Veja como juro baixo muda a forma de investir, poupar e tomar empréstimo

Empresas buscam alternativas de financiamento, e governo ganha espaço para reduzir dívida

Tássia Kastner Eduardo Cucolo Alexa Salomão
São Paulo

Se a atual tendência de cortes prevalecer, a Selic, taxa básica de juro da economia, pode chegar ao final de 2020 abaixo de 4%. Descontada a inflação, cujas projeções indicam que tende a ficar entre 3,50% e 3,70% no período, a taxa real tem boas chances de se aproximar de zero, patamar sem precedente na história das finanças brasileiras.

Nenhum economista acredita que um juro real abaixo de 1% possa prevalecer por muito tempo no país, mas consolida-se entre os estudiosos do tema a percepção que o juro pode atravessar um longo período muito abaixo das médias visas nos últimos 30 anos –o que estabeleceria uma nova dinâmica para o brasileiro lidar com o dinheiro.
 
O pesquisador e professor de economia Samuel Pessôa visualiza espaço para grandes mudanças estruturais na economia caso esse cenário prevaleça.
 
“Juro real civilizado é a parte do Plano Real que ainda nos faltava. O Brasil tem uma antiga relação com taxas de juros muito elevadas, e um ciclo mais longo de juro baixo –que parece já iniciado– tem potencial para realizar uma revolução na forma como o país vive”, diz ele.

Entenda como juro baixo muda a forma de investir, poupar, tomar empréstimo - Gabriel Cabral/Folhapress

Pessôa lembra que juro baixo por períodos mais longos reduz o custo do crédito de forma consistente, o que amplia não apenas a capacidade de consumo das famílias, mas também de as empresas investirem, em especial em infraestrutura. “Juro baixo no Brasil vai baratear investimentos em área que dependem de capital intensivo, como a infraestrutura, levando a obras em áreas muito carentes hoje, como saneamento e transporte, gerando impactos sobre a geração do emprego e da produtividade”, diz ele.
 
Ele reforça que taxas menores também afetam diretamente quem vive ou complementa a renda com aplicações. Nesse caso, o efeito é o inverso. “Os chamados rentistas terão de trabalhar por mais tempo, também poupar mais”, afirma.

Entenda na sequência algumas mudanças que já estão em curso.

Migração para Bolsa é movimento inicial do pequeno investidor

Juros mais baixos tendem a mudar completamente a relação das pessoas com o dinheiro. Poupar, que já é difícil para uma parcela da população, passa a ser uma tarefa ainda mais complexa, enquanto o crédito ainda não dá alívio aos endividados.

Se a Selic de 14% ao ano dos anos 2015 e 2016 tivesse se mantido, um investidor que aplicasse R$ 1.000 em um título público conseguiria dobrar o patrimônio em seis anos —sem considerar taxas e imposto de renda sobre o ganho.

Com uma Selic constante em 4% ao ano, os mesmos R$ 1.000 só se tornariam R$ 2.000 em 18 anos.
O exemplo serve também para mostrar os efeitos da queda dos juros sobre a poupança. De um lado, dinheiro barato estimula o consumo, de outro, obriga a economizar para formação de uma poupança de longo prazo.

Mudam também os instrumentos. A Bolsa brasileira tem hoje 1,4 milhão de investidores pessoa física. Ainda que esse número seja questionado, por contar o mesmo cliente que investe em mais de uma corretora, ele embute um salto de 80% em comparação com o fim de 2018.

Cresceu de maneira também expressiva a participação de pequenos investidores em IPOs (oferta pública inicial de ações), a demanda por debêntures (dívidas de empresas) e fundos, como os multimercados e os imobiliários —essa última classe, negociada em Bolsa como uma ação, também superou 1 milhão de investidores.

Essa transformação pode ser lida como a primeira onda de pessoas que já têm algum patrimônio acumulado e não se satisfaz com rendimentos que mal batem a inflação. Com a Selic (juro básico da economia) em queda, é preciso buscar alternativas.

