Secretário da Agricultura vê hipocrisia em críticas ao país

Representante do ministério afirma que concorrência externa realça dados de desmatamento e queimada

Mayara Paixão Sheyla Santos
São Paulo e Brasília

Ao mesmo tempo em que acumula recordes positivos de produção e exportação, o agronegócio brasileiro enfrenta uma crise ambiental.

Com o pior setembro na série histórica de queimadas no Pantanal e situação igualmente preocupante na Amazônia, o mercado agrícola vê a urgência de reforçar práticas sustentáveis.

Durante o 4º Fórum Agronegócio Sustentável, realizado nesta segunda-feira (28) pela Folha, com patrocínio da Mosaic Fertilizantes, debatedores disseram que o desmatamento e as queimadas são prejudiciais à produção agrícola.

"Se alguém usa a queimada como prática agrícola achando que está fazendo algo bom, isso é falta de tecnologia. Especialmente em solos tropicais, o que dá sustentabilidade é a matéria orgânica", afirma Vinicius Benites, pesquisador da Embrapa Solos.

"Quem hoje faz queimadas sofre de falta de informação ou pratica um ato criminoso", diz Flávio Bonini, gerente de serviços técnicos da Mosaic Fertilizantes.

A presidente da Sociedade Rural Brasileira, Teresa Vendramini, acha injusto culpar o produtor pantaneiro, que vive em harmonia com a natureza.

"Ninguém sabe a origem do fogo. Pelo que eu escuto falar, é a combinação de um longo período de estiagem e elevada temperatura."

Ela acrescenta que se a causa for ação humana, é ilegal. "A prática das queimadas, que é secular, é proibida nessa época do ano. Se algum produtor estiver colocando fogo, ele está fora da legislação e errado."

Ainda sob investigação da Polícia Federal, o fogo responsável pela devastação de pelo menos 116 hectares do Pantanal mato-grossense partiu de cinco propriedades voltadas para pecuária, segundo mostra levantamento da ONG Repórter Brasil checado pela Folha.

O secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, Orlando Leite Ribeiro, diz que, em relação ao desmatamento, há uma "certa hipocrisia ambiental" na forma como a imagem do Brasil é tratada.

Ele afirma que a reação aos números de desmatamento e focos de incêndio no Brasil foi desproporcional e destaca que, em 2004, os índices de desmatamento eram o triplo.

"Se você pegar focos de incêndio de 2002 até 2008, foi muito pior. Em 2010, 2015 e 2017 também. O governo está trabalhando para que os números que registramos em 2019, e vamos registrar em 2020, não se tornem uma tendência", diz.

O secretário credita à concorrência o tom das críticas atuais. "Por que eles [os números] ficaram em evidência? Em primeiro lugar, porque assinamos acordo com a União Europeia, que em agricultura é extremamente protecionista e reagiu atacando o agronegócio brasileiro como se ele fosse responsável por mudanças no meio ambiente."

Em relação à pressão por boas práticas ambientais, diz que, se o consumidor está realmente preocupado, deveria prestar atenção à matriz energética.

Ribeiro afirma que a brasileira é extremamente limpa se comparada aos Estados Unidos, China, países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e a União Europeia.

"As emissões de CO2, de gases estufa, são muito mais danosas do que as práticas agrícolas. Nós [o Brasil] viramos meio bode expiatório nessa história", diz.

O debate foi mediado pelo jornalista Bruno Blecher, especializado em agronegócio e meio ambiente.


Assista ao vídeo do debate:


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