Entenda como o BC pode intervir no câmbio: venda à vista, leilão de linha e swap

Banco Central anunciou mudanças e vai atuar com um novo modelo de intervenção cambial

São Paulo | Reuters

O Banco Central anunciou na quarta-feira (14) mudanças em sua forma de atuar no mercado de câmbio: passou a vender dólares à vista, sinalizando que vai atuar com um novo modelo de intervenção cambial.

Entenda como BC pode intervir no câmbio.

1- Venda à vista dólares

O BC vende reservas internacionais, sem compromisso de recompra. O dinheiro é injetado no mercado. A última vez que o BC fez esse tipo de operação foi em fevereiro de 2009, ainda na esteira da crise financeira internacional.

A venda de dólares foi uma alternativa recorrente no governo de Fernando Henrique Cardoso logo após a criação do Real, durante o câmbio fixo. A venda chegou a ser apelidada de “ração diária” para o mercado.

A política nos últimos anos foi proteger as reservas, que hoje passam de US$ 380 bilhões dólares, para evitar desconfiança em relação à fragilidade financeira do país.

 

2- Leilão de linha

O BC também vende reservas internacionais no mercado à vista, mas estipula um prazo para recomprá-las. A modalidade foi adotada para aliviar pressões por demanda de dólar em momentos mais sensíveis, mas ao mesmo tempo preservar o colchão financeiro. Funciona como um empréstimo de moeda estrangeira. 

3- Swap cambial 

O BC não oferece moeda, mas opera com contratos financeiros numa operação chamada de "swap" (troca, em inglês). Nesse tipo de contrato, cada uma das pontas que o negociam se compromete a pagar a oscilação de uma taxa ou um ativo (no caso do contrato cambial, as mudanças no dólar).

No leilão de contratos de "swap cambial reverso", as instituições financeiras que compram esses contratos recebem uma taxa de juros. O BC, que vende os papéis, ganha a variação cambial do período de validade dos contratos.

Esses títulos são chamados de "reversos" porque o mais comum é o BC receber uma taxa de juros e pagar a variação do câmbio.  O swap reverso equivale a uma compra de dólares no futuro feita para o BC, instrumento muito utilizado para conter a valorização do real e a queda do dólar.

O swap tradicional é o inverso: o BC vende dólares no mercado futuro e quem compra está protegido em caso de desvalorização do real.

A decisão do BC de migrar das operações financeiras com swap para o mercado de venda de moeda à vista já vinha sendo ventilada nos últimos meses, inclusive por meio do aumento das ofertas de linhas de dólares com compromisso de recompra (que também afetam a liquidez no mercado à vista).

Em abril, o diretor de política monetária do Banco Central, Bruno Serra Fernandes, já havia destacado leilões de dólar no mercado à vista na lista de instrumentos de atuação cambial —junto com swaps e linhas com recompras—, ressalvando que a atuação à vista vinha sendo pouco usados devido ao desenvolvimento do mercado brasileiro de câmbio.

A última vez que o BC utilizou o swap cambial foi em novembro de 2016, quando passou a fazer leilões de rolagem de swaps tradicionais para conter a volatilidade cambial derivada da eleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos.

O BC informou que, de 21 a 29 de agosto, fará ofertas simultâneas de US$ 550 milhões de dólares à vista e de igual montante em contratos de swap cambial reverso.

A demanda por proteção contra a variação do câmbio esteve concentrada em operações financeiras —o de maior liquidez no Brasil. Isso justificava a atuação do BC via swaps.

Mas, segundo a autoridade monetária, a demanda por proteção cambial via swaps cambiais diminuiu. Na contramão, houve aumento na busca por liquidez no mercado à vista. Somando-se a esses fatores “a conjuntura econômica atual”, o BC decidiu alterar o formato de intervenção cambial, privilegiando o mercado à vista.

O estoque atual de swaps cambiais tradicionais do BC no mercado totaliza US$ 68,9 bilhões de dólares. As reservas internacionais somam US$ 388,4 bilhões de dólares (pelo conceito liquidez internacional).

A atuação simultânea visa trocar, por dólar à vista, um total de US$ 3,8 bilhões de dólares em swaps cambiais tradicionais que expiram em outubro e que ainda não foram rolados pelo BC.

O volume eventualmente ofertado em dólar à vista e não absorvido pelo mercado será novamente disponibilizado aos agentes financeiros via leilões de swaps cambiais tradicionais “para o complemento da rolagem”, conforme informou a instituição.

Segundo o BC, essas operações não afetarão a posição cambial líquida da autoridade monetária.

“A troca de instrumentos ocorrerá conforme a demanda dos agentes pelos diferentes instrumentos, por meio de leilões competitivos”, disse o BC em nota em seu site.

O BC enfatizou que a atuação “não altera” sua política cambial, “pautada no câmbio flutuante”, sem prejuízo da atuação da autarquia em busca da manutenção do regular funcionamento do mercado.

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