Veja quais foram as melhores bebidas lançadas em 2019

Repórter da Bloomberg provou 317 destilados diferentes e escolheu os que considera os mais interessantes

Brad Japhe
Nova York | Bloomberg

Vivemos uma era de abundância para quem ama bebidas destiladas. E 2019 foi um exemplo especialmente bom desse excesso.

Quer você prefira sua bebida pura, com gelo ou em forma de coquetel; marrom, cor de vinho ou transparente; com preço inferior ao de um bom hambúrguer ou superior ao do mais novo iPhone, o ano que passou trouxe uma profusão de produtos para seu bar caseiro.

A IWSR Drinks Market Analysis prevê que o volume de bebidas destiladas de alto preço (US$ 30 ou mais por garrafa) vendidas nos Estados Unidos crescerá para mais de 30 milhões de caixas em 2023, um aumento de quase 30% ante 2018.

Embora uísques e conhaques continuem a superlotar as prateleiras dos produtos de alto preço, categorias menos prestigiadas, como a genebra, brandy e shochu estão aos poucos galgando a hierarquia rumo ao espaço premium.

Experimentei em 2019 exatamente 317 bebidas destiladas e dediquei os últimos dias a selecionar as melhores. Abaixo, as bebidas que considero dignas de atenção.

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Shochu Iichiko Saiten, um dos indicados pelo repórter da Bloomberg - Reprodução

Novos coquetéis padrão
 

De uma base assertiva a um modificador elegante, esses líquidos o ajudarão a criar coquetéis audaciosos e complexos.

Gim seco Vale Fox Top & Vixen 1651
Aproveitando uma receita desenvolvida por três dos mais renomados “bartenders” do planeta (Leo Robitschek, Jeffrey Morgenthaler e Gary Regan, que morreu em novembro), o produto de estreia da Vale Fox foi criado especificamente para uso em coquetéis. Além dos ingredientes botânicos tradicionais da receita –junípero, coentro e angélica -, a destilaria de Poughkeepsie, Nova York, macera limão makrut e chá vermelho de roiboos, em um destilado de trigo. O resultado é uma bebida suave com um aroma cítrico calmante e um toque de especiarias orientais que a distingue do gim seco tradicional. 

 Jenever Bobby’s Schiedam
A genebra, em geral encarada como precursora holandesa do gim (e soletrada com “j” neste caso), na verdade é uma categoria complexa que fica a meio caminho entre o gim e o uísque, deixando no palato a familiaridade botânica do primeiro e a sensação rica e arredondada do segundo. E em 2019, a bebida começa enfim a conquistar espaço internacional, principalmente por conta de lançamentos como o da Bobby’s. A genebra consiste de veludosa base de malte, temperada com junípero, citronela e cardamomo. Misture em partes iguais com vermute e Campari e terá uma bebida que fica a meio caminho entre um negroni e um manhattan. 

 Licor de coco Dorda
Não julgue uma bebida pela garrafa (ou pelas memórias da Malibu de sua juventude). Esse decadente licor não parece suntuoso visto de fora, mas por dentro tem um cerne de vodca de centeio Chopin acompanhada por flocos e creme de coco. Um milk-shake alcoólico despejado suavemente no copo, irradiando notas agradáveis de abacaxi por sobre cubos de gelo. Nada mais é necessário para que a bebida brilhe. Mas se você quer enriquecer seu café pós-jantar com um toque tropical, eis a resposta. 

 Campari Cask Tales
O histórico aperitivo italiano se uniu à tendência do envelhecimento em barril com essa variante envelhecida em barril de bourbon por em média seis meses. A cor e o aroma continuam indistinguíveis do original, mas quando a bebida chega ao palato, uau! Um toque final de carvalho surge do nada e surpreende os sentidos com tonalidades robustas de baunilha. Substitua o Campari tradicional por essa versão em seu próximo boulevardier e poderá desfrutar das complexidades comuns em um coquetel envelhecido em barril.

