Descrição de chapéu The New York Times

O que é uma curva de rendimento invertida? Uma analogia esportiva pode ajudar a entender

Historicamente, fenômeno vem servindo como sinal de alerta para uma recessão

The New York Times

O mundo financeiro só fala na inversão da curva de rendimento. É um fenômeno no mercado de títulos sob o qual as taxas de juros sobre os papéis de prazo mais longo caem abaixo dos juros sobre os papéis de prazo mais curto, e historicamente vem servindo como sinal de alerta de que uma recessão pode estar a caminho.

Isso tudo parece evidente para as pessoas que conhecem bem a matemática do mercado de títulos e o funcionamento dos mercados de renda fixa, mas pode causar grande perplexidade aos demais observadores.

Talvez uma analogia com o mercado de apostas esportivas torne a intuição mais clara.

Qualquer adulto pode ir a um cassino nos Estados Unidos e apostar em como um time de futebol americano vai se sair na nova temporada. Por exemplo, os apostadores esperam novamente que o New England Patriots seja um time excelente —é provável que vença 11 ou 12 de seus 16 jogos. Os cassinos permitem que as pessoas apostem em quantos jogos eles vencerão na temporada.

Historicamente, fenômeno da curva de rendimento invertida vem servindo como sinal de alerta de que uma recessão - Xinhua - 5.ago.2018/Wang Ying

Mas e se os cassinos permitissem que a pessoa aposte não só em como um time se sairá este ano mas em como ele se sairá nos próximos dois, cinco, 10 ou mesmo 30 anos? Quanto você pagaria por uma aposta que prometa, digamos, US$ 10 em prêmio a cada vez que o Patriots vencer um jogo de temporada regular nos próximos 10 anos?

E se você pudesse vender sua aposta a outros apostadores, com o preço subindo e descendo de acordo com a mudança das perspectivas dos apostadores sobre as chances do time? Essencialmente, você poderia tomar o preço que as pessoas pagam por apostas de diferentes durações e, com a ajuda de matemática simples, calcular quanto jogos os apostadores esperam que o time vença a cada ano no futuro.

É mais ou menos isso que o mercado de títulos faz com relação às taxas de juros. Títulos com vencimentos em diferentes prazos são negociados constantemente no mercado mundial, e com ajuda de matemática bastante simples é possível calcular o que o preço dos diferentes títulos tem a dizer sobre as expectativas de mudança nas taxas de juros ao longo dos próximos anos.

As taxas de juros estão estreitamente vinculadas ao ritmo de crescimento econômico e da inflação. Em períodos de boom, muita gente quer tomar dinheiro emprestado para expandir seus negócios, por exemplo, ou comprar casas.

E o Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, elevará as taxas de juro que controla a fim de impedir um superaquecimento da economia, o que resultaria em inflação. Quando o momento é de desaceleração, o processo funciona na direção contrária.

Se você adquirir, por exemplo, uma nota de 90 dias do Tesouro americano, provavelmente receberá uma taxa de juros bem próxima àquela que o Fed determina como taxa básica de juros para o sistema bancário, e quaisquer mudanças que o Fed possa realizar no futuro próximo.

 

É como apostar no jogo da semana que vem. Sabemos muito sobre o oponente que nosso time enfrenta, sabemos se os dois times estão jogando bem, se há jogadores lesionados que possam afetar o resultado.

Mas se você adquire um título de dez anos do Tesouro, estará apostando no futuro mais distante. A economia provavelmente mudará muito nesse período. Não se pode prever exatamente o que acontecerá, mas a aposta será quanto ao direcionamento geral das coisas. Você antecipa que a economia se aqueça, criando pressões inflacionárias e levando o Fed a elevar juros? Ou espera um desaquecimento?

Assim, adquirir um título do Tesouro com prazo mais longo é como fazer uma das daquelas apostas de longo prazo no cassino sobre o desempenho do time por muitos anos no futuro. Você não faz ideia sobre os detalhes dos jogadores que serão contratados, ou sobre quem será o treinador. A aposta é em uma tendência geral.

Como uma aposta como essa funcionaria considerando dois times diferentes?

O Arizona Cardinals foi horrível no ano passado, e a maioria dos apostadores antecipa que continuará horrível este ano: a previsão de Las Vegas é que o time vencerá apenas cinco ou seis jogos. Mas eles selecionaram um novo e empolgante quarterback (Kyler Murray) no draft, e contrataram um novo treinador.

Mesmo que você não coloque fé no Cardinals para esta temporada, seria razoável antecipar que eles melhorarão nos próximos anos - que o futuro deles é melhor que seu presente. Se a maioria dos apostadores acreditar nisso, será possível discernir o fato com base na diferença entre o contrato de 10 anos de aposta no Cardinals e o contrato de um ano —isso pode revelar, por exemplo, que o time avançará da expectativa de cinco vitórias nesta temporada para a de nove vitórias dentro de dois ou três anos.

Ou considere o Patriots. Eles são o melhor time do esporte nas duas duas últimas décadas, mas seu quarterback, Tom Brady, tem 42 anos, e seu treinador, Bill Belichick, tem 67. Seria razoável antecipar que o time decline nos próximos 10 anos, quando esses dois astros se aposentarem.

Em outras palavras, o preço do contrato de um ano do Patriots provavelmente refletiria mais otimismo que o do contrato de 10 anos.

Essencialmente, os preços relativos dos contratos de curto prazo ante os dos contratos de longo prazo revelam se uma equipe é vista como em alta ou em baixa —não necessariamente hoje, mas em algum momento dos próximos anos.

É exatamente isso que a curva de rendimentos está fazendo: nos diz a diferença entre os juros de curto prazo e os de longo prazo, e com isso se os investidores antecipam que a economia vai melhorar ou piorar nos próximos anos. A curva de rendimento fictícia do Patriots está invertida, assim como a curva de rendimento real dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos.

Os movimentos no mercado de títulos nos últimos nove meses, e especialmente nas duas últimas semanas, são o equivalente do que aconteceria se Brady e Belichick anunciarem que esta é sua última temporada antes da aposentadoria.

A perspectiva corrente continuaria estável, mas o panorama para os próximos 10 anos pioraria. Taxas de juros de longo prazo inferiores às taxas de juros de curto prazo são um sinal claro de que os investidores em títulos acreditam que a economia dos Estados Unidos está a caminho de uma desaceleração - que o futuro parece pior do que o presente.

É o oposto de momentos como 2009, quando a economia estava em recessão e a curva de rendimento apontava para futura melhora. Em momentos como aquele, os Estados Unidos se pareciam mais com o Cardinals, um time ruim mas com espaço para melhorar no futuro e (possivelmente) as ferramentas necessárias a fazê-lo.

A boa notícia é que isso é apenas o palpite de investidores com trilhões de dólares apostados. E esse palpite pode estar errado. Talvez o Patriots encontre outro quarterback como Brady no draft, Belichick treine até os 80 anos e o time continue sempre perto do Super Bowl. Os preços de mercado podem estar errados.

Da mesma forma, os sinais negativos sobre a economia mundial podem estar errados, e a economia dos Estados Unidos pode continuar a melhorar a despeito do que a curva de rendimento sugere agora.

Muitas coisas surpreendentes podem acontecer em uma temporada da NFL, quanto mais em diversas delas. Isso é ainda mais verdadeiro quanto à economia mundial. 
 

The New York Times, tradução de Paulo Migliacci

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