Descrição de chapéu Coronavírus

Governo vai precisar ser mais seletivo para ajudar vítimas do coronavírus, diz economista

Para Ricardo Paes de Barros, crise vai aumentar flexibilização do trabalho

São Paulo

A crise do coronavírus vai demandar mais do que três parcelas de R$ 600 para muitos trabalhadores informais. Alguns vão precisar de ajuda por até um ano, diz o economista Ricardo Paes de Barros, professor do Insper e ligado ao Instituto Ayrton Senna.

Um dos pais do Bolsa Família e especialista em distribuição de renda, ele afirma que o desafio do governo será identificar as pessoas que continuarão precisando de ajuda quando a curva da doença estiver na descendente.

“A partir de um certo momento não vai dar para dar um tratamento igual para todo mundo”, afirma.

O professor Ricardo Paes de Barros, do Insper, em debate sobre o censo 2020 no Cebrap
O professor Ricardo Paes de Barros, do Insper, em debate sobre o censo 2020 no Cebrap - Divulgação/Cebrap

Para Paes de Barros, 66, a crise vai mudar a forma como a sociedade trabalha, no rumo de uma maior flexibilização. “A gente faz coisas que não são sanitariamente saudáveis”, diz ele, citando os ônibus lotados de trabalhadores que saem de casa ao mesmo tempo para o serviço.

Ligado ao grupo liberal Livres, ele diz que o Estado é fundamental nesse momento para liderar o esforço de gerenciamento da crise.

Qual será o impacto da crise sobre a desigualdade no Brasil? Essa crise começou em certa medida poupando os pobres, começou nas camadas mais ricas. Chegando nos mais vulneráveis, vai ter consequências sobre a saúde e a economia popular. Os pobres mais pobres, que já estavam muito desconectados da nossa economia, como o cara que está fazendo agricultura familiar no meio da ilha do Bananal, vão sentir menos, porque é uma crise dos conectados. Quanto mais conectado na economia, mais vai sofrer. A perda maior é dos pequenos empreendedores, aqueles que tinham um padrão de vida decente, viviam de trabalhos com renda quase diária, mas muito dependentes dos centros urbanos. O camelô, o motorista de táxi, todos esses vão sofrer muito, porque não eram tão pobres. Logo, têm muito a perder.

O que o sr. achou da resposta dada pelo governo para essas pessoas, de R$ 600 por mês? É super bem-vindo, claro. A questão é implementar isso o mais rápido possível. Tudo que a gente fizer agora é um primeiro passo. Estamos na curva de subida, longe ainda da descida. Há famílias que estão precisando muito e outras que não estão precisando tanto assim. A gente não está conseguindo diferenciar entre o motoboy que nunca teve tanto trabalho, e talvez não esteja precisando tanto de renda, daquela pessoa que perdeu completamente a possibilidade de continuar desempenhando suas atividades econômicas. Nesse momento, claro, ninguém vai parar para fazer isso. Na curva de subida o cara que não está precisando, mas amanhã pode precisar. Na descida, vamos precisar ser mais seletivos. Algumas pessoas vão precisar desse apoio por um ano, enquanto outras pessoas vão se recuperar rapidamente.

E como se faz essa seleção na prática? Essa é a grande questão. O governo vai ter que entrar com seus agentes: os comunitários de saúde, os dos centros de referência de assistência social (Cras). É preciso mobilizar todas as instituições, associações comunitárias, para que a gente consiga identificar as pessoas que mais precisam. A partir de um certo momento não vai dar para dar um tratamento igual para todo mundo. E teremos de obter essa informação ainda num ambiente de saúde pública complicado.

Os empregos que estão sendo perdidos agora voltam rápido quando a crise acabar? Aí é uma questão mais de otimismo ou pessimismo. Eu sou otimista. Obviamente que algumas atividades vão ter danos sérios e demorar muito mais. Toda a parte de turismo, transporte aéreo, por exemplo. Se continuar em estado de alerta mesmo com poucos casos, alguém que é uma manicure ou cabeleireiro não vai ter demanda. Se de repente você chegar à conclusão de que acabou com o vírus, a demanda por cabeleireiro vai ser gigantesca.

