Uma recessão virá. Quão ruim ela será?

Pistas do passado podem ajudar a prever o tamanho do prejuízo

Andrew Van Dam
The Washington Post

Uma recessão está chegando. Mas, a despeito dos sinais de alerta esta semana, temos pouca ideia de quando. Pode ser iminente, ou a economia pode continuar avançando devagar até que o universo morra por falta de calor ou, como poderíamos definir, até a Maior Depressão.

O quão ruim será a próxima recessão? Os prognósticos variam, e não dispomos de dados muito bons sobre eventos futuros. Mas temos muita informação sobre o que aconteceu no passado, e podemos buscar pistas nessas informações.

Cerca de 40 milhões de adultos americanos não passaram por qualquer recessão em suas vidas profissionais. Número quase igual, incluindo as pessoas da geração dos millennials, só viu uma recessão de seus 18 anos de idade para cá. Essa recessão, a devastadora Grande Recessão, que durou de dezembro de 2007 a junho de 2009, e talvez não tenha sido representativa.

Com o medo de recessão, investidores decidiram comprar títulos públicos de longo prazo da dívida americana - Johannes Eisele/AFP

Aconteceram 11 recessões nos Estados Unidos desde a Segunda Guerra Mundial. Em média, duraram 11,1 meses, de acordo com o placar oficial do Serviço Nacional de Pesquisa Econômica (NBER, na sigla em inglês). A mais curta durou apenas seis meses (1980), e muitas vezes é computada em companhia da recessão seguinte, em 1981-1982. A mais longa (2007-2009) durou 18 meses.

Os padrões do NBER são complicados, mas a regra geral dispõe que estamos em recessão se a economia se contraiu por dois trimestres consecutivos. De fato, as médias demonstram que a economia tipicamente se contrai em cerca de 1,4%, durante dois trimestres antes que o crescimento seja retomado.

Em média, depois de cerca de dois trimestres de desaceleração e cerca de 7% de queda (com base no valor médio mensal do índice S&P 500), o mercado de ações também começa a se recuperar. Nas piores recessões, o índice de ações caiu pela metade. Em outras, sofreu baixa de apenas alguns pontos percentuais - uma perda que pode ser revertida em alguns dias ou semanas.

Os empregos demoram mais a voltar - o desemprego tende a crescer por 15 ou 16 meses antes que o mercado de trabalho chegue ao fundo do poço. O índice de desemprego sobe em cerca de 2,4%, em média, ao longo desse período. O efeito varia de uma alta de 5% durante a Grande Recessão a uma alta de 2% nas recessões iniciadas em 1961 e em 2001.

Assim, para a maioria dos americanos que recordam a Grande Recessão dolorosamente, a próxima recessão, caso siga um percurso mais próximo da média, parecerá amena.

Em fevereiro, analistas da Goldman Sachs Research dividiram um século de recessões nos Estados Unidos em cinco categorias. Três delas, indústria, preços do petróleo e inflação, parecem menos prováveis hoje, os analistas escreveram.

  • Indústria: os problemas e dificuldades do setor industrial causaram pelo menos três recessões na primeira metade do século 20, mas hoje em dia a indústria dificilmente causa ou destrói prosperidade.
  • Inflação: a disparada descontrolada de preços, no passado o flagelo dos dirigentes econômicos, se manteve controlada pela maior parte da expansão econômica iniciada em 2009. Compare essa situação à do inicio dos anos 80, quando Paul Volcker, então chairman do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, empreendeu esforços bem sucedidos mas custosos para conter uma inflação de dois dígitos ao elevar as taxas de juros, e os viu seguidos por duas recessões.
  • Petróleo: o setor de petróleo evoluiu desde o embargo da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) em 1973, que ajudou a derrubar a economia americana. A gasolina e outros produtos de energia hoje respondem por menor proporção dos gastos dos consumidores do que em qualquer momento do passado. A revolução da fratura hidráulica permitiu que produtores de petróleo dos Estados Unidos acelerassem rapidamente sua produção e tirassem vantagem das altas de preços antes que estes possam virar de modo dramático.

Os analistas não descartaram tão rapidamente os dois F: (mercado) financeiro e (política) fiscal.

  • (Mercado) financeiro: o fator mais coerente nas recessões recentes - bolhas e mercados de risco - continua a ser grande ameaça, em princípio, escreveram os analistas do Goldman Sachs, mas eles parecem "estar tranquilos no momento, em parte por conta da cautela que a crise induziu por parte dos domicílios, empresas e autoridades regulatórias".
  • (Política) fiscal: os governos em geral se esforçam ao máximo para evitar causar recessões e, por isso, desacelerações com causas fiscais costumam acontecer depois de grandes guerras. Os gastos militares caem e a economia faz a transição para o ritmo de paz. Uma desaceleração vinculada ao vencimento de alguns dos cortes de impostos de Trump também poderia se enquadrar a essa categoria.

"Com a crescente polarização política e incerteza, a política fiscal mais ampla poderia se tornar um risco de ao menos agravar uma futura recessão", disse Jan Hatzius, do Goldman Sachs, em fevereiro.

"Quando a próxima desaceleração chegar, a disfunção política, acoplada a anos de alta nos déficits, pode tornar a política fiscal menos efetiva no estímulo à recuperação econômica."

Hatzius apontou na quinta-feira (15) que o recente acordo sobre o orçamento reduz significativamente o risco de uma recessão com causas fiscais.

A presente inquietação dos mercados parece ter por raiz a guerra comercial do presidente Donald Trump com a China. Há poucos precedentes para uma recessão autoinduzida causada por políticas comerciais protecionistas, com uma notável exceção. As tarifas Smoot-Hawley, aprovadas em 1930, não causaram a Grande Depressão, mas provavelmente a agravaram.

As tarifas Smoot-Hawley foram tão altas quanto as aplicadas à China, de acordo com Chad Brown e Eva (Yiwen) Zhang, do Instituto Peterson de Economia Internacional.

É difícil saber o que resultará no final da expansão. Pode ser uma morte por causas múltiplas —tarifas, desaceleração na economia mundial, a ressaca posterior à embriaguez causada pelo corte de impostos de Trump, a desaceleração do mercado de trabalho. Se tivermos um declínio lento, a sensação será a de uma recessão rasa, com alta modesta no desemprego e uma queda volátil mas não aterrorizante nos preços das ações.

Mas se as empresas e consumidores dos Estados Unidos e ao redor do mundo começarem a entrar em pânico, e se deixarem paralisar pela incerteza quanto ao que pode acontecer a seguir no comércio ou em outras questões internacionais, o desfecho pode ser muito pior.

The Washington Post, tradução de Paulo Migliacci

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