desonestidade e falta de caráter —o que é difícil. Não tenho bola de cristal para ver isso.

É a isso que o sr. associa a sua prisão?  À falta de uma bola de cristal para identificar maus elementos? Isso é você que está falando.
 
O sr. diz que falhou no passado recente. Falei dos resultados das empresas. Realmente, se você tem um grupo de pessoas que não te comunica de fato o que está acontecendo, é aquela velha história: o que entra de informação de um grupo técnico trabalhando numa área específica vai para o conselho [de administração, responsável por traçar e avaliar planos de longo prazo]e pra mim. E você toma decisão em cima daquilo. Essa informação tem que ser transparente, honesta. É realmente um desvio das pessoas. 
 
Como avalia o governo Jair Bolsonaro? Olha, sempre disse isso e ninguém nunca prestou atenção, nem vocês da mídia. A minha família, eu também sempre fomos apolítico. Enxergo o Brasil com um potencial extraordinário. Mesmo no petróleo. Eu sempre falei do petróleo. Tem hoje uma Arábia Saudita no pré-sal. O Brasil que eu sempre apoiei foi um Brasil que deu certo.

O sr. falou agora há pouco que ficou parado nos últimos três, quatro anos porque estava acertando contas com o passado. Na verdade, o sr. estava preso até 2017. Em relação à condenação, só para ficar claro: o Sérgio Cabral, réu confesso, admitiu —e está gravado isso— que com Eike Batista nunca teve toma lá dá cá. Então, me ressinto com a mídia em geral, porque vocês não estressam isso. É essencial.

 Achou a condenação injusta? Não cabe a mim dizer. Sou um cidadão que tem que obedecer às regras do jogo. Acredito que existe inteligência na magistratura. Instâncias superiores vão fazer justiça. 
 
O sr. se disse fã da Lava Jato e foi preso por ela. Continua fã? Absolutamente.
 
O que achou das acusações de que o ex-juiz Sergio Moro foi parcial? Não cabe a mim comentar. Só quero te dizer: existe um brasileiro que aceita corrupção? Ninguém aceita. Você não, eu não. 
 
O sr. já teve uma fortuna avaliada em US$ 30 bilhões. Revela o patrimônio atual? Meu patrimônio está aqui na minha cabeça. É o suficiente. Acharia muito bom se a mídia pegasse exatamente isso que eu falei. 

Vamos lá. As 30 empresas estrangeiras que eu trouxe para o Brasil, que estão instaladas lá no porto do Açu [que ele lançou em 2006], vinham dizer: será que você podia me levar no governador? Claro. Vou lá no governador e tiro foto com ele, e o cara quer tirar foto comigo. 

E ó... jogue a primeira pedra quem não achava que o Cabral, em 2010, 2011, 2012 —sei lá, até os problemas aparecerem— não pudesse ser um candidato à Presidência? Quem imaginava que existia essa história por trás? Nunca prestei serviço para o governo. De onde inventaram essa loucura?

O que posso dizer muito claramente: em 2008, no leilão do pré-sal, o governo da época —e não me interessa o governo que foi [Luiz Inácio Lula da Silva era presidente], não cabe a mim dizer se é de esquerda— decidiu tirar o pré-sal da minha empresa. No fundo, não éramos considerados um grupo empresarial amigo daquele governo. “Ó, esse aqui é um capitalista.”
 
Já vi que não arrancarei se o sr. nutre simpatia ou antipatia pelo governo atual. Sou apolítico. Para ser sincero, nas últimas eleições eu não votei.
 
Mas como avalia as pautas econômicas? Que façam a reforma da Previdência, em seguida a tributária. Vai ser bom para todos nós. Posso lhe dizer, ao mesmo tempo, que meus projetos independem dessa realidade. Meus projetos sempre foram blindados a tudo isso.
 
Mas alguns deles quebraram. Eu apostei num governo que não teria problema de abrir mão da riqueza do pré-sal para o setor privado. Que as encomendas que viriam para o meu estaleiro lá no Açu, viriam porque seria um mercado aberto. Ganharia quem fosse o mais eficiente. Não nessa mamata que foi criada com os empreiteiros. Eu não tenho nada a ver com isso. 

Sou alguém do setor privado, grande, que incomodou. Infelizmente, você tem que deixar o tempo passar. Não sou esse peixe que quer se misturar nas águas turvas de Lava Jato, os empreiteiros.
É muito ingrato o que a mídia me fez em geral. Não fechei nenhuma empresa. Tem mais de 20 mil funcionários trabalhando nos meus projetos. Preferi abrir mão do meu patrimônio.

O sr. está de volta ao Twitter e sempre usa o capslock. Por quê? Meu pai, com certa idade, tinha dificuldade de ler a letra pequena. Me habituei a me comunicar com ele em caixa alta e nunca mais saí. 

O sr. diz que está em busca de unicórnios, novos negócios que dão certo. Quais são? Estou me dedicando àquelas áreas em que sempre tive sucesso, nunca falhei, que é na área da mineração.
 
Algum projeto específico? Minério de ouro, de ferro, de fertilizantes. Áreas nas quais o Brasil é muito rico e diferenciado em relação a outros países do mundo. Estou voltando nessa área em peso. 

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