Existe uma bolha na Bolsa brasileira, afirma Luis Stuhlberger

Gestor do Verde diz que busca por ativos mais rentáveis pressiona demanda por ações

São Paulo

O presidente de uma das maiores gestoras independentes do país enxerga uma bolha na B3, a Bolsa brasileira, por causa da queda da taxa básica de juros, a Selic.

Luis Stuhlberger, presidente da Verde Asset Management, afirmou que a Selic no menor nível histórico tem pressionado a Bolsa ante a maior demanda por ativos mais rentáveis.

"No Brasil existe uma bolha na Bolsa. Os órfãos do CDI estão diversificando tudo o que aparece", afirmou.

"Isso é muito bom para economia brasileira, mas o mercado está praticamente forçando o Banco Central a cortar mais a taxa quando, na minha opinião, deveria ter parado no 4,75% para depois não ter que subir de novo", disse em evento do banco Credit Suisse, em São Paulo.

Para ele, a inflação pode chegar a um patamar de "não linearidade" em algum momento. "Além disso, o que mais impressiona é o mercado precificar inflação de 10 anos. Isso não é posição fácil de se fazer", afirma o gestor do Verde.

Luis Stuhlberger, gestor do fundo Verde - Anna Carolina Negri-03.fev.16/Valor

O posicionamento foi corroborado pelo fundador da SPX, Rogério Xavier.

Para ele, o nível atual de juros, de 4,5% ao ano, já deve ser visto com cuidado, uma vez que os efeitos da política monetária são sentidos apenas de 15 a 18 meses depois do início do ciclo.

"Com o efeito defasado, estaremos na meta em 2020, mas não há mais o que possa ser feito. É preciso primeiro ver a evolução das coisas e como se manifesta e se preparada a nova política monetária sobre a economia", afirma.

Para Xavier, a estimativa de juros nominais neutros da economia está em 6,5%.

"Se forçarmos a mão demais e fizermos uma política monetária muito frouxa, teremos que restringir de novo e voltar para os juros nominais de 8%. É um risco-retorno muito ruim para reverter e é preciso cuidado", diz.​

Apesar da avaliação de risco, Stuhlberger afirma que o fundo Verde mantém uma posição de 20% em ações brasileiras. "As pessoas físicas vão continuar investindo, até porque eu acho que o Banco Central deve baixar os juros de novo. E com juros a 4,25% [ao ano], a festa continua", disse.

Ainda segundo o gestor, o mercado de juros também é a bolha de ativos mais evidente no mundo. "A taxa de juros está distorcida em qualquer parâmetro histórico", completou.

Sobre a percepção de risco envolvendo o ano eleitoral nos Estados Unidos, os executivos também ponderam que a política monetária expansionista daquele país também estão distorcendo o preço dos ativos. 

De acordo com Xavier, ainda que exista espaço na política monetária de outros países para dar suporte no cenário mundial, existem riscos que podem levar a uma desaceleração do crescimento da economia global.

"Um dos riscos é o candidato democrata [Bernard Sanders] estar na frente de Trump [presidente dos EUA]. O segundo risco é o cenário caminhar para uma situação de hard brexit [que significa que além de sair da União Europeia, o Reino Unido também deixaria de participar do mercado único]. Outro ruído que também está presente são as eleições na Itália. Além dos riscos ainda desconhecidos", disse.

Para ele, caso o Trump seja reeleito nos Estados Unidos, o mercado pode encarar tal situação como uma "autorização" para que o atual presidente estadunidense volte a atacar a China e até mesmo a Europa no sentido da guerra comercial. 

Stuhlberger afirma acreditar que Sanders não teria "muita chance" contra Trump, mas que mesmo sem uma vitória eminente, ainda pode haver "algum estrago nas finanças públicas". 

"Os juros baixos favorecem os riscos e é verdade que faz os ativos de renda variável subirem. Mas a plataforma democrata trará claramente mais gastos com saúde e corte de impostos para pessoas físicas e o Trump precisará fazer pelo menos o mínimo para ter uma folga eleitoral. O problema é que os Estados Unidos arrecadam muito pouco e isso pode virar um problema no futuro", diz o gestor do Verde.

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