O estudo “Taxas de juros baixos e comportamento do investidor”, conduzidos por pesquisadores do MIT e da Faculdade de Chicago e publicado pelo Fed de Boston (braço do banco central americano), mostra que os juros cadentes elevam a demanda por ativos de risco, e que isso leva a sua valorização sem que haja necessariamente uma ligação com a economia real.

Em parte, é isso que explica a alta da Bolsa, que ronda os 105 mil pontos sem que a economia tenha se recuperado de forma consistente para viabilizar um cenário de lucros maiores para as empresas.

Do lado do investidor sem disposição a risco, a pressão é por opções com tarifas mais baratas. As corretoras oferecem fundos que investem em Tesouro Selic, primo menos pobre da poupança, para formação de reservas de emergência. Se tivessem custos, fracassariam em proteger o dinheiro de investidores.

Crédito mais barato pode levar a um boom produtivo

Dentro da mudança provocada pela queda da taxa de juro, grandes empresas já utilizam o mercado de capitais para se financiarem. No entanto, o setor industrial brasileiro reclama que a redução não chegou aos consumidores —fator essencial para que a mudança se torne permanente.

“A economia vai conviver com esse patamar mais reduzido de juros, mas precisamos que ele se transforme em taxas mais favorável para os tomadores de empréstimos, pois o nosso consumo e investimento se encontram em situação semi recessiva”, diz Flávio Castelo Branco, gerente-executivo de Política Econômica da CNI (Confederação Nacional da Indústria).

“Esse novo normal ainda não chegou aos tomadores de crédito”, afirma.

Segundo Castelo Branco, a manutenção do equilíbrio fiscal será importante para que a taxa básica se mantenha em patamares baixos, mesmo que seja necessária alguma elevação por conta de pressões de demanda nos próximos anos.

Na avaliação dele, uma Selic muito baixa, como tem sido previsto, não é sustentável, por limitações fiscais. No entanto, também não há espaço para ela retorne ao nível mais elevado de antes. “A economia mudou para um patamar de juros mais reduzido”, diz o economista da CNI.

“Isso é revolucionário. Muda toda a configuração da economia brasileira, mas para fazer mais efeito tem de chegar na ponta, no consumidor e na empresa”, diz André Rebelo, assessor de assuntos econômicos e estratégicos da Fiesp (federação das indústrias de São Paulo).

Rebelo afirma que isso depende de uma revolução dupla, do juro baixo e dos novos canais de crédito. “A gente tem um sistema bancário pesado, caro, com margem elevada, spread alto e pouco concorrência, um convite para os novos entrantes. Isso já está em gestação.”

Ele diz que o movimento de queda dos juros tem tudo para se tornar duradouro, na medida em que o governo for capaz de manter uma política fiscal consistente. Avalia ainda que os juros vão ficar baixos por muito tempo e, quando subirem, daqui dois ou três anos, não devem superar o patamar de 7% ou 7,5% ao ano.

Para a Fiesp, esse novo cenário de crédito mais barato abre espaço para um boom de demanda por produtos industriais. “Podemos viver um choque de aumento do endividamento saudável dos consumidores. Isso tende a ocupar a capacidade instalada da indústria e disparar o gatilho dos novos investimentos.”

O diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), José Ronaldo Souza Júnior, afirma que a reação da economia à queda dos juros não é imediata e que a volta dos investimentos dependerá também de melhorias no ambiente regulatório no Brasil.

Principalmente nos projetos de maior risco. “A reação não é imediata, mas alguma coisa já começa a reagir”, afirma ele.

Bancos seguram spread enquanto tentam se ajustar

Para os consumidores, a queda dos juros não tem ocorrido na mesma velocidade que a da Selic. Segundo especialistas, isso ocorre porque os bancos seguram os repasses, preservando a lucratividade, enquanto promovem ajustes para os novos tempos.

Se o repasse se mantiver lento, dizem economistas, a tendência é que o BC (Banco Central) faça cortes maiores.

“A gente está vendo [a queda da Selic] se refletir no mercado de crédito imobiliário, a construção civil residencial está avançando. No restante do crédito, o spread [diferença entre custo de captação e juro cobrado do consumidor] não está caindo, pelo contrário”, afirma Bráulio Borges, economista sênior da consultoria LCA.

