Argentina tenta evitar termo 'moratória' para não ter custo extra

Denominação pode ter feito governo economizar cerca de US$ 4 bilhões

Mariana Carneiro
Buenos Aires

O anúncio de que o governo do presidente Mauricio Macri iniciou uma renegociação da dívida com credores internos mobilizou a imprensa e os políticos argentinos sobre o “reperfilamento” ou a “moratória seletiva” dos compromissos de curto prazo do país.

Na quarta-feira (28), o ministro da Fazenda, Hernán Lacunza, informou que só 15% das dívidas de curto prazo com investidores institucionais e com pessoas jurídicas serão pagas no prazo. O restante terá pagamento atrasado entre três e seis meses. 

O presidente da Argentina Mauricio Macri - Juan Mabromata/AFP

O governo também anunciou que enviará ao Congresso uma proposta para renegociar os prazos de pagamento dos títulos de longo prazo, o que é tratado como fundamental para que Macri chegue ao fim do mandato, em dezembro, sem uma escalada mais abrupta do dólar. A expectativa é que o texto seja entregue nesta sexta (30) ao parlamento.

A moratória parcial ou “seletiva” como comentam nos bastidores interlocutores da Casa Rosada, teria poupado cerca de US$ 4 bilhões ao governo. Há diferentes cifras circulando, que variam de US$ 4 bilhões a US$ 15 bilhões.

A dúvida se deve ao volume de pessoas físicas detentoras destes títulos —segundo o governo, elas serão poupadas do “reperfilamento” do passivo. Indiretamente, porém, são aposentados e investidores os que têm participação e cotas em fundos de aposentadoria e fundos de investimentos atingidos pela medida —o que é ignorado até o momento pela classe política argentina, polarizada a menos de 60 dias da eleição presidencial. 

Reportagem publicada pelo jornal Clarín, nesta quinta-feira (29), afirma que Macri teria pedido a ministros e integrantes do governo para evitar a palavra “default” e falar em um alongamento de prazo para os pagamentos em nome da estabilidade econômica. Macri também teria decretado que o tema fosse tratado apenas por sua equipe econômica, segundo o jornal. 

Outro motivo, entretanto, pode justificar a preocupação do governo argentino em evitar falar em moratória ou default neste momento. Caso seja oficializada uma falha no pagamento, serão acionados seguros de crédito que demandariam gasto extra ao país e a detentores de títulos.

É a cotação desses seguros um dos indicadores financeiros que mais espelham a instabilidade econômica argentina hoje. O risco-país (em inglês, credit default risk) atingiu 2.257 pontos nesta quinta.

Como resposta, o dólar abriu o dia com a cotação próxima a 62 pesos, maior cotação desde a semana posterior às eleições primárias que apontaram larga vantagem da oposição, da chapa peronista Alberto Fernández e Cristina Kirchner.

No fechamento, porém, o dólar recuou e voltou a 60,30 pesos, após forte intervenção do banco central argentino, que teria vendido no mercado à vista US$ 223 milhões. Em três dias, o banco central teria vendido quase US$ 1 bilhão. 

A queda rápida das reservas internacionais do país é uma das preocupações sobre como Macri encerrará seu mandato. O valor divulgado pelo banco central é que as reservas somam US$ 58,26 bilhões, mas a estimativa é de que menos de US$ 20 bilhões sejam ativos de liquidez, que o governo poderia acionar rapidamente para defender sua moeda. 

Um dos motivos do nervosismo dos mercados, que levou à moratória “seletiva” desta semana, é a dúvida sobre se o FMI liberará uma parcela de US$ 5,4 bilhões prevista para setembro após conversas consideradas negativas com o candidato da oposição, no último final de semana.

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.