Credores querem família fora da gestão da livraria Saraiva

Grupo de 21 editoras pressiona por nova governança em meio à discussão do plano de recuperação judicial da livraria

Rogério Gentile Raquel Landim
São Paulo

Um grupo que reúne alguns dos mais importantes credores da centenária livraria Saraiva está cobrando que a família fundadora se afaste da gestão do negócio.

A exigência tem sido feita em meio às discussões sobre o plano de recuperação judicial da rede varejista, que deveria ter sido votado nesta quarta-feira (7).

Fazem parte do grupo 21 editoras de livros, entre as quais líderes de mercado como Companhia das Letras, Melhoramentos, Nova Fronteira, Moderna, FTD e outras.

A Saraiva afirmou, por meio de assessoria de imprensa, que tem "concentrado seus esforços no diálogo com seus fornecedores para chegar a uma solução que equilibre, da melhor forma possível, o interesse de todos os envolvidos".

Sem condições de honrar dívidas de R$ 674 milhões, a Saraiva entrou com pedido de recuperação judicial em novembro do ano passado, a fim de obter um fôlego financeiro e evitar a falência.

Fachada da Livraria Saraiva em 1967 - Acervo/Folhapress

Com isso, obteve da Justiça a suspensão das execuções desses débitos até que seja aprovado em assembleia de credores um plano de pagamento. Até agora não houve consenso.

 

A Saraiva propôs pagar a boa parte de seus credores apenas 5% de sua dívida em 14 anos. O restante seria quitado somente após esse período e com o excedente de caixa a ser gerado pela empresa. Credores trabalhistas e fornecedores que aceitem continuar dando crédito para a livraria teriam condições melhores.

As editoras não concordaram com a proposta e começaram a trabalhar num plano alternativo. Segundo apurou a reportagem, a ideia dos credores é obter pagamento de uma parcela maior da dívida —cerca de 15% em 14 anos— e emplacar uma mudança expressiva na governança.

O grupo pleiteia que os credores tenham direito a indicar três dos cinco membros do conselho de administração da companhia. E caberia ao conselho indicar a nova diretoria executiva a ser contratada.

Jorge Saraiva Neto, CEO da empresa, resiste à proposta. Ele não quer abrir mão do comando da companhia fundada por seu bisavô, o imigrante português Joaquim Ignácio da Fonseca Saraiva, que começou o negócio como um sebo de livros usados no centro de São Paulo

A relação entre as grandes editoras e a atual gestão da Saraiva é bastante complicada. A rede varejista precisa, além de ter seu plano de recuperação aprovado, que os fornecedores voltem a vender por consignação, mecanismo pelo qual a Saraiva só paga os livros efetivamente vendidos.

 

As editoras passaram a vender a maior dos produtos para a rede apenas mediante pagamento à vista, preocupadas com novos calotes. Por outro lado, com a crise no mercado, temem abdicar de um canal de vendas tão grande quanto a Saraiva que é a maior rede de livrarias do país.

De qualquer modo, entre os credores persiste uma grande dúvida sobre as chances de sobrevivência da Saraiva. A despeito da moratória obtida nos últimos meses desde que a justiça suspendeu execuções contra a empresa, a Saraiva ficou no vermelho em todos os meses deste ano.

O prejuízo acumulado chega a R$ 114,1 milhões de janeiro a junho, de acordo com os relatórios apresentados pelo Lucon Advogados, nomeado pela justiça para administrar o processo de recuperação judicial da empresa. O último, referente ao mês de junho, apontou perdas de R$ 22,5 milhões (os números ainda foram auditados).

Para reduzir despesas e melhorar as margens do negócio, a Saraiva já fechou 30 das suas 104 lojas e deixou de comercializar produtos eletrônicos e de informática, que exigem mais capital de giro para financiar a operação. Os resultados, contudo, tem sido decepcionantes.

De acordo com a administradora judicial, em junho, as vendas brutas da Saraiva foram 50% menores em relação a junho de 2018 nas suas lojas físicas. As vendas por meio da internet sofreram uma queda ainda maior, de 62%, prejudicadas por problemas tecnológicos sofridos pela empresa.

Um laudo apresentado pela livraria aos credores, feito pela Galeazzi & Associados, afirma que o plano de recuperação judicial só é viável se forem realizadas as projeções de volume de vendas, preços, margem e demais aspectos operacionais e financeiros.

Apesar das medidas tomadas pela empresa, a margem bruta da Saraiva, mês a mês, têm ficado abaixo da previsto no plano de recuperação. Em junho, por exemplo, foi de 34%, enquanto a projeção era de 37,4%.

Segundo alerta feito pela administradora judicial, o sucesso do plano “pressupõe uma melhora significativa do indicador nos próximos meses”.

A Saraiva afirmou que prevê a votação do plano de recuperação judicial no dia 23 de agosto.

Outro problema que agrava a situação é o fato de que o mercado editorial sofre retração pelo quinto ano seguido. Em 2018, o setor encolheu 4,5% em valores reais, descontada a inflação.

Segundo pesquisa divulgada pelo Sindicato Nacional de Editores de Livros, o quadro segue crítico em 2019. Até junho, a queda nas vendas foi de 12,8% em relação ao mesmo período do ano passado.

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