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Ascensão da direita reforça negacionismo ambiental e pressiona empresas a se posicionarem

Brasil depende fundamentalmente do governo federal na missão de combater o desmatamento

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São Paulo

Cenas inéditas no mundo político engendram as atuais preocupações ambientais do mercado. Diferentemente das cobranças internacionais que o país já vinha recebendo há pelo menos três décadas para implementar prometidas políticas de proteção ambiental da Amazônia, desta vez o desafio é convencer o governo de que as questões ambientais —recentemente consideradas pelo mercado— são reais.

A ascensão de governos de extrema direita no mundo traz na bagagem o negacionismo das mudanças climáticas, tachadas de conspiração comunista por governos como Trump e Bolsonaro. Eles também se recusam a reconhecer a legitimidade da ciência, a necessidade de políticas ambientais e até a atual pandemia.

É a primeira vez que o Brasil elege para a presidência do país um governo declaradamente antiambiental e que, justamente por isso, não consegue resguardar as exportações brasileiras diante da desconfiança internacional.

O Brasil depende fundamentalmente do governo federal na missão de combater o desmatamento, com dupla importância para as relações internacionais: cumprir o Acordo de Paris ao controlar a principal fonte de emissão de gases-estufa do país e, ao mesmo tempo, livrar as exportações do agronegócio brasileiro do fantasma da destruição da Amazônia.

Mas a escola de Trump e Bolsonaro não reconhece o desafio climático e bate de frente não só com os fatos, como também com a evolução desse entendimento nos fóruns internacionais dos últimos quinze anos.

A percepção da centralidade do desafio climático entre as questões ambientais veio com o prognóstico do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU) de 2007, que evidencia como o aquecimento global agrava as desigualdades e as outras crises sociais e ambientais, estressando cenários de escassez, migrações e guerras.

A ficha começou a cair nos fóruns econômicos junto às reflexões trazidas pela crise financeira de 2008, a partir de quando as reuniões do G-20 passaram a incorporar a agenda climática, com uma força crescente, pautando a União Europeia, contando com acenos cada vez mais consistentes da China e, por fim, isolando aqueles que vêm na contramão.

Eleitos respectivamente em 2016 e em 2018, Trump e Bolsonaro desafiam uma direção que foi apontada pouco antes, em 2015, na assinatura do Acordo de Paris. Com um consenso histórico, o acordo climático sinalizou uma guinada para a economia mundial, rumo à descarbonização.

O IPCC estima o prazo de uma década - até 2030 - para que o mundo reduza pela metade suas emissões de gases-estufa, poupando-nos dos cenários mais trágicos do aquecimento global, como a submersão dos países-ilha, que não deixaria economias incólumes.

Ou seja, a extrema direita chega ao poder na maior potência econômica do mundo, e logo depois, na maior potência ambiental, o Brasil, justamente quando se aperta o prazo para uma travessia segura à economia de baixo carbono.

A extrema direita nega a existência de uma realidade que o mercado internacional já se dedica a entender e para a qual se prepara, à medida que os limiares climáticos se aproximam.

Desde a ditadura militar, quando foi criada a Política Nacional de Meio Ambiente (1981), os governos penaram para implementar as políticas ambientais no Brasil, mas não precisaram se desgastar para reconhecer a legitimidade da pauta, como acontece agora.

De lá para cá, a divulgação das taxas anuais mais vergonhosas de desmatamento foram rebatidas por políticas que se consolidaram e atravessaram governos - como o aumento da Reserva Legal nas propriedades rurais da Amazônia em 1996, os aprimoramentos no monitoramento por satélite, que passou a contar com os alertas diários do sistema Deter no início dos anos 2000, e a moratória da soja, em 2008.

Entre 2008 e 2012, o Brasil descolou seu índice de crescimento econômico das taxas de desmatamento, que atingiram seus níveis históricos mais baixos enquanto o PIB agropecuário na Amazônia decolava. O Brasil argumentou na prática - e não no discurso superficial - como se concilia desenvolvimento econômico e conservação ambiental.

De 2015 para cá, a dicotomia entre meio ambiente e desempenho econômico se provou falsa novamente, dessa vez com a subida isolada do desmatamento, sem reações no PIB.

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, durante entrevista à Folha em seu gabinete, em Brasília, no mês passado - Pedro Ladeira/Folhapress

Já no governo Bolsonaro, o projeto de desregulamentação ambiental prometido em campanha é implementado com competência pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que toca a boiada de desmonte das políticas ambientais, enquanto é poupado pelo governo dos desgastes nas relações internacionais, administradas por Mourão.

A retórica bem treinada do vice, no entanto, é incapaz de redimir o circo de piadas, desdém e degeneração moral com que o presidente Bolsonaro respondeu às queimadas na Amazônia no ano passado, extrapolando as proporções da crise em vez de contê-la.

Bolsonaro começou negando os dados de desmatamento monitorados pelo Inpe, o que resultou na demissão do diretor da instituição. Enquanto grupos por trás do incêndio criminoso conhecido como Dia do Fogo dedicavam seu feito a Bolsonaro, ele culpava os ambientalistas pelos incêndios, em uma fantasia que embasou a incriminação de brigadistas voluntários no Pará e que fez sobrar acusação até para o ator Leonardo DiCaprio.

Diante de tamanho descolamento da realidade protagonizado pelo líder da nação, é claro e até mesmo uníssono o retorno dado por diplomatas e investidores que visitaram o gabinete de Mourão desde o início do ano: só os resultados expressos nos dados objetivos de desmatamento e queimadas podem atestar o compromisso do país com uma produção livre de devastação.

Essa mesma mensagem foi declarada à Folha nas últimas semanas pelo diretor do fundo nórdico Nordea, Eric Pedersen, e pelo embaixador britânico, Vijay Rangarajan, após seus encontros com Mourão.

Antes, em janeiro, o fórum econômico de Davos já havia dado o recado ao ministro Paulo Guedes, o que não tem servido para prevenir Mourão de similar vexame internacional.

Nas conversas em seu gabinete com diplomatas e investidores, o vice-presidente ainda se alça à tarefa ilusória de acertar no particular um tom de conversa que desinforme seu interlocutores e ainda lhe deixe a salvo das flagrantes desavenças com os fatos públicos.

O negacionismo do governo não conta com a cumplicidade do mercado internacional, que —em meio às turbulências pandêmicas, políticas e climáticas— busca nos fatos e nos dados científicos o mínimo solo firme para aterrissar.

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