Mescal Del Maguey Las Milpas
Mais recente lançamento da Del Maguey Single Village (seu Wild Jabali entrou para minha lista no ano passado), a bebida vem da cidade montanhesa de San Dionisio Octopec, bem alto nas serras do estado mexicano de Oaxaca. Agave espadín com oito ou 10 anos de idade é fermentado ao ar livre e destilado duas vezes em pequenos alambiques de cobre. O que chega à garrafa é um liquido com uma nota forte de ervas e uma intensa mineralidade, com um sabor mais metálico do que outros mescals que curti em 2019. Para ajudar a firmá-lo, há um toque distante de frutas cítricas e lavanda, o que torna essa bebida perfeita para um irresistível old fashioned de mescal.

Xerez Tio Pepe En Rama
Esse exemplo sensacional de xerez fino não filtrado (sim, um vinho em uma lista de destilados), é seco, ligeiramente salgado e sobrenaturalmente querido pelos devotos dos coquetéis que se obcecaram recentemente pela categoria. Acidez brilhante e um toque de fermento significam que ele brilhará como adulterante em diversos arranjos clássicos, como os cobblers, ou no adonis. Mas é possível optar por bebê-lo puro na hora do aperitivo, para reforçar os sabores no jantar que se seguirá. 
 

Obras-primas maduras

Dormindo gentilmente na madeira por anos, esses líquidos luxuriantes emergem maduros e oferecem nuanças convincentes. Tons de púrpura profundo, uma sensação sedosa na boca e um sabor persistente evidenciam a longa interação com o barril.

Bourbon Michter’s 20 Year Kentucky
Esse lançamento limitado de um teste de edição especial tem teor alcoólico de 57,1% mas é mais suave do que muitos coquetéis de bourbon. A facilidade de beber é propiciada por um prisma de açúcar queimado, caroços de frutas e frutas secas tostadas, estruturado elegantemente de forma a sustentar cada gole. Por favor, beba puro. 

Uísque GlenDronach Master Vintage 1993
Os consumidores que desconsideram a importância de safras em bebidas destiladas fariam bem em considerar qualquer liquido produzido pela GlenDronach em 1993. Alguma espécie de alinhamento cósmico sorriu por sobre a destilaria das Highlands naquele ano, criando bebidas que são, sem exceção, excepcionais. E elas parecem só melhorar. O petardo deste ano passou um quarto de século amadurecendo em uma combinação de barris PX e Oloroso, emergindo com ricas ondas de sabor de bolo de frutas e ameixa; o retrogosto revela notas de couro e marzipã. 

Rum Flor de Caña V Generaciones
A garrafa mais exclusiva já produzida por essa aclamada destilaria nicaraguense também é a mais atraente, embalada em um bonito estojo de couro e com uma rolha de rocha vulcânica. Notas frutuosas profundas emergem no palato – cerejas maraschino, casca de laranja, abacaxi -, preparando suas papilas gustativas para a torrente de açúcar e especiarias que virá a seguir. Depois de 30 anos em antigos barris de bourbon (um tempo absurdo em clima tropical, onde até mesmo 10 anos de envelhecimento seria mais que suficiente), só resta rum suficiente para 411 garrafas. 

flor de caña
O rum Flor de Caña - Reprodução

Tequila El Tesoro Extra Añejo
Essa elegante tequila encontra o balanço ideal entre agave e carvalho. Embora muitos produtores optem por usar barris mais novos (às vezes virgens), sobrepujando suas expressões mais antigas com notas de caramelo e baunilha, Carlos Camarena, o destilador chefe da El Tesoro, é famoso por sua dedicação à pureza da planta. Ele utiliza antigos barris de uísque que já foram usados múltiplas vezes para outras tequilas, o que resulta em um impacto mais neutro sobre o liquido. Depois de meia década - a extra añejo só requer três anos de envelhecimento –, os elementos vegetais e terrosos continuem firmes, atenuados mas não subjugados pelo processo de envelhecimento. Beba pura. 

