Temor de crise global derruba Bolsas, e BC vende reservas para frear o dólar

Atuação no mercado à vista é a primeira desde 2009; inversão de curva de juros nos EUA indica recessão

São Paulo

O temor de uma recessão global fez com que as principais Bolsas mundiais tombassem mais de 3% nesta quarta-feira (14). No Brasil, o dólar superou R$ 4. 

Para conter a disparada, o BC (Banco Central) anunciou a venda de dólar no mercado à vista pela primeira vez em dez anos, indicando que está disposto a reduzir o volume de reservas internacionais para acalmar investidores.

O motor da aversão a risco (quando investidores decidem se desfazer de aplicações mais instáveis em busca de ativos seguros) foi acionado pela divulgação de dados econômicos decepcionantes da China e da Alemanha —respectivamente, segunda e quarta economias do mundo. 

No país asiático, o mercado foi pego de surpresa com um crescimento abaixo do esperado em vendas no varejo e produção industrial. Por sua vez, o PIB (Produto Interno Bruto) alemão encolheu 0,1% no segundo trimestre ante os primeiros três meses do ano. O país está à beira da recessão.

Na prática, investidores encontraram novos indícios de que a guerra comercial travada há mais de um ano entre Estados Unidos e China efetivamente causa danos a economias de outros países.

O dia foi marcado por movimento atípico: pela primeira vez desde 2007, os juros dos papéis do governo norte-americano com vencimento em dez anos ficaram abaixo da remuneração dos títulos com prazo de dois anos. 

O normal é que ocorra exatamente o inverso: que os juros sejam mais altos nos títulos com vencimentos de prazos mais longos, e mais baixo nos de curto prazo 

Juro de longo prazo a uma taxa menor é um sinal de que o mercado prevê que a economia crescerá menos no futuro distante do que no presente. 

Traduzindo: investidores estão prevendo uma recessão.

Nas últimas cinco décadas, quase todas as vezes em que essa inversão foi registrada nos Estados Unidos, esse movimento precedeu uma contração da atividade na maior economia do mundo. 

Em outras nações desenvolvidas, como Reino Unido, a sintonia entre juros e taxa de crescimento do PIB também tem sido frequente.

A mais recente recessão americana teve início em dezembro de 2007, seis meses após a chamada inversão da curva de juros dos títulos do governo, em junho daquele ano.

No fim do pregão desta quarta-feira, os juros longos voltaram a ser negociados a um percentual superior aos de curto prazo, recuperando a suposta normalidade do mercado. A diferença entre as taxas é, porém, mínima.

"É a realidade que a gente começou a traçar no começo do ano, a desaceleração econômica está no radar, e não tem vencedor [nesse cenário]", afirma Fernanda Consorte, economista-chefe do Banco Ourinvest.

A moeda americana fechou o dia cotada a R$ 4,0410, alta de 1,78%, no maior patamar desde 23 de maio, período que havia já sido turbulento para investimentos em razão de fatores internacionais. 

O real terminou como a terceira moeda emergente que mais perdeu valor ante o dólar, atrás do peso argentino, ainda sob efeito da surpresa política com o avanço da chapa kirschnerista, de esquerda, na disputa presidencial deste ano, e do rand sul-africano.

Após o fechamento do mercado, o BC anunciou que irá vender dólares à vista, recorrendo a reservas internacionais, algo que não acontecia desde 3 de fevereiro de 2009.

As operações começam na próxima quarta-feira (21) e se estendem por uma semana, com vendas diárias de US$ 550 milhões e limitadas a US$ 3,8 bilhões. O volume representa cerca de 1% das reservas, que somam US$ 388 bilhões.

O economista Juan Jensen, da consultoria 4E, afirma que o valor ofertado é baixo em relação ao estoque das reservas e que o BC age corretamente ao identificar demanda por recursos no mercado à vista.

"É uma mudança de postura em relação ao que vinha sendo feito, mas se há uma demanda por dólar à vista não vejo problema. O nível das reservas é mais que suficiente para as necessidades brasileiras. Nesse nível de venda, não dá para dizer que há uma mudança de gestão de política cambial", diz o economista.

