Mulheres sofrem mais com pobreza e fila do Bolsa Família

Governo tem atrasado liberação de novos benefícios por falta de orçamento

Rio de Janeiro

Eureni havia acabado de dar à luz a segunda filha quando teve uma desagradável surpresa: seu benefício do Bolsa Família havia sido suspenso.

Moradora de um CAE (Centro de Acolhida Especial) em São Paulo, a auxiliar de limpeza contava com os R$ 178 do programa para comprar itens para as crianças, como leite. Mãe de duas meninas, uma de dois anos e outra de seis meses, Eureni Oliveira, 39, está desempregada e desde setembro não recebe ajuda do governo.

Assim como acontece em milhares de famílias no Brasil, as consequências do corte no Bolsa Família recaíram sobre ela. A mulher é a única responsável pelas filhas, diante da ausência do pai.

O benefício de Eureni foi cortado depois de uma tentativa de atualizar dados no programa. Ela diz acreditar que o entrevistador teria errado e criado um novo cadastro. A explicação, no entanto, é uma hipótese.

Priscila Arruda do Amaral tem cinco filhas e aguarda há um ano na fila para receber a ajuda do governo  - Adriano Vizoni/Folhapress

“Quando a mulher está gestante ou amamentando, deve receber um acréscimo. Em vez de receber, foi cortado”, diz.

Enquanto aguarda resolução judicial, Eureni conta somente com a ajuda que recebe no abrigo. Desamparada, tentou reatar o relacionamento com o pai das crianças, mesmo tendo sido vítima de violência doméstica. Não deu certo.

O peso da maternidade solo também sobrou para a recepcionista Priscila Silva, 34, que diz enfrentar dificuldades para conseguir emprego por preconceito de empregadores.

“Oportunidade de trabalhar é difícil. Chego lá e falam ‘quantos filhos você tem?’. ‘Cinco’. ‘Ah, então tá bom, aguarda nossa ligação’. O que vou fazer com as minhas filhas, jogar no lixo?”

Há quase um ano, ela engrossa a fila de mais de 1 milhão de famílias que aguardam para entrar no Bolsa Família. Como a Folha mostrou, o governo praticamente suspendeu a liberação de novos benefícios no ano passado.

Documentos internos revelaram que o governo Jair Bolsonaro (sem partido) já havia sido alertado, em fevereiro de 2019, para o fato de que a verba para o programa não seria suficiente.

Ao menos cinco vezes, o Ministério da Cidadania pediu mais dinheiro para que a fila continuasse zerada. Os pleitos, no entanto, foram barrados pela Junta Orçamentária, formada pelos ministros Paulo Guedes (Economia) e Onyx Lorenzoni, então na Casa Civil.

Enquanto aguarda a liberação de verbas do governo, Priscila aluga por R$ 400 um apartamento de um cômodo na Parada Inglesa, bairro da zona norte de São Paulo. Sem renda há dois anos, vive de doações e ajuda dos amigos.

As filhas mais novas têm dois anos e um ano. O pai não quer assumir e Priscila não tem encontrado tempo para reunir as provas e acioná-lo na Justiça. Já o pai das três mais velhas é dependente químico.

A socióloga Silvana Mariano, professora da UEL (Universidade Estadual de Londrina), afirma que os efeitos da restrição no Bolsa Família atingem antes as mulheres.

“As mulheres, especialmente aquelas em situação de pobreza, são as primeiras vítimas do desmantelamento de políticas sociais.”

Em 2018, a pesquisadora entrevistou mulheres de todas as regiões do país que recebiam o Bolsa Família.

O objetivo era investigar a autonomia dessas mulheres e a possibilidade de quebra do ciclo intergeracional da pobreza.

As mulheres representam a enorme maioria dos titulares Bolsa Família, responsáveis pelo recebimento do dinheiro.

“Noventa e cinco por cento das famílias atendidas têm a mulher como titular. Quando esse benefício tem seu público reduzido, significa que menos mulheres têm acesso a essa forma de proteção”, diz.

O próprio governo indica que os titulares do benefício devem ser, preferencialmente, mulheres. Isso porque existe o entendimento de que elas costumam utilizar o dinheiro de forma mais eficiente do que os homens, pensando no bem-estar conjunto da família. Além disso, muitas assumem a titularidade por comandar famílias monoparentais —ou seja, na qual apenas a mãe ou o pai está presente.

“Existe uma alta taxa de famílias monoparentais, e essa taxa aumenta ainda mais entre as famílias em situação de pobreza. ”, afirma a socióloga.

Por outro lado, diz a pesquisadora, o crescimento da pobreza também atinge primeiro as mulheres. Segundo a socióloga, em momentos de crise, serviços como o da limpeza doméstica, aos quais muitas mulheres pobres se dedicam, se tornam mais escassos.

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