A crise pegou o Brasil no meio de uma mudança grande no mercado de trabalho, da chamada uberização, e após uma reforma trabalhista. Esses novos modelos mais flexíveis mais ajudam ou atrapalham nesse momento? Como toda crise, essa ensina que nós estávamos fazendo algumas coisas errado. Essa crise acontece porque em boa medida a gente tem ônibus hiperlotados. A gente faz coisas que não são sanitariamente saudáveis. Todo mundo vai todo dia para o trabalho na mesma hora, tudo sincronizado. Você tem de estar no trabalho, não pode estar em casa, ou em outro lugar. A crise vai questionar a gente, vai ensinar que dá para muito do trabalho ser feito tranquilamente à distância, vai gerar outros métodos de medir produtividade. Precisamos de relações de trabalho mais flexíveis, e o Brasil está caminhando na direção certa. Haverá muita mudança em termos da organização da sociedade. Como na Idade Média, as grandes pestes mostraram que a organização das cidades estava toda errada, que tinham que ter mais saneamento. Da mesma maneira, essa crise avisa que a gente tem de ter uma vida diferente.

Como liberal, como o sr. vê o protagonismo do Estado nesse momento? Tem uma célebre frase do [Barack] Obama [ex-presidente dos EUA], que o Estado ser pequeno ou grande é uma grande bobagem. Temos de saber se o Estado está fazendo o que a gente precisa de maneira eficiente. Esse é o momento em que a sociedade precisa de muita solidariedade. Nós precisamos pegar um conjunto grande de recursos públicos, aumentando a dívida de gerações futuras. Estamos fazendo um ato de solidariedade intergeracional. Quem tem a capacidade de conversar com as futuras gerações e pegar emprestado? Só o Estado.

Nos últimos anos, o discurso do Estado mínimo cresceu, o que pôde ser verificado na vitória de Bolsonaro e na agenda do ministro Paulo Guedes. Com essa crise o pêndulo tende a voltar para a defesa de um Estado maior? Na crise, tipicamente a mensagem do Paulo Guedes ou alguém como ele é de que a economia brasileira não precisa de liderança. Precisa ser deixada em paz, com a famosa mão invisível, que sozinha ela vai embora. Só que numa crise como esta, a gente precisa da liderança. Precisamos de uma série de ações coletivas. Fica claro que os governos têm de ter capacidade de gerenciar o que está acontecendo.

Teremos de repensar a rede de proteção social no Brasil? O que essa crise está mostrando é que ninguém no país pode ser invisível. Todos têm de ter um canal de comunicação com o governo de alguma maneira. Todo mundo tem de ter inclusão financeira. Todo mundo tem de ter uma conta no banco, um cartão tipo Bolsa Família. Um Estado moderno tem de estar muito bem informado sobre quem são os seus cidadãos e do que cada um deles precisa.

O sr. tem estudado muito a questão da educação. Essa crise pode nos levar com outros olhos educação à distância e homeschooling? Certamente. Talvez a gente não vá aproveitar a crise tanto assim, porque temos um nível de conectividade baixo, especialmente nas escolas públicas. Mundo afora, principalmente nos países mais ricos, isso vai levar a um aumento significativo das tecnologias de ensino à distância. Vai ser particularmente importante para a educação superior, até no Brasil. Na educação básica a gente não vai conseguir aproveitar tanto. O avanço vai ser relativamente lento.


Ricardo Paes de Barros, 66

Cargos Professor do Insper, economista-chefe do Instituto Ayrton Senna

Formação Graduado em engenharia eletrônica pelo ITA, tem mestrado em estatística pelo Impa (Instituto de Matemática Pura Aplicada) e doutorado em economia pela Universidade de Chicago

Carreira Foi economista do Ipea por 30 anos e trabalhou na Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência (2011-15)

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