Descrição de chapéu Financial Times Brexit

A morte dos pubs britânicos foi muito exagerada

O desaparecimento dos pubs refletiu diversos fatores, entre eles a mudança de gostos dos jovens

Financial Times

Para muita gente, o acordo de 4,6 bilhões de libras (cerca de R$ 23 bilhões) do bilionário Victor Li, de Hong Kong, pela aquisição do maior grupo de cervejarias e bares do Reino Unido, o Greene King, foi chocante.

Em todo o país, um em cada quatro bares fecharam na última década. Superficialmente, parece um mau momento para se expor à indústria hoteleira britânica: restaurantes casuais, como o italiano Jamie, foram obrigados a reduzir custos e fechar filiais, enquanto um possível brexit sem acordo no final de outubro poderá afetar o poder aquisitivo dos potenciais clientes.

Para outros, não foi nenhuma surpresa. Ao contrário: Li foi apenas o último de uma longa fila de investidores a perceber que há pechinchas disponíveis no Reino Unido do brexit.

A compra do grupo por Li se segue à venda da fabricante de chips Arm Holdings para o SoftBank, uma proposta pela fabricante de satélites Inmarsat por um consórcio liderado por private equity e a compra da Merlin Entertainments pela Blackstone.

De modo geral, o preço das ações da Greene King tinha caído 37% desde o referendo da União Europeia em 2016, combinado com uma queda de cerca de 15% da libra esterlina em relação ao dólar de Hong Kong.

Embora o preço possa ter influído, a verdade é que a morte do pub britânico foi enormemente exagerada. Li está apostando que os que sobreviverem ao fechamento irão prosperar. A família Li, que também é proprietária da Northumbrian Water, da Wales & West Utilities e da sede do UBS em Londres, tende a se concentrar em investimentos em infraestrutura com base em ativos e fluxos de caixa previsíveis.

Os pubs, como sugere o negócio, poderão ter um papel similar ao das empresas de água com uma carteira de imóveis em todo o Reino Unido e receitas previsíveis de consumidores regulares.

O desaparecimento dos pubs refletiu diversos fatores. Entre eles, a mudança de gostos de uma geração mais jovem de bebedores. As bebidas alcoólicas hoje têm de competir com uma grande variedade de distrações.

Bebedores jovens e preocupados com a saúde também estão considerando a abstinência, recorrendo a cervejas e drinques não-alcoólicos. Alguns proprietários de bares dizem que a proibição de fumar nos pubs em 2007, apenas um ano antes da crise financeira, afugentou os clientes, ao mesmo tempo em que aumentou o apelo de comprar bebidas alcoólicas em supermercados para beber em casa —uma opção mais barata.

Além disso, muitos pubs têm de enfrentar a pressão das altas taxas de impostos, uma praga nas ruas comerciais, e a taxa da cerveja. Este imposto sobre a cerveja tornou impossível para muitos estabelecimentos competir com os supermercados. No início deste mês, o executivo-chefe da Marston's, uma das maiores cervejarias do Reino Unido, pediu ao primeiro-ministro Boris Johnson que reduza o imposto.

Enquanto o número de bares diminuiu, porém, os que permanecem estão se saindo melhor que nunca. De acordo com o Departamento Nacional de Estatísticas do Reino Unido, a receita por local aumentou 13% entre 2008 e 2016.

Os proprietários zelosos melhoraram a oferta de alimentos e se concentraram em pontos turísticos para aumentar os gastos. O pub médio cresceu em tamanho e contratou mais funcionários. Houve muito poucos fechamentos em todas as áreas turísticas, como as Highlands escocesas ou em resorts à beira-mar, como Blackpool e Scarborough.

Os bares britânicos sempre se adaptaram, e estão fazendo isso de novo. A maior esperança é oferecida pelos que se dispuseram a inovar. Os "loungers", um híbrido de "restaurante, pub britânico e cultura de café", enfrentaram a crise nas ruas comerciais com suas ofertas variadas, de café espresso a cervejas maltadas IPA.

Outros se esquivaram da tendência em direção à alimentação e estão se concentrando na cerveja artesanal e na infinidade de gins artesanais, novas mudanças nas tradições britânicas. Uma parte do país não viu qualquer fechamento de pubs: na verdade, na meca moderna de Hackney, no leste de Londres, o número de bares está aumentando.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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