Investidores boicotam o Brasil por preocupações com desmatamento na Amazônia

Michael Stott
Londres | Financial Times

Quando a preocupação global com os incêndios que devastaram partes da floresta amazônica atingiu o auge, em agosto, um dos maiores investidores da Escandinávia lançou uma bomba.

A Nordea Asset Management, que controla mais de 200 bilhões de euros em fundos, anunciou que estava pondo em quarentena a dívida do governo brasileiro devido a riscos políticos e ambientais. O fundo interrompeu as compras de dívida soberana emitida pela nona maior economia do mundo e pôs em revisão suas participações existentes.

"Como a Nordea Asset Management investe dinheiro em prol de seus clientes, devemos sempre avaliar as incertezas políticas e ambientais para administrar riscos financeiros", disse a investidora norueguesa ao ser questionada sobre a medida.

A decisão fez parte de uma onda de movimentos de gestores de capitais e empresas multinacionais para limitar o risco de fazer negócios com empresas ou entidades brasileiras expostas ao desmatamento.

Essa preocupação foi intensificada pelas notícias do mês passado de que o índice de perda da cobertura florestal na Amazônia brasileira aumentou 30% nos 12 meses até o final de julho --o nível mais alto desde 2008, segundo estimativas do Inpe, a agência espacial brasileira.

A preocupação das empresas com o destino do maior sumidouro de carbono do mundo não se limita aos administradores de ativos. A varejista de moda H&M anunciou neste verão que deixaria de comprar couro brasileiro até que não haja qualquer risco de ela contribuir para os danos ambientais na Amazônia.

Grande parte da queima ilegal de floresta virgem ocorre para limpar terras para a criação de gado, cujo couro pode entrar na cadeia de suprimentos de empresas que vendem para varejistas no exterior. Os movimentos dos investidores mostram como as questões ambientais, sociais e de governança (ASG) estão subindo na agenda corporativa no Brasil.

"A consciência sobre as questões ambientais aumentou bastante", diz Marcelo Seraphim, chefe no Brasil dos Princípios para o Investimento Responsável (PRI na sigla em inglês), rede internacional de investidores apoiada pela ONU que se descreve como o principal proponente do investimento responsável.

"Tornou-se uma questão de sobrevivência no mercado global. É difícil sobreviver se você não estiver considerando questões ASG." O PRI conta com quase 60 empresas brasileiras entre seus signatários. Os princípios comprometem as empresas a adotar um código de práticas e apresentar um relatório anual sobre suas iniciativas para cumprir os princípios ASG.


Peter Taylor, diretor de ações brasileiras na Aberdeen Standard Investments, sediada em São Paulo, com US$ 6 bilhões em fundos administrados no país, diz que os investidores locais historicamente se importaram mais com governança do que com questões ambientais e sociais, mas isso está começando a mudar.

"A retórica sobre ASG cresceu mais rápido que a realidade", diz ele. "Mas a realidade também cresceu, e há muito mais trabalho sendo feito do que antes sobre questões ambientais e sociais."

Como outros investidores no Brasil, Taylor salienta que as questões ambientais em torno das ações são específicas de setores e empresas.

"Você está falando de empresas de proteínas, empresas de carne, principalmente gado e carne", diz ele.

"Não existe um viés forte na Amazônia para frangos e porcos [criação], mas existe para gado."

No entanto, há limites para o que o investimento ético pode realizar na região amazônica. Um grande problema é que a maior parte do desmatamento é obra de grupos criminosos, alguns ligados a madeireiros ilegais ou traficantes de drogas. A terra limpa é usada por pecuaristas ou mineradores ilegais, todos operando abaixo do radar dos investidores internacionais.


"O que está acontecendo na Amazônia não é, segundo nosso conhecimento, causado diretamente por empresas responsáveis ou mesmo empresas listadas em Bolsa", diz Jeanett Bergan, chefe de investimentos responsáveis do fundo de pensão KLP, o maior provedor de pensões da Noruega.
 

"[Conversamos com] as internacionais em que investimos, que estão principalmente expostas a comércio, uso ou financiamento de gado e soja na Amazônia. Eles estão tentando se engajar e agir para não contribuir para o desmatamento. O que está acontecendo na Amazônia é principalmente atividade ilegal."

Isso cria um problema para as empresas que tentam seguir os princípios éticos. O risco de que o couro de gado criado ilegalmente acabe na cadeia de suprimentos de um varejista, talvez vendido por comerciantes inescrupulosos, foi o que levou a proibições preventivas de empresas como H&M e o grupo de vestuário VF Corporation, sediado nos Estados Unidos, dono de marcas como North Face, Vans e Timberland.
 

Bergan diz que o fundo de pensão norueguês de US$ 80 bilhões, que põe na lista negra as empresas que violam suas diretrizes éticas, fala com muitas companhias em que investe sobre a gestão da cadeia de suprimentos: "Nós fazemos perguntas e as responsabilizamos".


O grupo brasileiro de frigoríficos JBS está na lista negra, embora Bergan diga que a principal razão disso é o risco de corrupção (um executivo da JBS testemunhou que a empresa subornou mais de 1.800 políticos ao longo de vários anos).

A mineradora Vale também é evitada depois de uma série de acidentes, incluindo o colapso da barragem de Brumadinho, no qual quase 300 pessoas morreram.

Apesar da pressão internacional para que as empresas brasileiras se tornem mais compatíveis com os padrões ambientais reconhecidos globalmente, nem todos os grupos empresariais do país ouviram a mensagem.

Um importante lobista empresarial brasileiro ainda insistia, em particular, que as campanhas ambientalistas contra o desmatamento na Amazônia constituem um "ato de maldade contra o Brasil" perpetrado por estrangeiros. "É tudo mentira", disse ele, furioso.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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