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pantanal

Brasil em chamas

O negacionismo de Bolsonaro, Mourão e Salles diante da devastação ambiental custa caro ao país

Agricultor no meio de plantação de banana destruída por incêndio no Pantanal.
Morador de terra indígena caminha em plantação de banana destruída pelos incêndios ocorridos no Pantanal. - Lalo de Almeida/Folhapress

O presidente Jair Bolsonaro causará novos danos à imagem do Brasil com seu discurso para a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas na terça (22). Dá-se como certo que, na frente ambiental, insistirá na narrativa falaciosa e insustentável de que o país merece parabéns por uma política que os fatos comprovam ter fracassado.

O Pantanal está em chamas —paradoxalmente, sendo a maior planície alagável do planeta. Mais de um quinto desse mosaico de vegetação riquíssimo em biodiversidade pode perecer na estiagem que favoreceu um salto de 200% nos focos de queimadas, neste ano.

A intervenção humana explica a maioria dos incêndios. Às vezes ela é intencional, quando pecuaristas e agricultores queimam biomassa de áreas já desmatadas. Em outras, sua contribuição é acidental, quando usam fogo para limpar pastagens e fagulhas alcançam a mata. O mesmo ocorre na Amazônia, onde os focos aumentaram 12%.

A destruição também está em alta na região amazônica, como o avanço das queimadas sugere. Grileiros e invasores promovem o corte raso em áreas públicas, terras indígenas e unidades de conservação, para depois queimar o resíduo seco sobre o solo. Fazendeiros fazem o mesmo nas propriedades, com ou sem autorização legal.

Dados não mentem. Imagens de satélite comprovam que mais da metade dos focos de incêndio na Amazônia ocorrem em terrenos de desmate recente, não em áreas que já eram usadas pela agropecuária.

Alertas de desmatamento lançados pelo sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), indicam derrubadas de áreas maiores em quase todos os meses de 2020 na comparação com 2019 —com as exceções de julho e agosto, quando ainda assim parecem ter ficado acima de 2018 e anos anteriores.

Essas são as informações mais recentes colhidas por satélites para orientar a fiscalização. Não oferecem a mesma precisão do sistema do Inpe responsável pela estatística anual de desmatamento, o Prodes, que considera o intervalo de agosto a julho e é divulgado em novembro.

O Prodes apontou mau desempenho no primeiro ano de Bolsonaro: 10.129 km2 de corte raso, 34% mais do que no período anterior e o maior registrado desde 2007/2008 (12.911 km2). A cifra, equivalente a meio estado de Sergipe, deverá ser superada em breve, quando forem divulgados os dados sobre o que aconteceu no período 2019/20.

Contra todas as evidências perfilam-se Bolsonaro e seus cúmplices no descalabro ambiental: o vice-presidente Hamilton Mourão, no comando do Conselho Nacional da Amazônia Legal, e Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente. O trio incinera o debate com um fluxo incessante de conceitos, notícias e dados distorcidos, quando não patentemente mentirosos.

O alvo predileto dos incendiários é o Inpe. Após tentar desacreditá-lo, na temporada de fogo de 2019, Bolsonaro enfrentou tormenta internacional de repúdio e fez o subserviente ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Marcos Pontes, demitir o diretor Ricardo Galvão.

Há poucos dias, coube ao general Mourão retomar carga contra a renomada instituição. Acusou o instituto de divulgar apenas dados desfavoráveis e ocultar recuos no número de queimadas. A denúncia era duplamente falsa: as informações do Inpe são públicas e indicavam a multiplicação dos incêndios na primeira quinzena de setembro.

O triunvirato da devastação é reincidente nas falsidades. Ora sugere que não há nada de incomum acontecendo, para depois dizer que o problema é a falta de bois para comer o capim antes que resseque e queime. A difamação do país seria obra de europeus protecionistas, cientistas e ambientalistas mal intencionados.

Mourão, Bolsonaro e Salles se irmanam para semear confusão e atrapalhar os órgãos na linha de frente do enfrentamento do problema, criando equipes redundantes com as do Ibama e do ICMBio enquanto desaparelham os institutos e contratando serviços milionários para fazer o que o Inpe já faz.

Enganam, quando muito, o contingente minguante de apoiadores fanáticos. No Brasil e no mundo, pesquisadores, banqueiros, investidores, ambientalistas, governantes, diplomatas e empresários inovadores são a cada dia mais veementes ao deplorar o desgoverno.

A devastação só beneficia a banda predatória do agronegócio, garimpeiros, grileiros e madeireiros ilegais. Destrói biodiversidade valiosa, realimenta a crise do clima, sufoca a população com fumaça em plena pandemia, desestabiliza chuvas que sustentam a agricultura e faz do Brasil pária internacional. Palavras de embuste não serão capazes de esconder essa realidade.

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