Dólar vai a R$ 3,96 e Ibovespa cai 2,5% com piora de guerra comercial

Em novo capítulo de guerra comercial, China permite desvalorização do yuan

Júlia Moura Tássia Kastner
São Paulo

A China permitiu que o yuan, a moeda do país, se desvalorizasse para o menor patamar desde 2008, em um revide ao governo americano que confirma nova escalada da guerra comercial travada há mais de um ano entre os países.

O agravamento da crise entre os países, que uma semana antes negociavam um acordo, disseminou perdas pelos mercados financeiros globais e fez com que o dólar se valorizasse ante as principais moedas emergentes nesta segunda-feira (5).

Com o Brasil não foi diferente: a Bolsa brasileira quase perdeu o patamar de 100 mil pontos, atingido pela primeira vez em 19 de junho, e fechou a 100.097 pontos após um tombo de 2,5%. O dólar disparou 1,60% e fechou a R$ 3,9560, maior cotação desde 30 de maio, quando a moeda bateu R$ 3,98.

A depreciação pode gerar uma guerra cambial, já que a China se beneficia de uma moeda mais fraca em suas exportações, além de ser um instrumento de revide à sobretaxa de importação americana anunciada na quinta (1º).

O banco central chinês definiu o ponto médio diário de um dólar em 6,9225 yuans antes de o mercado abrir, seu nível mais fraco desde dezembro de 2018. O dólar terminou a sessão chinesa em 7,0352 yuans, nível mais fraco desde março de 2008.

A medida vem após o anúncio, na quinta (1º), do presidente americano Donald Trump de taxar, em 10%, US$ 300 bilhões de bens chineses. Trump justificou a medida ao acusar a China de não honrar os compromissos agrícolas definidos nas negociações de um acordo comercial.

Pequim negou as acusações e disse que a fala de Trump é "sem fundamento".

Com a piora das relações entre os países, a aversão a risco contaminou os mercados e derrubou Bolsas. Na Ásia, o índice CSI 300, que reúne as Bolsas chinesas de Xangai e Shenzhen, recuou 1,9%. Tóquio caiu 1,7% e Hong Kong teve uma queda mais expressiva, de 2,85%, pressionada pela greve geral desta segunda.

Na Europa, a Bolsa de Londres caiu 2,47%, Paris, 2,2% e Frankfurt, 1,8%.

Nos Estados Unidos, a queda foi mais expressiva. O índice Dow Jones recuou 2,9%, S&P 500 3% e Nasdaq, 3,47%. 

Segundo analistas, o anúncio de Donald Trump de novas tarifas aos chineses é um instrumento de pressão ao Fed, banco central americano, para que a instituição promova novos cortes de juros. Nesta segunda, Trump, inclusive, cobrou uma resposta do Fed frente à desvalorização do yuan.

Na quarta (31), a taxa básica de juros americana foi reduzida em 0,25 ponto percentual por conta de prejuízos que a guerra comercial traz a economia americana.

"Se os Estados Unidos e a China insistirem nesse caminho de retaliação incremental, a economia mundial entraria em recessão em 2020. A Bolsa americana testaria as baixas de 2018 e as moedas de mercados emergentes sofreriam nesse contexto. Se esse ambiente agressivo de guerra comercial persistir, esperaríamos cortes de juros do Fed de 125 pontos-base até o final do ano de 2020", afirma a XP Investimentos em relatório.

A Apple, que tem grande parte de sua produção na China, perdeu US$ 69,2 bilhões em valor de mercado desde o anúncio de Trump, na quinta-feira. As ações da companhia foram de US$ 208,43 para US$ 193,34.

No Brasil, o cenário exterior negativo levou o dólar a maior alta em três meses. A moeda americana subiu 1,6% nesta segunda, a R$ 3,9560. Na máxima do dia, a moeda chegou a R$ 3,968. 

O Ibovespa, maior índice acionário do país, recuou 2,5%, a 100.097 pontos. Durante o pior momento do dia, o índice recuou 3%, a 99.630 pontos. O giro financeiro foi de R$ 17,7 bilhões, acima da média diária para o ano.

As commodities também foram impactadas pelo receio a desaceleração da economia com a piora da guerra comercial. O minério de ferro recuou 4,86%, a US$ 100,55, menor patamar desde junho. As ações da Vale acompanharam e cederam 3,84%, a R$ 46,00. 

O barril de petróleo brent caiu 3%, a US$ 59,97, também o menor valor desde junho. As ações preferenciais, mais negociadas, da Petrobras recuaram 3,65%, a R$ 25,55. As ordinárias, com direito a voto, cederam 4,14%, a R$ 28,00.

"Se tivermos notícias mais positivas sobre as negociações e os dois países começarem a mostrar posições mais pragmáticas, esperamos que o Fed corte a taxa de juros em apenas 75 pontos-base até o final de 2020, com risco de que seja menos. Lembramos que a economia dos Estados Unidos, excluindo o risco da guerra comercial, está crescendo, e deve continuar performando muito bem a menos que alguém ou algo estrague a festa. Nesse cenário, vemos desempenho superior dos mercados emergentes com rendimentos muito mais altos e valorização nominal do câmbio", pontua a XP.

A aversão a emergentes levou o risco-país do Brasil medido pelo CDS (Credit Defaut Swap), espécie de seguro contra calote, disparou 8,6% a 143 pontos base, patamar anterior a aprovação da reforma da Previdência em primeiro turno na Câmara dos Deputados. 

Nesta semana, o projeto volta a ser discutido no plenário da casa. Novos pontos não podem ser adicionados na proposta, mas ela pode ser desidratada, com pontos rejeitados.

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