Recrutamento às cegas pode abrir caminho para inovação nas empresas

Processo seletivo no qual a empresa não vê rosto e currículo do candidato foi tema do Arena do Marketing de setembro

Everton Lopes Batista
São Paulo

Um processo seletivo que não leva em consideração o currículo nem a aparência, mas sim as respostas e a avaliação das habilidades do candidato, o chamado recrutamento às cegas, pode abrir espaço para maior diversidade nas empresas e pavimentar o caminho para mais inovação.

“Não adianta esperar resultados diferentes fazendo sempre as mesmas coisas”, diz Wilson Negrini, COO da agência de publicidade lew’lara/TBWA durante a edição de setembro do Arena do Marketing, gravado na quinta-feira (19), em São Paulo. 

O programa, uma parceria entre a Folha e a ESPM, transmite mensalmente entrevistas com profissionais do marketing e da publicidade.

Processo seletivo no qual a empresa não vê rosto e currículo do candidato é tema do Arena do Marketing
Processo seletivo no qual a empresa não vê rosto e currículo do candidato é tema do Arena do Marketing - Agência Brasil

“Somos naturalmente puxados para a nossa zona de conforto. Quando chega um pedido novo de um cliente, a primeira resposta é a convencional porque o diferente incomoda e dá frio na barriga”, diz o executivo. 

 

A lew’lara/TBWA usa o método de seleção às cegas há cerca de um ano. Entre os contratados, estão um profissional com mais de 45 anos e uma pessoa trans, contou Negrini durante o programa.

“Fizemos essas contratações sem saber quem eram essas pessoas. Contratamos quem respondeu melhor o que estávamos perguntando”, disse Negrini.

“Não temos garantias de quem vai ser escolhido. Não sabemos se serão negros, mulheres ou pessoas mais velhas, por exemplo. Mas precisamos ter profissionais que representem as culturas que temos no Brasil, e a seleção às cegas acabou se tornando, para nós, uma ótima ferramenta para aumentar a diversidade na empresa”, acrescentou.

O processo feito pela agência é baseado em séries de perguntas, que devem ser respondidas pelos candidatos em uma plataforma digital. A empresa só conhece informações como rosto, sexo e instituições de formação depois que os candidatos são escolhidos.

Na fase final, os candidatos selecionados participam de uma entrevista presencial com os recrutadores. De acordo com a agência, 15 pessoas já foram contratadas por meio desse sistema. São profissionais de diferentes cargos, como estagiários, supervisores e profissionais de mídia.

Para Flávia Feitosa, professora do curso de administração da ESPM, que participou do Arena do Marketing, a diversidade que o recrutamento às cegas traz para as organizações pode ser um motor para a inovação.

“As empresas precisam de diversidade porque necessitam de olhares diversos sobre os problemas. Precisamos de uma visão global eter empatia com os que são diferentes de nós”, afirmou.

De acordo com Negrini, há um vício das empresas de sempre recorrer aos mesmos círculos de profissionais na hora de contratar, priorizando indicações de conhecidos ou a formação universitária dos candidatos. “Acabamos contratando sempre as mesmas pessoas, que vêm dos mesmos lugares.”

O publicitário lembrou que na área da comunicação é importante saber falar com os mais variados tipos de pessoas, daí a necessidade de ter um corpo profissional diverso.

“Ninguém acorda para ver propaganda. Como fazemos para ser relevantes e atingir pessoas que vêm de diferentes culturas e contextos? Devemos trabalhar com essas pessoas também”, disse.

Negrini conta que houve um desconforto inicial quando uma pessoa trans foi contratada. Para ele, é um estranhamento natural e que faz parte do processo de mudança da companhia.

“É muito mais fácil conviver com quem que eu já conheço. Gastamos muita energia para lidar com o novo, mas vivemos em mercados tão competitivos e com necessidades tão complexas que precisamos nos desafiar para sair da nossa zona de conforto”, concluiu Flávia. 

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