Descrição de chapéu Financial Times

Coronavírus pode custar mais de US$ 100 bilhões para companhias de aviação

Órgão setorial diz que prejuízo pode ser quatro vezes maior do que o estimado há duas semanas

Londres | Financial Times

A difusão do mortífero surto de coronavírus pode custar às companhias internacionais de aviação até US$ 113 bilhões em receita perdida, este ano, quase quatro vezes mais que o valor estimado duas semanas atrás, alertou a organização setorial da aviação.

A International Air Transport Association (Iata) alertou na quinta-feira (05) que o setor estava em zona de crise, por conta da rápida difusão mundial do vírus na última semana, pela Europa e nos Estados Unidos.

O anúncio surgiu no momento em que a Southwest Airlines, a maior companhia de aviação de baixo custo do planeta, anunciou que antecipava prejuízos de entre US$ 200 milhões e US$ 300 milhões no seu faturamento básico do primeiro trimestre.

A receita por assento/quilômetro –um indicador crucial do setor– nos primeiros três meses do ano pode até cair ante os números do período no ano passado, diante de uma expectativa prévia de crescimento de 3,5%.

O impacto sobre as grandes companhias de aviação dos Estados Unidos –nos últimos anos as mais lucrativas do planeta– parece estar crescendo, com a Delta e a United Airlines anunciando novos cortes em sua capacidade nacional e internacional, refletindo a queda súbita e acentuada na demanda por passagens, nos últimos dias.

A Delta está reduzindo seu número de voos ao Japão, e a United está reduzindo em 20% seus voos para a Europa e a Ásia, e sua capacidade nos voos domésticos em 10%.

A Iata anunciou que antecipava que as companhias de passageiros percam entre US$ 63 bilhões e US$ 113 bilhões em receita em 2020, um quadro muito pior do que aquele que ela pintou duas semanas atrás, quando a previsão era de perdas de menos de US$ 30 bilhões, com base principalmente na redução do número de voos de e para a China.

“Desde aquele momento, o vírus se espalhou para 80 países e as reservas antecipadas foram severamente atingidas nas rotas fora da China” afirmou a Iata em comunicado.

Funcionários trabalham na desinfecção de cabine de aeronave da Hainan Airlines - Pu Xiaoxu/Xinhua

Seus novos cenários são dependentes da gravidade do surto, com hipóteses que variam de contenção rápida a uma difusão mais ampla do Covid-19.

O vírus ajudou a levar a maior companhia de aviação regional europeia, a Flybe, a declarar falência, no começo da manhã de quinta-feira, enquanto a Finnair anunciava ter cancelado 1,1 mil voos por causa da epidemia.

Rafael Schwartzman, vice-presidente regional da Iata, disse que a quebra da Flybe é “prova de que ação urgente é requerida em toda a Europa, para proteger a conectividade aérea durante um período de crise quase sem precedentes”.

A organização setorial apelou na segunda-feira às autoridades regulatórias que suspendam regras que dispõe que as companhias de aviação que não usem pelo menos 80% de seus horários reservados de pouso e decolagem percam seus direitos aeroportuários.

Os cancelamentos generalizados quereriam dizer que companhias estão destinadas a perder seus horários, ou que seriam forçadas a operar voos sem passageiros para preservá-los.

“A suspensão temporária das regras quanto ao uso de vagas em aeroportos e um corte nos impostos por passageiro são medidas cruciais que os governos podem tomar para ajudar”, disse Schwartzman.

A projeção muito mais grave de prejuízos da organização vem depois que a demanda por passagens aéreas despencou seriamente no final de semana, forçando companhias de aviação de todo o mundo a congelar contratações e cortar seu número de voos, entre os quais os voos em lucrativas rotas transatlânticas.

Na quarta-feira, a Virgin Atlantic anunciou uma redução de 20% no salário de seu presidente-executivo, por quatro esses, depois de sofrer uma queda de 40% na demanda por passagens, ante o período um ano atrás –um sinal de que o vírus está prejudicando também a demanda por voos transatlânticos, e não apenas por voos curtos em rotas europeias.

As companhias europeias de aviação aceleraram seu cancelamento de voos nos últimos dias, com a British Airways cortando mais de 400 voos entre os dias 16 e 28 de março, para países que incluem a Itália, a Alemanha e os Estados Unidos.

A Ryanair também cortou seus voos curtos para a Itália em 25%, entre 17 de março e 8 de abril, e a Lufthansa e a easyJet reduziram sua capacidade na semana passada.

A organização setorial apontou que os preços das ações das companhias de aviação caíram em quase 25% desde que começou o surto, o que é uma queda 21 pontos percentuais mais alta do que a ocorrida em momento semelhante do surto de Sars em 2003.

A organização disse que sua projeção mais pessimista, de perdas de US$ 113 bilhões em 2020, representaria uma queda de 19% nas receitas mundiais com passageiros –uma escala equivalente à queda sofrida pelo setor durante a crise financeira mundial.

A Iata apelou aos governos mundiais que considerem ajudar as companhias de aviação prejudicadas, durante a crise. “As companhias de aviação estão fazendo o melhor que podem para se manter à tona”, disse Alexandre de Juniac, presidente-executivo da Iata.

“Quando os governos estudarem medidas de estímulo, o setor de aviação precisará ser considerado para assistência quanto a impostos, taxas e alocação de vagas nos aeroportos. Vivemos um momento de exceção”.
 
Financial Times, tradução de Paulo Migliacci

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