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Investidor só voltará a ter dividendo no longo prazo, dizem especialistas

Empresas tendem a reduzir distribuição de lucros aos acionistas ante atual crise do coronavírus

São Paulo

A quarentena promovida para conter os avanços da pandemia do coronavírus e o fechamento do comércio em diversos estados brasileiros já trouxe queda nos resultados das companhias.

Sem perspectiva de até quando a quarenta e o consequente impacto financeiro devem durar, as empresas já sinalizam a necessidade de reter caixa para passar pelo período de receita menor. Para as companhias listadas em Bolsa, isso também significa menos reinvestimentos e cortes na distribuição de lucros .

Nesse cenário, os investidores que buscavam rentabilizar por meio desses dividendos só devem ter retornos maiores no longo prazo, quando as receitas das empresas começarem a se normalizar, afirmam especialistas.

Para o analista da Guide Investimentos Henrique Esteter uma vez que as empresas terão uma maior necessidade de retenção de caixa, o ajuste em relação à distribuição de dividendos aos acionistas também se faz necessário.

“Temos acompanhado esse movimento muito forte [de mudança na política de dividendos] em todos os setores, e eles acontecem por dois motivos principais. O primeiro é para que a empresa consiga ter um caixa mais consolidado e, o segundo, é para que não seja necessário recorrer a crédito”, afirma.

Para os especialistas, a tendência é que pelo menos ao longo deste ano as empresas adiem seus dividendos ou até mesmo reduzam ou cortem completamente sua distribuição até que a situação esteja normalizada.

Para o analista da Ativa Investimentos Ilan Arbetman é importante destacar que esse movimento tende a ser provisório, apenas enquanto perdurar o isolamento e a necessidade de reter receita. A partir do momento em que haja uma maior clareza sobre até quando devem durar os impactos do novo vírus, a expectativa é que haverá readequação na distribuição de lucros.

“A queda nos dividendos pode ser uma consequência para os investidores, mas antes de tomar uma decisão é preciso ter em mente que isso é apenas no curto prazo”, diz.

Na prática, isso significa que empresas que sejam consolidadas no mercado e que tenham uma boa estrutura financeira ainda tendem a ser boas pagadoras de dividendos em prazos mais longos.

Segundo o professor do Ibmec (Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais) George Sales, ainda que a alta volatilidade da Bolsa assuste um pouco o investidor pessoa física, a orientação é de calma.

“A primeira lição para quem investe na Bolsa é que o dinheiro alocado ali precisa aceitar volatilidade. Isso significa que não pode ser um dinheiro de reserva de emergência ou para uso no dia a dia. Nesse período, mesmo aquela pessoa que investiu pensando em gerar dividendo, precisa ter calma e esperar. As perdas só acontecem quando o investidor realiza a venda na baixa [dos preços]”, afirma.

Para os investidores que possuem caixa livre e pretendem investir na Bolsa, os especialistas também aconselham uma análise sobre o tempo de investimento.

Para Esteter, aqueles que miram curto prazo precisam ter cautela, uma vez que a incerteza e a imprevisibilidade do cenário ainda são muito grandes.

“Não estamos mais vivendo um circuit breaker [mecanismo que interrompe as negociações quando o Ibovespa cai 10%] todos os dias, mas a volatilidade ainda é grande. É preciso estar atento. Por isso, se a ideia é curto prazo, sempre é bom buscar um profissional inteirado no mercado ou realmente tomar cuidado”, disse.

Já para o investidor que prefere alocar recursos no longo prazo, o analista afirma que a melhor estratégia é avaliar a liquidez das empresas para investir com tranquilidade.

“Como ninguém sabe quanto tempo a quarentena dura, é preciso investir em uma empresa que aguente ficar parada o maior tempo possível e que seja forte no setor”, afirma.

Os especialistas reforçam, no entanto, que caso o investidor seja mais avesso ao risco, talvez seja o momento de esperar, já que mesmo que alguns preços estejam baixos, a volatilidade nos preços ainda pode trazer perdas.

A redução dos dividendos também se estende aos fundos imobiliários, que são obrigados por lei a pagar 95% do resultado aos seus cotistas.

De acordo com o especialista em fundos imobiliários da Guide Investimentos, Daniel Chinzarian, alguns fundos podem precisar consumir caixa para cumprir com a obrigação do pagamento, mas os resultados distribuídos também devem mostrar redução, uma vez que os shoppings estão fechados e há uma maior negociação em relação aos preços dos aluguéis, por exemplo.

“O uso do caixa pode penalizar o cotista e levar à novas emissões. Mas é algo necessário porque não se sabe a duração dessa crise. Todos os fundos serão afetados”, disse.

O movimento se soma ao fato de que muitos investidores se desfizeram de seus papéis, o que além de fazer com que o preço das cotas despencasse, também diminuiu o dinheiro disponível para investimento dentro desses fundos.

Para Chinzariam, apesar do momento de incertezas, podem existir boas oportunidades nos fundos imobiliários.

“Muitas carteiras estão com um preço abaixo do que acreditamos ser o ideal e têm um grande potencial nos próximos meses. Fundos imobiliários de galpões logísticos, por exemplo, tendem a se destacar com o crescimento do ecommerce. Não pode agir por impulso, mas vale a pena avaliar”, afirma.

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