“O que está acontecendo é que a taxa de juro na ponta não está caindo, e os bancos não vão derrubar a taxa porque, se derrubarem e o volume não crescer, isso afeta a lucratividade”, diz Luis Miguel Santacreu, da Austin Ratings.

Os grandes bancos brasileiros estão represando o repasse enquanto fazem ajustes: BradescoItaú e Banco do Brasil abriram PDVs (Programas de Demissão Voluntária) e estão fechando agências. 

Tentam deixar suas estruturas mais leves para concorrer com fintechs, que usam tecnologia para oferecer serviços financeiros a custo mais baixo.

Folha procurou os grandes bancos, que preferiram não comentar. 

“Os bancos não vão ter a rentabilidade do passado, vão ter que conviver com maior escala [no crédito]”, afirma Santacreu.

O ROE (retorno sobre o ativo, a medida de rentabilidade) dos grandes bancos brasileiros supera os 20%. Na média, é maior que a de seus pares americanos e europeus.

Para especialistas, isso se sustenta no spread elevado.

“O problema do repasse envolve o risco de crédito privado, e começamos a entrar no problema do spread bancário, que no Brasil é rigorosamente absurdo”, diz José Júlio Senna, chefe do centro de estudos monetários do FGV/Ibre e ex-diretor do Banco Central.

Para ele, os bancos ainda enfrentam dificuldades na retomada de garantias, mas, por outro lado, mantém spreads elevados sem justificativa, como no crédito consignado, cuja garantia é o salário. 

Apenas reformas estruturais que aumentem a competitividade seriam capazes de reduzir os spreads no Brasil. 

Isso passa por iniciativas em andamento, mas que não têm efeito de curto prazo, como o cadastro positivo, que está em vigor, mas ainda não coleta dados, e o open banking, que deve facilitar a entrada de novos competidores. 

Borges, da LCA, diz que sem queda do spread, o tombo da Selic será maior: “Quanto mais essas fricções forem, impedindo que a economia brasileira se acelere para 2% a 2,5%, mais o BC vai ter que cortar juros.”

Queda da Selic já trouxe alívio para cofre público

queda dos juros tem contribuído para conter o aumento do endividamento do setor público, no entanto, não é um fator suficiente para evitar que a dívida do país continue a crescer.

Os cortes na taxa básica da economia brasileira (Selic) já reduziu os juros pagos do pico recente de 8,37% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2015 para 4,96% do PIB em 2019. A dívida bruta, mas chegou a 80% do PIB e deve continuar a crescer nos próximos anos.

“No caso da dívida pública, a queda da taxa significa que o total de juros a pagar vai dar uma refrescada. Temos mais de R$ 4 trilhões de juros de dívida interna mobiliária. Vamos pagar R$ 200 milhões a menos em termos mensais, R$ 2,4 bilhões em um ano, mas a massa da dívida permanece monstruosamente grande”, afirma o professor Istvan Kasznar, da FGV.

A IFI (Instituição Fiscal Independente) divulgou nesta semana novo cálculo sobre os efeitos da redução na taxa de juros real sobre o endividamento do setor público.

dívida bruta do país é dada em percentual do PIB. Portanto, o crescimento da economia contribuiu para reduzir o endividamento, enquanto o déficit nas contas públicas e as taxas de juros agem no sentido contrário.

A instituição estima que, com juros reais de até 0,5% do PIB, seria possível estabilizar a dívida bruta no nível atual de quase 80% do PIB, mesmo com as contas no vermelho. Dado o baixo nível de crescimento previsto para este ano, no entanto, o déficit teria de cair pela metade para que isso acontecesse.

Com um crescimento na faixa de 2%, como estimado pelo mercado para 2020, mesmo com um déficit de 1,3% do PIB, próximo ao previsto, seria possível impedir que a dívida ultrapassasse a marca de 85,5% do PIB, pico previsto pela IFI, com o juro real em 0,5%.

A IFI, no entanto, trabalha com o juro real de 3,5% ao ano nos próximos anos, pois considera que a recuperação da economia vai restabelecer um quadro de pressão de demanda, “sem que mudanças significativas ainda tenham ocorrido do lado da oferta”.

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