Uísque de centeio WhistlePig Double Malt
Produzido pela histórica destilaria Hiram Walker, em Windsor, Canadá, e envelhecido por 18 anos, esse uísque dramático é um dos uísques de centeio mais velhos no mercado, com surpreendentes componentes florais e de amoras adjacentes às especiarias mais características da categoria. Os toques inesperados vêm de uma mistura de grãos nada convencional, com 15% de centeio maltado e 6% de cevada maltada. A expressão serve como mais um indicador de até que ponto o uísque artesanal de centeio avançou na hierarquia das bebidas de luxo, e dos motivos para que o WhistlePig lidere a categoria.

Clássicos instantâneos

Essas marcas podem ser novidade para você, mas não demorarão a encontrar espaço fixo nas prateleiras dos bares.

Uísque Bruichladdich Octomore 10.3
Essa linha de uísques single malt de Islay se define como o uísque com maior teor de turfa no planeta. E ainda que seus lançamentos mais recentes tenham um teor de PPM [partes de fenol por milhão] de 114 – o Laphroaig 10 médio, em comparação, tem PPM de 45 – o caráter do produto é chocantemente equilibrado. Sim, há amplas indicações de iodo e borracha, no nariz. Mas por sob essas notas marcantes há subtons salgados de mel, pêssego e doces recentemente assados. Não é um uísque para principiantes, mas merece ser saboreado por aqueles que buscam uma compreensão melhor de um scotch esfumaçado.

Brandy Copper & Kings A Song for You
O brandy dos Estados Unidos está pronto para seu momento de destaque. E a Copper & Kings está no centro do palco. A destilaria sediada em Louisville usa uma mistura de eaux de vie com idades de até 18 anos para chegar a esse brandy complexo, com toques de figos secos, amoras silvestres e canela. O produto é capaz de enfrentar de igual para igual os mais finos conhaques, e por uma fração do preço. 

Shochu Iichiko Saiten
O shochu é uma bebida japonesa para consumo lento, produzida artesanalmente com baixo teor de álcool, com o objetivo de acompanhar alimentos. Com o Saiten, a Iichiko elevou o volume de álcool a 43%, posicionando o produto para os adeptos dos coquetéis. Destilado de cevada, o líquido exsuda tons apimentados de chá verde e raízes. Um toque final ligeiramente salino ancora sua relevância diante dos modificadores mais doces na receita. Use como substituto para gim ou vodca, a fim de intensificar o apelo umami de seu próximo martini. 

Amaro La Boîte American
Divulgado como um amaro que acompanha bem a comida, esse aperitivo com teor alcoólico de 50% opta por reduzir o amargor em favor da acessibilidade das ervas e frutas cítricas. Tomando por base uma camada de uvas vermelhas, uma maceração de mais de uma dúzia de produtos botânicos obtidos de uma famosa loja de especiarias em Nova York explica o nome do produto. Anis, casca de laranja e cardamomo verde lideram a carga, em uma bebida que vai melhor com tônica e gelo, e funciona sensacionalmente diante de uma tábua de frios. 

Bourbon Maker's Mark
Em setembro, essa lendária marca do Kentucky lançou sua primeira edição limitada: um bourbon com acabamento de lascas de carvalho, que são temperadas e tostadas antes de serem colocadas no barril. Ainda que as lascas passem apenas alguns meses dentro do líquido, que é envelhecido por seis anos, isso basta para criar uma sensação de caramelo, canela e frutas confeitadas. Em outras palavras, uma amplificação de tudo que as pessoas amam no Maker’s tradicional. É como um uísque beneficiado por drogas de melhora de desempenho.

Maker's Mark Private Select
Maker's Mark Private Select - Reprodução

Tradução de Paulo Migliacci

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