Setores intensivos em mão de obra param em quatro estados

Férias coletivas é a medida mais tomada entre empresas e entidades

Ribeirão Preto, Porto Alegre , Curitiba e Recife

A pandemia do novo coronavírus já provocou queda na demanda de carne, férias coletivas em frigoríficos e indústrias calçadistas de dois estados —que não descartam demissões— e paralisou o setor de confecções no agreste pernambucano e em Santa Catarina.

As férias coletivas são a medida mais tomada neste momento por empresas e entidades ouvidas pela Folha como forma de amenizar os impactos do coronavírus, por preservarem a economia de escala das operações industriais.

O setor de frigoríficos aponta que a queda na demanda interna será de 20%, motivo pelo qual está orientando as empresas a diminuir a escala de abate nessa proporção, segundo Péricles Salazar, presidente da Abrafrigo (Associação Brasileira de Frigoríficos).

Açougueiro manipula peças de carnes em estabelecimento comercial especializado em carnes
Açougueiro manipula peças de carnes em estabelecimento comercial especializado em carnes - Marcelo Justo - 26.jun.2017/Folhapress

A entidade afirma que há superoferta de carne em razão de as pessoas terem ido para casa, o que reduziu compras de setores como restaurantes. Assim, com a redução no abate —o que deve gerar queda no preço do boi—, o setor consegue permanecer em atividade e sem risco de desabastecimento, em sua avaliação.

O Minerva dará férias coletivas a partir de segunda-feira (23) aos empregados de quatro unidades de abate, em Janaúba (MG), José Bonifácio (SP), Mirassol D’Oeste e Paranatinga (ambas MT).

Segundo a empresa, a decisão “está alinhada à piora dos cenários doméstico e global, que inclui queda da demanda no segmento de food service e limitações logísticas em diversas partes do mundo”.

Já o JBS informou que concede férias coletivas em 5 de suas 37 unidades por 20 dias devido à menor demanda de exportação e que “essas suspensões temporárias são comuns em resposta às dinâmicas do mercado”.

Já no setor de confecções, o polo do agreste pernambucano, que movimenta R$ 6 bilhões por ano e ocupa 250 mil pessoas entre empregos formais e informais, parou em razão do avanço do coronavírus.

São mais de 15 cidades envolvidas na produção de artigos têxteis, com informalidade de cerca de 80%. “Não sei o que será de nós. Vivemos disso aqui. Falei com o pessoal e expliquei que não vamos mais continuar a produção. Não tem mais feira para escoar o que a gente produz”, disse Rodrigo Silva, 40, que comanda uma produção de 500 peças por dia, que emprega informalmente 20 pessoas. Ele diz que esta sexta-feira (20) foi o último dia de trabalho.

Por ano, o polo produz 225 milhões de peças de vestuário, representando 3,1% do total nacional. O secretário de Desenvolvimento Econômico, Bruno Schwambach, disse que é preciso a ajuda do governo federal para que o impacto seja minimizado.

Outro polo têxtil do país, Santa Catarina também está com as indústrias fechadas, em férias coletivas, em razão do decreto do governador Carlos Moisés (PSL) para conter o avanço do coronavírus.

São 9.042 indústrias dos setores têxtil e confecção no estado, com 159.591 empregados e receita de R$ 31,8 bilhões em 2018, representando 18% do total nacional, segundo a Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção).

No Rio Grande do Sul, o polo calçadista é afetado especialmente pela queda do consumo. Com shoppings fechados em diversos estados e comércio de rua funcionando restritamente ou completamente parado, a demanda diminui.

Segundo Haroldo Ferreira, presidente-executivo da Abicalçados (Associação Brasileira da Indústria de Calçados), 49% das indústrias tiveram cancelamentos ou adiamentos de pedidos. O ramo tem 2.000 indústrias no estado, incluindo ateliês, representando 33% do total do país. São cerca de 90 mil empregos diretos no estado, com parte significativa em férias coletivas.

“A primeira medida é a de férias coletivas. É um paliativo neste momento enquanto esperamos o que vai acontecer. A máquina está parando. Depois desses primeiros 15 dias é que vamos poder analisar como será o giro da economia.”

Demissões já ocorrem na indústria calçadista gaúcha, mas a Abicalçados ainda não tem estimativa.

A Grendene é uma das indústrias que concederão férias coletivas por 21 dias, a partir de segunda-feira.

Já no polo calçadista de Franca (SP), todas as fábricas paralisaram a produção por sete dias e os funcionários entraram em férias coletivas. O Sindifranca (sindicato da indústria) e outras entidades pediram à prefeitura a interrupção nas atividades.

O sindicato não descarta demissões nas indústrias, que fecharam 2019 empregando 17 mil trabalhadores. “Não é a nossa recomendação [demitir], mas isso pode ocorrer, vai depender da decisão de cada empresa, do momento econômico que cada uma vive”, disse José Carlos Brigagão do Couto, presidente do Sindifranca. A cidade fabricou 24 milhões de pares de sapatos em 2019.

A produção de carnes foi a exceção positiva do mercado de agronegócio brasileiro com a pandemia do coronavírus. Nos dois primeiros meses do ano, as exportações do Paraná para a China, por exemplo, aumentaram 78% em relação ao mesmo período de 2019. O estado é o maior produtor de aves do país e vice-líder em suínos.

Na avaliação do diretor da Frimesa, Elias Zydek, o Brasil deve, além de manter, fortalecer a produção de alimentos, como ocorreu em outros países atingidos pela pandemia. Para ele, é essencial que o país monte um plano para manter o fluxo de entrada e saída de proteínas. “O desafio de todos é manter viva a cadeia produtiva desde o produtor até o consumidor”, disse.

Francisco Turra, presidente da ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal), aponta que deve haver o mínimo de regularidade em relação a produção, como ocorre em países como EUA e Itália, mesmo no auge da crise. Ele receia que decisões judiciais sobre o trabalho de funcionários das indústrias atrapalhem as empresas.

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