Jensen diz que o custo de carregamento das reservas caiu muito nos últimos anos, por conta da redução das taxas de juros no Brasil, mas que o nível das reservas ainda é considerado além do necessário por alguns especialistas.

As Bolsas americanas e a brasileira tombaram ao redor de 3%, em um termômetro da fuga de investidores de aplicações mais arriscadas. No Brasil, o Ibovespa cedeu 2,94%, indo a 100.263 pontos. O volume de 

negócios superou os R$ 21 bilhões, acima da média diária mensal negociada no ano, que é de R$ 16 bilhões.

Outro indicativo de que investidores andam pouco dispostos a deixar recursos em ativos de risco, como são os país emergentes, é o saldo de retiradas da Bolsa brasileira. 

O volume sacado por estrangeiros em 2019 ultrapassa R$ 17 bilhões —valor acima dos R$ 11,5 bilhões retirados durante todo o ano de 2018.

A B3 divulga os dados com dois dias de atraso, portanto sem o impacto do pregão turbulento desta quarta.

Para especialistas, apesar de não ser possível cravar que a recessão é inexorável, há razões de sobra para preocupação, como a guerra comercial entre Estados Unidos e China e indicadores que já mostram fraqueza na atividade das maiores economias do mundo. 

"Há muitas incertezas que dificultam prever o que ocorrerá com a economia global. Diferentemente do risco, a incerteza não pode ser quantificada, o que aumenta a insegurança", diz Igor Velecico, economista do Bradesco. 

A inversão da curva de juros é um sinal que perturba. É incomum porque investidores costumam ser mais cautelosos sobre decisões futuras, que envolvem mais riscos e imprevistos. Por isso, tendem a cobrar mais para emprestar dinheiro —seja para governos, seja para o setor privado— quanto mais longo for o prazo estipulado para o pagamento da dívida.

O resultado disso é que um gráfico de linha que reflita a diferença entre as taxas de títulos longos e curtos costuma ter o formato de uma reta mais inclinada para cima no fim do que no início.

Nos últimos dias, a inversão da curva de juros já vinha ocorrendo quando eram consideradas as diferenças entre as taxas cobradas do governo norte-americano em seus títulos de dez e um ano. 

A novidade nesta quarta foi que o mesmo movimento foi registrado em relação aos papéis com duração de dois anos, evento ainda mais raro. 

Segundo analistas, é importante notar que, nos últimos anos, a inclinação da curva de juros em países desenvolvidos já vinha diminuindo. Ou seja, a diferença entre taxas de longo e curto prazos tem sido menor do que o seu padrão histórico.

Essa mudança se deve a fatores como os fortes estímulos monetários praticados por países ricos após a recessão global de 2008, que, ao injetar recursos na economia, reduziu juros de curto e longo prazos.

Além disso, o mundo desenvolvido passa por um processo de envelhecimento populacional, cuja consequência é o encolhimento da força de trabalho e, portanto, do crescimento de longo prazo. A expectativa de menor expansão econômica reduz o risco de inflação e, portanto, a necessidade da elevação de juros para combater preços em alta.

Pode ser que as transformações estruturais mudem também o padrão histórico de que inversões da taxa de juros precedam recessões.

Para Velecico, embora uma recessão prejudique o Brasil no curto prazo, é possível que o país se beneficie da mudança no padrão de juros nos países desenvolvidos no futuro.

O analista diz que, com taxas de remuneração mais altas nos papéis de longo prazo, emergentes podem atrair recursos de investidores em busca de maior remuneração.

"Isso poderá beneficiar o Brasil se as reformas continuarem avançando e a percepção de risco fiscal no país diminua", afirma. 

Consorte, do Ourinvest, discorda. Lembra que a diferença de juros já existia e, mesmo assim, não há entrada de estrangeiros no país. Pelo contrário, eles continuam saindo.

Érica Fraga, Eduardo Cucolo e Tássia Kastner
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